1 de fevereiro de 2013

Qual papel?

Já sabem que adoro a CP e as suas intermináveis greves e os seus exageradamente caros passes, agora fiquei a adorá-los ainda mais: o meu passe, fruto da sua boa qualidade de fabrico, estava meio partido, que é como quem diz com o chip praticamente a saltar (Pipoca, estou contigo) e eu, fruto disso, era aquele gajo que faz sempre com que as filas para passar nas cancelas se prolonguem até ao fim da paciência das pessoas, provocando ataques de tosse e crises de pigarreação pontuadas por bufos ocasionais, eu era esse gajo por estes dias, até que me fartei e comecei a deixar toda a gente passar, fingindo-me distraído, lendo até ao fim do capítulo ou trocando a playlist no ipod, estive até para criar uma playlist chamada "enquanto esperas que as cancelas fiquem vazias", podia ter o Please Please Please dos Smiths, banda sonora mais que apropriada para a situação, a situação tornou-se de tal forma insustentável, aquilo já nem com um jeitinho lá ia, que me vi obrigado a pedir uma segunda via do passe, ora, tendo eu pago o mesmo até dia seis de fevereiro, tinha direito a que me dessem um título de transporte para esse período, e aqui começa algo que seria, num cenário ideal, ou num país normal vá, um pedido de resolução fácil e rápida, mas é, na realidade, uma proto-aventura da vida moderna: na primeira estação a que me dirijo, dizem-me que no Cais-do-Sodré fazem isso, no Cais-do-Sodre dizem que sim, mas só com o talão de pedido da segunda via, eu peço na minha estação de origem o papel, e, chegado ao Cais-do-Sodré vou lá com o papel para mostrar que ok, tudo bem, vou prencher os papéis e pedir a segunda via mas a senhora é irredutível: tenho que pagar primeiro a emissão da segunda via, e as minhas promessas de que iria entregar a mesma no dia seguinte, visto não poder perder mais tempo nesse dia e da merda do passe não funcionar e eu ter que ir para casa e ir trabalhar, não serviram de nada, então, passando por acaso em Belém, e vendo que o senhor da bilheteira estava lá abandonado e a precisar de companhia, decidi entregar logo ali o papel, quão enganado estava eu, que terna ingenuidade, "ah, não, isso é melhor ser no Cais-do-Sodré, isto aqui demora muito tempo, são dez dias, no mínimo, vá por mim, Cais-do-Sodré", sem comentários, segui o seu conselho e fui entregar no Cais-do-Sodré, mas claro que não posso entregar o papel e receber o bilhete temporário no mesmo sítio, que imaginação fértil que eu tenho para pensar que podia fazer tudo no mesmo sítio, não, claro que não, tenho de ir a um sítio entregar o papel e voltar à senhora mal encarada para pedir o tal bilhete, senhora essa que se gabava do filho ser excepcionalmente educado: não pedia um copo de água num café sem dizer por favor e obrigado, ena pá, pensei eu, esse miúdo é extraordinário, que educação, por favor alguém o torne um diplomata porque, com tamanha cordialidade, consigará certamente terminar com o conflito israelo-palestino, enfim, o importante agora é que já tenho o bilhete que me permitirá ser mais um a fazer com que a vida dos utentes flua, que é para isso que a gente cá anda.

2 comentários:

São João disse...

a minha mãe deixou de comprar conjuntos de 10 bilhetes porque ao fim de 7 o cartão desmagnetiza e ela fica a arder com o resto (claro que ela podia ir lá e fazer um requerimento a dizer que o cartão desmagnetizou e trá-lá-lá mas pronto, é como disseste)

Ricardo disse...

Estava a pensar em comprar um desses para não carregar o passe antes das férias... Vou pensar duas vezes.