29 de março de 2014

Odisseia

O Frederico Lourenço diz no prefácio da Odisseia que "é uma tradução para ser lida pelo gozo de ler." Intenção mais do que conseguida. Pensei que ia encontrar algo mais denso, hermético: estava enganado. No entanto, tem sido bastante melhor do que esperava. Agora vou por toda a gente a ler a Odisseia, tenham paciência.

Deves ter um Continental GT

Aquele bonito momento em que a tua namorada entra no teu carro para te levar à estação de manhã e solta um ensonado credo parece que estou no século XVIII, enquanto olha para o tablier... e o meu carro é de dois mil e onze. 

24 de março de 2014

Ribas

Quando entrei para a faculdade, um amigo, todo Linda-a-Velha Hardcore, via nos Tara Perdida uns inimigos, batata frita pala pala o que é essa merda, perguntava-se ele, e eu não sabia responder, enquanto eu e outros ouvíamos os dois primeiros álbums: a produção era manhosa, algumas das letras eram de cair para o lado de más, mas, aos dezassete anos chegava e sobrava para, o que era  para nós, a continuação dos Censurados, banda que me faz lembrar os punks que se sentavam perto da estação de Cascais, sim, é verdade, havia punks sentados na estação, todos os dias, lá estavam eles, cristas e tudo, e eu todo betinho, cabelo à tigela, a pensar para mim que ouvia muita música em comum com aquela gente, isto em noventa ou noventa e dois, havia um dos punks que tinha um casaco de ganga com um patch gigante dos Helloween nas costas, e nas mangas tinha escrito a caneta azul CENSURADOS, e eu soprava a franja dos olhos e pensava que quando crescesse ia ser assim. Falhei na previsão. Um dos hábitos que tínhamos na faculdade era combinarmos de manhã (só tinhamos aulas às duas da tarde) à porta do metro na baixa para irmos à Carbono, na Almirante Reis. Na altura não havia cá metro no Cais-do-Sodré, essas mordomias modernas. Então lá íamos em excursão à Carbono, comprar cenas do nu-metal que era o que ouvíamos na altura, gastar contos como se não houvesse amanhã. E das imagens que eu guardo do Ribas é ele sentado nas escadas do centro comercial Portugália, onde era a Carbono, com uma garrafa de cerveja ao lado, e nós a passarmos e a olharmos para ele, ele a olhar-nos de lado e nós olha o Ribas, olha o Ribas, e ele sem nos ligar nenhuma, e isto aconteceu diversas vezes. 
Entretanto desliguei-me de Tara Perdida (lembro-me de ver o clip do Nasci Hoje no Sol Música, mas não liguei muito) até cerca de 2008. A Catarina, então com cinco anos, queria ouvir música em português para conseguir cantar as letras. Então lá andei a pensar no que ela podia ouvir, surgiram algumas bandas candidatas e eu fui submetendo-a (com uma selecção prévia feita por aprovação maternal por causa das letras) a vários testes, e ela gostou muito de Tara Perdida (dos três últimos álbums, deixei os dois primeiros de fora). Das imagens que hei de guardar sempre será ela, a caminho da escola, de farda, de punho pequenino no ar, ainda com voz de bebé, a cantar coisas como "um conceito que me dê força de libertação, um sentido de viver uma razão, querer sempre acreditar que por mais que eu possa errar espero sempre encontrar solução, quero sempre encontrar solução, e hei-de sempre encontrar solução" ou "o sentimento é imaginação, promessas feitas só por ilusão, nunca mais eu vou ficar aqui". Em 2009 fui vê-los ao Coliseu e ela não foi: tinha seis anos, era demasiado pequena, ainda liguei para o Coliseu para saber se havia alguma hipótese de ela ir, ficávamos cá atrás sentadinhos, era o sonho dela, ver Tara Perdida, mas, não, o bilhete dizia maiores de doze ou lá o que era, nada feito, lá fui ao concerto e ela, durante muito tempo, não me perdoou. Foi um concerto muito arriscado, uma banda punk de Alvalade a tocar no Coliseu? Estavam doidos. O concerto foi muito bom, estava uma boa casa: recordo-me do espanto do Ribas a dizer eh lá, está compostinho, parece um concerto a sério.
Ainda há um mês estávamos ouvir de manhã na rádio, a caminho da escola, que os Tara Perdida iam entrar em digressão, passando pelo Garage. Apesar de ela já não ouvir com a frequência de antigamente e agora andar a ouvir outras coisas que, enfim, fazem parte da idade dela, não resistiu a perguntar se íamos. Podemos ir, respondi eu. Não podemos. 
Em 2006 deram um concerto do caraças no Incrível Almadense. Em jeito de homenagem, um obrigado e um adeus, ficam as boas memórias.


22 de março de 2014

Quando disseram que íamos partilhar o palco os cabrões não estavam a mentir


(fotos daqui)

Épico. Até ponho um ponto final e tudo, eu que tenho a mania das vírgulas e dos "e" e do "stream of consciousness" e "das aspas", primeiro alguma confusão quanto ao sítio onde estávamos, e eu, eu avisei e tinha razão, estamos virados de frente para a plateia do coliseu, sentados nas traseiras do palco, e eles não acreditavam, pois, quando, na Elétrica Cadente, o pano se levantou (por favor que alguém tenha registado isso em vídeo...) e o Coliseu foi aparecendo, sombrio e vazio, nas costas deles, o espanto encheu a sala e marcou um dos momentos mais especiais de um concerto da vida de muita gente que ali se sentava, é isto, foi isto, dia quatro de dezembro haverá mais, desta vez da maneira convencional, e nós lá estaremos.



21 de março de 2014

Assim é batota



A Juventus tem o gajo do Ruptura Explosiva na comitiva, assim dá-lhes vantagem, o Bodhi é destemido e surfa à noite e salta de aviões sem para-quedas e bebe shots das mamas das gajas, o Benfica o máximo que tem é o Barbas e o gajo que se mascara de Papa, assim não vamos lá.

(sim, é o Patrick Swayze o gajo do filme, e sim, este é o Pavel Nedved)

19 de março de 2014

Caros senhores do Primavera Sound

Eu, pelo poder que me foi investido pelos senhores do Rock in Rio, proponho a troca da Lorde pelas Haim, sendo que ofereço, a título de bónus, o rapazito que toca antes e cujo nome não me apetece agora procurar no google. As raparigas cá de casa agradeciam. Eu não, nem tenho Haim no meu iPod. Aquilo é Slayer, está é mal escrito, deve ser um bug.

12 de março de 2014

... a tosse desaparece!

Considero que tenho no olfacto o pior dos meus sentidos mas isso não impediu que hoje, ao entrar no comboio, sentisse um cheiro que me levou de volta à infância, cada vez que inalava sentia uma nostalgia desenfreada e o pior de tudo é que não conseguia precisar a situação e a pessoa com quem eu relacionava o odor, uma coisa simples, rebuçados para a tosse, Dr. Bayard para ser mais preciso, pensei logo, claro, nas avós, no avental da avó materna com uma mola presa para não se esquecer de qualquer coisa, avental que, na minha memória, guardava rebuçados e outros bens de vital importância para os netos, fiquei na dúvida, pensei na avó paterna, penso muito na avó paterna, em recipientes de prata com rebuçados em cima de móveis antigos, sob o olhar tétrico de naturezas mortas ou cenas de caça inglesas, num rés-do-chão da rua de Santa Catarina a dois passos do Adamastor, onde muitas vezes fingi ser o Diamantino ou o Carlos Manuel, lembrei-me depois da farmácia A. Costa, em Cascais, de móveis escuros e pouca luz, continuo sem conseguir encontrar o momento, vou construindo recordações, a minha avó materna não devia guardar rebuçados no avental e a avó paterna não os tinha, certamente, naqueles recipientes de prata, penso nas malas da minha mãe, na paciência dela em intermináveis visitas ao médico por causa de anginas e amigdalites, não havia viroses naquela altura, em que tinha de aturar um fedelho que lhe testava a paciência de santa com perguntas de Calimero de vão de escada, falta muito, porquê eu, porque é que estou doente, porque é que não somos nós, quando é que vamos embora, porquê, quando, como, santa paciência a da senhora Teresa, e a farmácia, quando hoje lá entro é tudo tão claro e luminoso e os velhinhos de balcão substituídos por farmacêuticos novinhos e sorridentes, percebo que realmente não vou ter resposta para a minha questão e a sensação de conforto imaginário provocado pelo cheiro familiar é substituída pelo medo do que o tempo faz à memória e do quanto eu guardei de mim dos anos oitenta, noventa, como se eu ainda lá estivesse e como se tivesse a indelével certeza de que se o perder me perco também. 

Dá que pensar

Recebi por dois meios diferentes a notícia da morte do D. José Policarpo.

10 de março de 2014

Bruno de Carvalho

Por muita razão que possas ter, e se tens, meu caro, se tens, o facto de não veres no clube que está acima de ti um justo primeiro lugar deita tudo por água abaixo, mas, deixa lá, estamos habituados, eu até já me habituei a não ir a lado nenhum sem ser ao colo de alguém, é só chato para a minha namorada mas de resto faz-se bem, pergunto-te, Bruno, se tu já viste o Benfica a sair a jogar, se já viste como o Fejsa desce para receber a bola, o Luisão e o Garay encostam às alas, o Maxi e o Siqueira colocam-se ao lado do Enzo e os extremos oram derivam para o meio para superioridades no centro do terreno ora avançam para desenhar um 3-3-4, pois, não viste, é normal, se tivesses visto talvez percebesses porque estamos em primeiro, vai ao youtube, procura "Markovic Guimarães" ou "Gaitan Belenenses" e vais perceber, aqui já nem digo para procurares "Markovic Sporting" ou "Gaitan Sporting", para veres como estou a ser simpático, vá, queixa-te como é teu direito e dever, pelo clube que orgulhosamente defendes, pelo clube que merece estar no topo e com quem eu quero voltar lutar por campeonatos, queixa-te porque tens razões para o fazer, mas, por favor, deixa-nos fora disso.

6 de março de 2014

Por falar em One Direction

Depois disto pensei que a minha relação com os One Direction, em termos de compras, tinha terminado, mas, com o intuito de comprar a prenda para a senhora mais crescida cá de casa oferecer à mais pequena, tive que ir ao inominável sítio onde algumas pessoas compram livros, a vergonha, para comprar o novo cd de One Direction, e basicamente essa visita resume-se a eu passar o tempo todo a tentar colocar o cd dentro do casaco do meu amigo sem ele dar por isso ou a arranjar desculpas banais do tipo "segura aí que tenho que apertar o sapato" ou "sou o teu chefe e tu fazes o que eu mando leva já isto à caixa senão ficas dois meses a sair às dez da noite" só para não andar a passear o cd lá pelo meio, e depois claro, levar com os sorrisinhos na caixa, do tipo "é para a tua filha, é *piscar de olho*".

Rescaldo do aniversário

Não percebo esta gente: tenho que aturar a senhora minha ex-sogra durante dez minutos ao telefone para escolher um telemóvel para a Catarina, isto já ignorando o facto de ir com a ideia de comprar um ipad mini, lá chegamos a um consenso no modelo do telemóvel, longe dos ipods, sim, eu sei que ela quer, sim, eu sei que para si gastar essa quantia num telefone para uma criança de onze anos é trigo limpo farinha amparo, mas, vamos lá ter calminha, vamos escolher algo mais adequado, e assim o fizemos, julgava eu, chega o aniversário e não há telefone para ninguém, eu que até mandei vir uma capa para o dito, resumindo, recebeu um ipod touch de trinta e dois gb, aquele akward moment em que a tua filha tem um ipod melhor que o teu (que, curiosamente, até é dela, já que o meu classic de cento e vinte gb morreu...), recebeu mil trezentas e trinta e duas coisas dos One Direction (sim, até duas pinças recebeu...) e recebeu o bilhete para o Rock in Rio (espero que toquem a Joan of Arc, Laika e No Cars Go, ela vai delirar) e uma assinatura de um ano no site Club Penguin, e isto quando visitou três quartos da família, falta o lado do avô materno.

5 de março de 2014

O carteiro é um porreiro


O senhor que se segue

Depois disto,


isto,


sei que posso estar a ser injusto em termos de ordem, mas o BVA certamente perdoa-me a falha.


4 de março de 2014

Opinião Pública

"Acham que sou comunista? Sou da Arrentela, Seixal, e os comunistas já me dão problemas suficientes", isto para falar da crise na Ucrânia.

Amanhã

A Catarina faz anos amanhã. O que é que se dá a uma criança que tem tudo e que não precisa de nada? Felizmente já me passou aquela vontade irreprimível de dar a melhor prenda, desisti, uma pessoa sabe lá se acerta, as crianças são imprevisíveis, e quando existem avós que são competitivos entre eles e têm outra capacidade financeira é para esquecer.

21 de fevereiro de 2014

O seu a seu dono

Os itálicos do post anterior daqui:


Havia uma versão com a Gisela João na voz, filmada no concerto da semana passada, mas não encontro isso em lado nenhum.



20 de fevereiro de 2014

Noite

Enquanto enrolava o cachecol à volta das mãos a dor nas articulações não me deixava esquecer as mesas 
a boca entre o corpo, soberbo sufoco
que acartámos e as gôndolas que arredámos, tento em vão encontrar uma posição melhor, sentado desconfortavelmente num comboio frio com as vinte e uma horas já atrás das costas e 
prenúncio de tudo no ar
sem um livro para ler, isto para quem acabou de sair de um sítio com setenta mil livros é, poeticamente falando, estúpido, assim
a forma é o gesto, contido e modesto
tenho tempo para pensar em como tenho tempo para pensar, e o pensamento é um bicho estranho e fugidio com vontades insondáveis, metamorfoseia-se em sonho ou pesadelo sem darmos conta, e eu, 
seguro o intento, prolongo o altar
que até sou gajo para me preocupar com merdas existencialistas e coisas de intrínseco valor, não deixei de lamentar a falta do livro, tinha lá o Infância, Adolescência, Juventude,
depois vai-se o jeito, despido a preceito
aninhado na minha secretária à espera de ir dar passeios à beira mar sobre carris enferrujados, a vista fica para outra altura,
vertigem em ombros de andor
as costas lembram-me que já não vou para novo mas o lançamento correu bem e não me resta, apesar de tudo, outro remédio senão sorrir, 
cabeça em saturno, se acordo ou se durmo
vendeu-se pouco mas foi bonita a festa, porreiro pá, o ex-primeiro a falar da Arendt e do Eichmann, ele há coisas do diabo,
seguro o intento, prolongo o altar
sinto alguma falta do espaço antigo de lançamentos, penso nas pessoas que conheci por trabalhar onde trabalho, actores, políticos, jornalistas e até, às vezes, escritores, estas doses de realidade ajudam a dar ânimo quando tudo parece enrolar num manto cada vez mais funesto, mas, a verdade, livraria que me amparas,
só eu te sei dizer
só eu te sei dizer.

19 de fevereiro de 2014

Seis estrelas


Dizem que não se deve reagir a quente, mas não consigo evitar, uma maravilha, eu também estive lá.

17 de fevereiro de 2014

Separados à nascença



Por separados à nascença estou a referir-me, claro está, aos "criativos" que criaram isto e à originalidade.