21 de julho de 2013

Granta, aqui vou eu

O Presidente e a Cagarra

"Quantas vezes tenho de dizer,
que não fui eu que disse isso,
foda-se?!"
Fernando Pessoa


1.
Selvagem, como as ilhas que piso

O Presidente sabia, melhor que ninguém, que não aguentava facilmente o terreno rochoso das ilhas onde se encontrava, mas, por outro lado, não queria dar sinais de fraqueza: o país precisava dele e não queria passar a imagem de velhote que mal consegue subir uma escarpa. Com a ajuda de um dos seus seguranças pessoais, o Ferreira, combatente nas ex-colónias e seu companheiro nas tardes de crapot, o Presidente ia subindo a custo, apoiando-se amiúde nos braços firmes do segurança, tentando sempre dar a sensação de que estava tudo bem, de que aquela subida não lhe sujava os ténis da Cat Merrel que a sua esposa o chateou para comprar, ele, que com a sua mísera pensão, se tinha contentado com uns Berg da Sportzone, ou, se o tempo estivesse bom, tinha ido de roupão e pantufas, mas já ninguém aguenta a indisposição da primeira-dama, portanto lá levou os ténis que ela escolheu, uma maçada, nem combinavam por aí além com a sua fatiota de Presidente em visita a terreno inóspito, mas, o que tem que ser tem muita força. não havia nada a fazer. A cada passo trémulo que dava, o Presidente evitava cruzar o olhar com quem o acompanhava: os olhos marejados, a voz a fugir-lhe no nevoeiro da rouquidão, a respiração a saltar em soluços de vinil riscado, isto custa-me horrores, confidenciou aos santinhos que a primeira-dama tanto adorava. Mas o que lhe custava mais, e isto nem a ele próprio admitia, era ver o presidente do governo regional das ilhas que visitava, inconsciente da sua galopante senilidade, a arrepiar caminho por ali fora como se houvesse um carnaval lá em cima e não pudessem começar sem ele, bolas!, pensou, lá vai o gajo mandar-me umas bocas assim que chegar lá acima, tenho de pensar numa resposta, se ao menos a primeira-dama aqui estivesse, pensou,  ela não deixa ninguém sem resposta, enquanto ia acenando aos comentários das pessoas que o acompanhavam nesta importantíssima visita oficial. Isto é que são as ilhas selvagens, pensou para si mesmo, grande coisa, deixa-me cantarolar, selvagem, uh uh, uma dentada em Lion, há muito tempo que não como um Lion, agora a primeira-dama só me deixa comer Kinder Surpresa e nem me deixa montar o brinde sozinho, enfim, selvagem sou eu, quando alguém nasce, nasce selvagem, não é de ninguém, já nem me lembro quem canta isto, deve ser de um baladeiro como o Nel Monteiro ou algo do género, bom, boa música independentemente do baladeiro que lhe dá voz, concluiu para si mesmo.
Continuou a caminhar em silêncio, os olhos presos no céu, com a sua infernal promessa de infinito. Era nestes momentos que o Presidente conseguia pensar em assuntos que realmente importavam, a sua mente parecia alinhar-se nos carris dos pensamentos fulcrais da sua existência enquanto chefe de estado, e o pensamento fluía mecanicamente e só parava nas estações que faziam a diferença: sou um bom líder para este país?, devemos acelerar a ida aos mercados?, será que me esqueci de deixar a gravar o Crime Disse Ela?, a mente do Presidente era precisa e eficaz como o Patek Philippe que ostentava no pulso.
Senhor Presidente, pareceu-me ter ouvido qualquer coisa, deve ser o vento, pensou enquanto ignorava o chamamento, Senhor Presidente, oh diabo, não é que estão a chamar por mim, deixa-me acenar enquanto sorriu, pode ser que resulte, Senhor Presidente veja isto!, não resulta, deixa lá ver o que este quer. Andou mais uns passos, sempre apoiado nas rochas, e viu, aninhada num pequeno ninho escondido nas rochas, uma cagarra.
- Olha, uma cagarra! - disse o chefe de estado, mostrando um contentamento de criança em visita de fim de ano ao jardim zoológico. - Bom dia! 
Os olhos do Presidente e da cagarra cruzaram-se e, naquela fracção de segundo, formou-se uma espécie de elo que, sem que ambos o soubessem no momento, iria perdurar para sempre. Várias pessoas, munidas de câmaras de filmar, aproximaram-se para captar o momento. A cagarra, meio assustada, piscou os olhos duas vezes e aninhou-se, desviando a cabeça e ignorando todo o aparato que se perfilava diante de si.
Quando a subida terminou, o Presidente tentou, subtilmente, fazer com a comitiva voltasse para trás: queria experimentar novamente aquela leve sensação de paz, queria fundir o seu olhar com a da cagarra: era como se ela lhe quisesse dizer alguma coisa. Senhor Presidente, onde é que vai?, gritou um dos seguranças, oh Ferreira, vai lá apanhá-lo que ele está outra vez sem saber onde anda!, Senhor Presidente, o caminho é por aqui! 
O Ferreira correu uns metros e abordou, com cuidado como lhe foi ensinado pela primeira-dama, o aparentemente confuso presidente, Senhor Presidente, temos de voltar para trás, o Presidente voltou-se, cerrou os punhos e disse, a cagarra espera por mim, mas, senhor Presidente, amanhã tem de fazer uma declaração ao país, venha lá. Ele suspirou, não evitando olhar para trás enquanto caminhava, contrariado, na direcção do Ferreira.

2.
Pesadelos, como fantasmas na neve

Foi um grito abafado, uma espécie de uivo em crescendo, como se umas mãos invisíveis lhe apertassem a traqueia. A primeira-dama acordou sobressaltada, Presidente!, acorde!, ai, que dá uma coisa ao homem!, exclamava enquanto abanava o presidente para este acordar. Ao abrir os olhos, distinguiu a figura da sua mulher na penumbra. A primeira-dama acendeu o candeeiro da mesa de cabeceira, uma estátua de uma mulher africana de formas abundantes e mais quentes que o Saara, como ele gostava de dizer, às escondidas da primeira-dama, que lhe tinha sido oferecida por um chefe de estado de um qualquer país africano. Já com a indiscreta luz da Vénus africana a banhar-lhes as faces, a primeira-dama abordou o assunto: Presidente, estás outra vez a sonhar com o Bochechas?, perguntou, enquanto lhe afagava a cara, o Bochechas já não existe, politicamente falando, por favor, não te preocupes mais. Ele ajeitou o cabelo e respondeu, não, não era isso hoje, sonhei com a cagarra, estás a ver?, ela abanou a cabeça pois não fazia ideia do que ele estava a falar, a cagarra falou para mim no sonho, sou como aquele miúdo da Guerra dos Tronos, não me lembro do nome dele. Aquele que apalpou a irmã e agora já não tem genitais, presidente?, perguntou a primeira-dama, confusa, não, não, respondeu o presidente, aquele que vê o corvo de três olhos e consegue encarnar nos animais, aquele moço que apanhou aqueles dois irmãos  em actos sodomitas e depois caiu da torre, vês, a sodomia faz mal à locomoção, agora anda sempre a ser puxado por aquele gajo que diz sempre a mesma coisa, o, como é que ele se chama?, o primeiro ministro? inquiriu a primeira-dama, não, não, o Hodor, ah, não sei quem é, afirmou a senhora, mas, Presidente, continuou, o que é que a cagarra te disse? Ajeitou a almofada e ergueu-se, demorando-se a beber do copo de água que tinha à cabeceira, ao lado do livro das memórias do Churchill e do livro da Criada Malcriada. Primeira-dama, a cagarra mostrou-me o caminho: sei o que devo dizer amanhã no discurso. Mas, Presidente!, não podes colocar o destino do país nas garras de uma cagarra!, a primeira-dama estava chocada com o que acabara de ouvir. Se os cidadãos deste país me confiaram o destino, porque é que não posso fazer uma parvoíce e aceitar o discurso da cagarra?

3.
Nas asas da certeza, no aconchego de uma nuvem

Apertou a gravata, sorriu ao espelho. Sabia que não podia demorar muito tempo na declaração, daqui a nada ia dar o Estoril - Sporting, e, mal por mal, já que o Sport Lisboa e Benfica não ia disputar esta final, tinha que torcer pelo Estoril, até porque gostava do amarelo das camisolas, lembrava-lhe o sol a sul, na sua terra de origem, onde, embalado pelo vento quente do fim da tarde, ajudava os seus pais no campo. Caminhou até ao pódio, ajeitou os papéis e saudou o país. Com a cagarra no pensamento, o Presidente afirmou convictamente que não havia crise política alguma porque, efectivamente, não tinha dado entrada nenhum pedido de remodelação do governo, aquilo foram os garotos a brincarem aos políticos, o raça dos miúdos, aquilo foi tudo da boca para fora, é como quando dizemos às miúdas que vamos casar com elas e tudo e tudo, é coisa do momento, até haver papéis escritos não vale nada, disse enquanto piscava o olho à audiência masculina. Portanto, meus amigos, concluiu, voltem lá para as suas famílias, parem lá com as brincadeiras, vão lá para casa jogar ao Spectrum e ao Sabichão, que o gajo, é do caraças, ele adivinha mesmo as respostas!, aquilo não se engana, porque o país não pode parar: faremos eleições para o ano, que diz que o tempo está mais fresco, é o ano do Mundial no Brasil, o Benfica, Deus nos valha a todos se isto não acontecer, vai ser campeão e vai andar tudo mais bem disposto. Portanto, amigos como sempre, vamos por isto para trás das costas e continuar a empobrecer preventivamente o país para não corrermos o risco de empobrecer no futuro, é mais ou menos como diz o Ned do Southpark: se não matarmos os animais eles aumentam em número e deixam de ter recursos e acabam por morrer, é mais ou menos isto. Obrigado.
Pousou os papéis e fechou os olhos. Viu a cagarra na sua mente, esta parecia sorrir-lhe. Sabia que tinha cumprido a sua missão. Abandonou a sala, tinha a primeira-dama com o roupão e os chinelos à sua espera, como sempre. A primeira-dama não estava minimamente preocupada com a crise política: sabia que pior do que isto estava era difícil, tal como sabia que daqui por um bocado começava o especial de domingo do Big Brother e, se o Presidente não visse tudo desde o início, depois acabava por adormecer mal disposto. Isto cada um sabe de si, pode ser que um dia alguém queira saber de todos.

Não tens de agradecer, Carlos Vaz Marques.

2 comentários:

São João disse...

Devias fazer isto mais vezes :D

Ricardo disse...

Não tenho vagar :|