6 de outubro de 2014
2 de outubro de 2014
Dois anos
"ah e tal tu és um cabrãozinho, ah e tal ela é nova, ah e tal assim que ela perceber como és põe-se a milhas, ah e tal...", dois anos depois, cá estamos, as pessoas gostam muito de arranjar problemas onde eles não existem, de julgar pela superficie e de prever fins e desastres. Nada a que uma pessoa não se habitue. Dois longos anos, com mudanças a nível pessoal e profissional, algumas delas complicadas, e cá estamos, os quatro (coitada dela que ainda levou com uma semi-adolescente a cair para o insolente e um cão peludo de proporções mastodônticas por arrasto), para o que der e vier. Ela chateia-se com as respostas da Catarina e a sua tendência irreprimível para a irresponsabilidade típica da idade, enerva-se com os pêlos do Link por todo o lado, passa-se quando ele pousa a cabeça na mesa enquanto estamos a almoçar, mas, no fundo, acho que ela não trocava nada disto. Acho eu. Se calhar é melhor não perguntar. E uma coisa muito importante, nestes dois anos o Benfica ganhou quatro troféus e foi a duas finais europeias. Se isto não é uma relação de sucesso não sei o que será. Obviamente que ela merece o céu por me aturar.
1 de outubro de 2014
Será medo, então
Ganhou o Medo. Agora quero ver o que é que estas mentes iluminadas vão escrever. Agora é que é a sério.
29 de setembro de 2014
O facebook como angariador de jantares grátis
Primeiro foram os banhos públicos, agora são as fotos de criança, as pessoas não conseguem arranjar mais desculpas para tentar extorquir jantares a outros? É tanto o desespero para um jantar grátis? E quantos desses jantares serão realmente pagos? Porque é que não mudam o texto para "eu decidi meter fotos minhas de criança porque era muito mais gira do que sou hoje e então arranjei aqui uma desculpa esfarrapada de um jantar ou não sei quê, mas isso agora pouco importa, vejam como era fofa"? Posso dizer, orgulhosamente, devo acrescentar, que ninguém me nomeou para uma ou outra coisa. Adoro vocês, gente não parva.
25 de setembro de 2014
Lu
Arrastaram-me para casa da minha mãe para receber uns sofás: a minha avó já vai com noventa e dois anos, coração fraquinho da perda recente do companheiro de uma vida, com uma audição terrível e, calculo eu, pouco dada a pagamentos em multibancos portáteis e coisas que tais. Lá fui eu, era para receber uns sofás mas acabei por redecorar a sala da minha mãe, tipo querido mudei a casa mas sem as teorias esbracejantes do Gustavo. Por motivos de razões e em virtudes de compromissos tardios algures pela vila de Cascais, durante a noite, acabei por ficar lá a tarde toda. Parece, cada vez mais, que serão as últimas tardes com a pessoa que me criou até ir para uma creche, aos dois, três anos. Ela diz constantemente que, se soubesse o que sabe hoje, teria-me estrafegado o pescoço. Não percebo bem porquê, mas a reacção das pessoas é geralmente acenar com a cabeça e dizer "hm, hm", num tom compreensivo, algo que eu compreendo ainda menos. Ela já não tem qualquer filtro: diz as coisas às pessoas, às vezes coisas mázinhas, às vezes embaraçosas ("tens o cabelo assim como o William de Inglaterra"), com a maior das naturalidades. Contou-me que ficava nervosa de ficar comigo em bebé porque sofre dos nervos e porque eu tinha muitas convulsões. Pensei que era por ser um bebé extremamente giro, diz que até me confundiam com uma menina. Isto aparentemente é um elogio. Ela vai puxando pela memória e, sem dificuldade nenhuma, vai contando histórias da minha mãe, do meu tio e do meu avô, histórias de filhos perdidos e dos primeiros tempos de casada, quando, a sortuda, morava na rua do Alecrim. E acaba por ser incrível perceber que uma pessoa que se enerva, desde que a conheço, com as mais pequenas coisas, que tudo e o seu contrário lhe fazem confusão, esta pessoa passou por certas coisas e descreve-as com uma segurança e uma força que lhe fogem da voz quando fala normalmente. Resta-me aproveitar e ouvir.
23 de setembro de 2014
They don't love you like I do, but I don't know you like them, they don't love you like I do, they love you better, I know you best
Estou com sérias dificuldades em acabar o Retrato do Artista Quando Jovem, uma dificuldade de uma dimensão com a qual nunca me tinha deparado enquanto leitor, devia pegar noutro livro e ir terminando este, mas nem sei bem o que vou ler a seguir, estava a pensar num Aquilino mas é melhor estar quieto, o Submundo está a chamar-me há demasiado tempo, o Demónios também, depois tenho as crónicas do DFW, a abundância de escolha dificulta tudo (vide as mulheres no clássico não tenho nada para vestir).
22 de setembro de 2014
19 de setembro de 2014
Devia ser proibido
Os sites de venda de imóveis não terem a morada dos imóveis listados. Que não tenham fotografias do exterior ainda se deixa passar... Uma pessoa vê um imóvel que até agrada, perto de tudo e mais alguma coisa segundo os anunciantes, mas depois vai-se a ver e é por trás do sol posto atrás de um terreno baldio virado para uma lixeira. Tempo é uma coisa que não assiste a muita gente? E sabem o que acontece por os anúncios não terem a morada? Perde-se o tempo, o que, parecendo que não, é chato porque o tempo não volta. Nem o tempo, nem a paciência. Pior que isso, só gajos que pedem valores por metro quadrado na zona da Parede como se estivessem no Chiado.
18 de setembro de 2014
Tema do próximo número da revista Detectives Selvagens
Pela primeira vez vamos ter um tema fixo para a revista. Podem votar aqui. Agora é que eu quero ver no que isto dá.
17 de setembro de 2014
Last of Us, a Estrada, o medo
Ando a jogar o The Last of Us. Ando mais ou menos, na verdade quem passa mais tempo com o comando é a senhora que me ofereceu a edição especial do jogo, eu, como bom homem, sou chamado a intervir nas situações mais complicadas. Talvez por poder observar durante alguns períodos de jogo, essencialmente de exploração, tem sido uma experiência diferente ao nível dos videojogos: consigo pensar em coisas que, se estivesse concentrado a jogar, talvez não pensasse. Ao passear pela paisagem desoladora do jogo não consigo deixar de traçar diversos paralelismos entre este jogo e a Estrada, do Cormac McCarthy: a sensação de abandono e, muitas vezes, de desespero, atravessam ambas as obras (o jogo é uma obra de arte, lidem com isso), o facto de viajarmos por um cenário pós-apocalíptico acompanhados de um menor (o filho no livro, aqui uma rapariga) e o encontrarmos grupos de sobreviventes com más intenções são também pontos em comum. A Time colocou um fotógrafo de guerra a jogar o jogo (este tem um modo de fotografia que podemos usar a meio da acção) parar tirar umas fotos do jogo e o homem sentiu-se desconfortável no papel do protagonista, pela violência das acções dele, e não conseguiu jogar mais, teve de pedir a um colega que jogasse por ele, o mariquinhas. Nos longos períodos que passamos a explorar não consigo deixar de pensar no livro do McCarthy, nas relações entre as pessoas, na confiança que devemos depositar ou não em quem nos rodeia, em como seria triste um mundo pos-apocalíptico sem coisas essenciais como jogos do Benfica. Quando recebi o jogo pensei que ia passar o tempo a disparar sobre hordas de zombies. Não podia estar mais enganado. Os zombies não são sequer a maior ameaça: servem, aliás, para tornar o jogo mais leve. As cenas mais violentas e que mexem mais connosco são as que se passam entre os humanos sobreviventes. Conheci pessoas que só gostavam de jogar “jogos de tiros”, como muita gente os apelida, se os inimigos fossem máquinas ou seres extra-terrestres ou zombies. Tudo menos humanos. Confesso que na altura ficava algo perplexo. Hoje em dia, e tendo sempre em mente a máxima “isto é só um jogo”, consigo perceber bastante bem a perspectiva deles. Para mim não existe uma linha que devamos traçar em termos de violência e terror numa obra, seja de que género for: depois cada um é livre de escolher o que faz com a obra. Até ignorá-la.
16 de setembro de 2014
Detectives Selvagens, número 1
Poesia: Júlio Ávila, Sofia Soares e Alexandre Carlos Mazony
Prosa: Madalena Serra, Diogo Serra, Jaime Lencastre, Inês Costa, Francisco Vilaça, Tiago Corte-Real e Marco Martins
Fotografia: Isabel Alves
Podem ler / sacar a revista aqui:
Revista
Goodreads
Foi, mais uma vez, uma mini-aventura. Já não sei como agradecer mais a esta gente toda. São os maiores.
15 de setembro de 2014
Carrega
Uma pessoa pede vinte orçamentos, recebe um como resposta. Espectáculo. Ninguém deve precisar de negócios em Portugal. Quando eu recebia um pedido de orçamento respondia imediatamente a acusar a recepção do mesmo e a indicar o tempo que demoraria a dar o orçamento. Achava que era o mínimo. Aparentemente não. E isto enerva-me.
12 de setembro de 2014
Ano escolar novo, vida nova
Hoje foi o dia de apresentação da criatura na nova escola. Mais do que a mudança de escola, entre o quinto e o sexto ano, preocupa-me a mudança do particular para o público. Está numa turma pequena, ponto positivo, tem sete repetentes, ponto negativo. Por um lado está mais perto da casa do pai e trabalho da mãe, por outro mais longe de casa da mãe e de casa das tias. A escola fica sempre bem classificada nos rankings. Tenho boas referências. Gostei do director de turma, as auxiliares de educação são o mais cliché possível, no bom sentido. Segunda começa a sério, vamos lá ver.
VFNO, já ganhou
Numa reportagem da TVI: "parece que estamos numa capital qualquer europeia, acho óptimo".
11 de setembro de 2014
Novo selecionador
Mas porquê a insistência em gajos como o Fernando Santos e o Jesualdo? Ok, foram campeões... Pelo Porto, clube onde o Vítor Pereira foi bi-campeão. Não me lixem. Qualquer equipa de ambos é um grande bocejo no que toca ao futebol jogado. Alguém viu a Grécia a jogar no Mundial? Pois. E o Benfica de Fernando Santos? Era sofrível. O de Jesualdo... Sem comentários. Jesualdo e Fernando Santos no Sporting? Não vou comentar para não acharem que estou a gozar com os sportinguistas.
Se fosse eu a mandar, primeiro que tudo, proibia o 4-3-3 na selecção. Ou o 4-5-1. Depois de termos um 4-4-2 à Jesus de 2014 ou à Jesus de 2010 como obrigatoriedade, era escolher um gajo que tivesse estaleca, não um gajo que fizesse adormecer plateias às primeiras sílabas. Porque não um estrangeiro? Deve haver aí uns desempregados jeitosos. Não há um gajo tipo Jurgen Klopp por aí disponível?
Rejubilai, Paulo Bento foi à sua vida.
"A Federação Portuguesa de Futebol comunica que hoje, 11 de setembro, termina o vínculo contratual de Paulo Bento com a FPF e ao serviço das Seleções.
Esta foi uma decisão tomada conjuntamente entre a Direção da FPF e Paulo Bento.
Agradecemos tudo o que Paulo Bento fez pela nossa Seleção, nomeadamente pelo apuramento de Portugal para o EURO 2012 e para o Mundial 2014.
A FPF já esta a trabalhar numa solução estruturada para dirigir as nossas Seleções e que será conhecida em breve.
Mais uma vez obrigado ao treinador Paulo Bento."
Granta, aqui vou eu III
África.
A voz saiu dela como um idoso desorientado por uma porta de um lar aberta por esquecimento de uma funcionária que estava preocupada em não perder a reportagem CMTV sobre os homens do fato que burlavam idosos no Portugal profundo.
África, confirmou ele. África.
Que raio de tema para o número três da Granta, o que esta gente se havia de lembrar, pensou. Ajeitou-se na secretária, alinhou e arrumou os papéis pela quarta vez durante a manhã, abriu e fechou as gavetas, alt e tab entre folhas de excel, o mail da empresa e A Bola, nada de novo, o Jonas ainda não tinha assinado, decidiu então desligar o computador.
Não sabia grande coisa sobre África. Pensou em fazer umas perguntas ao colega que tinha ido de férias para Moçambique, o facto de não ter paciência para ele fez com que rapidamente desistisse da ideia. Não sabia muito, mas sabia que a moda agora era o ébola. E o medo que ele tinha de apanhar o ébola: ainda uns dias antes, espirrou duas vezes e ligou para a linha saúde vinte e quatro para saber se tinha apanhado o ébola. Não achava piada nenhuma à doença, aliás, nunca tinha ouvido nada com tão pouca piada, o que, para alguém que tinha visto os três primeiros episódios do Sal, quer dizer muito. Era costume ligar à mãe, durante a noite, a dizer coisas como tossi muito ao adormecer, achas que tenho o ébola? Queria muito escrever sobre África, mas tinha medo de ficar doente.
Tens a certeza, Teresinha, que o tema é África? Eu, Poder, Casa, África? É este o encandeamento dos temas? Parece um telegrama do Savimbi a dizer que hoje vai jantar a casa depois de uma visita à Europa.
Ela encolheu os ombros, eu não escolho as regras, disse, apenas estou a transmitir-te o tema da revista, se quiseres escreves, se não quiseres não escreves.
Levantou-se da secretária, os colegas absortos nos seus qualquer coisa Saga da moda do facebook, Africa será, então, disse em voz alta, perante a indiferença de todos, Teresinha incluída. Fechou a pasta, bateu os calcanhares, disse meus senhores, bruxa, até um dia, e saiu pela porta, deixando Teresinha a questionar-se se o bruxa era para ela.
Estas chuvas em setembro não tinham vindo a calhar, uma pessoa não consegue escrever sobre África com temperaturas abaixo dos trinta e cinco graus centígrados. Pensou passar numa discoteca e comprar um disco do Bonga, para ouvir como inspiração, mas o melhor que conseguiu arranjar foi o Lisboa Mulata. Não era africano o suficiente. Depois pensou em ler Agualusa, mas o que o safou foi o facto de se lembrar que gosta muito de boa literatura então desistiu. Uma pessoa faz sacrifícios por um bom texto mas também há limites.
Chegou a casa, o continente negro na mente e no coração. Ligou o portátil, pôs o disco a tocar e disse para si mesmo, África, prepara-te, mete lá o ébola e essas coisas de lado, que aí vou eu. Ia batendo o pé ao ritmo da música, o cursor a piscar no ecrã, já tinha o título escrito. Releu o título, soa-me bem, bate lá isto, Mia Couto, disse, enquanto continuava a bater com o pé.
Quando se preparava para o triunfal primeiro parágrafo, lembrou-se do professor Bambo e de como este daria um belo vilão para uma história de capa e espada passada nas profundezas africanas, onde uma protagonista loira e bem apessoada estaria feita refém de Bambo e dos seus esbilros, enquanto estes disparavam o ébola pelas suas fisgas feitas de ossos de dinossauro e coisas do género. Era o terror. Até que o herói, munido de instrumentos esterilizados e ostentando um daqueles fatos amarelos anti-nojo, a salvava das garras do temível Bambo, antes que este previsse que ela iria ser traída pelo marido e que já era vitima de mau-olhado pela vizinha do segundo esquerdo, sim, que ela nunca a enganou, bem que ela estava sempre a lavar as escadas quando ela passava, com os saltos meio tortos de tanto dançar em cima de uma coluna no Urban, bem que ela sabia que ela lhe rogava pragas em nome da nossa senhora da Venda do Pinheiro, ela nunca a tinha enganado, por isso é que ela se sentia enjoada quando via o Dança com as Estrelas, não era nada dos gritos da Cristina Ferreira como dizia a melhor amiga pelo whatsapp, era por isso que ela tinha dificuldade em arranjar namorado e de certeza, certezinha, que foi por isso que o Bambo a tinha raptado numa noite de lua cheia ali ao pé do largo do Carmo, assim como quem vai para aquela loja de produtos saudáveis ou lá o que raio é aquilo, que uma loja que não venda coca-cola não merece o espaço imobiliário que ocupa.
Distraído pelos seus pensamentos, ignorou o telefone que tocava insistentemente. Bruxa, podia ler-se no ecrã. Estava na altura de mudar o disco de lado, pode ser que o segundo lado seja mais africano e eu consiga a inspiração necessária, pensou. Mudou o disco de lado e voltou a sentar-se, deixando o olhar demorar-se na janela: os prédios ao longe pareciam acalmá-lo, tão altos mas ao mesmo tempo parecendo tão frágeis. Pensou que poderia ter-se safado como construtor civil: via-se perfeitamente a andar de Mercedes tipo táxi mas em branco, terço branco que saía nos cereais pendendo hipnoticamento no retrovisor, camisa branca aberta até ao quarto botão, com jeitinho até conseguia que um ou outro pêlo do peito lhe saltasse para fora da camisa. Passaria a ser tratado pelo último nome (algo que sempre sonhou) e dar umas cachaçadas nas costas dos serventis, com piadolas como terceiro andar, a subir na vida não é Jeremias, seguido de riso alarve enrolado em bafo de bagaço de terceira categoria.
A folha continuava em branco e o disco ia girando como se nada mais se passasse em todo o universo. Chegou à conclusão que tinha fome e que não podia escrever de barriga vazia. Rapidamente percebeu a ironia da coisa e riu-se um bocado.
Foi quando pegou no telefone para sair e ir comprar qualquer coisa que reparou finalmente que tinha dez chamadas não atendidas da Bruxa e uma mensagem de voz. Ouviu a mensagem, empalideceu, deixou o cursor a piscar e saiu a caminho do hospital.
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