5 de novembro de 2013
À quadragésima segunda chamada perde a piada, a sério
"Trinta e três? A idade de Cristo! ahaha, a idade de Cristo!". Hilariante.
4 de novembro de 2013
Quase rendido, quase
Já tinha o disco desde sexta, tanta tesão do mijo,a choramingar desde segunda que o disco não estava à venda, e só o ouvi hoje como deve ser. Estou quase rendido. Quase.
30 de outubro de 2013
A noite é mais longa no lado de baixo da rua Garrett
Aqui está o novo disco de Arcade Fire:
Ou não. Desde segunda-feira que os senhores da FNAC me dizem que chega "hoje à noite". A noite é interminável, por aquelas bandas. Na Louie Louie apontam mais para o fim desta semana, início da próxima, e depois uma pessoa dá uma volta e acaba por gastar dinheiro noutras coisas. Melhor ainda é a senhora da FNAC, quando inquirida sobre o disco de Arcade Fire, franze o cenho e diz "está AQUI", apontando para os cds que se encontravam em cima do balcão onde ela estava. Eu depois lá esclareci que era o LP e ela disse, enigmaticamente: "hoje à noite".
28 de outubro de 2013
23 de outubro de 2013
A Granta 2 já está, o Suttree também
Gostei mais da Granta anterior, ainda assim. Para não variar gostei de autores que nunca pensei em gostar, gostei dos que tinha uma ideia que ia gostar, não gostei de uma que eu suspeitava que não ia gostar, desgostei bastante de um em particular e o Gonçalo M. Tavares está a um livro de se passar de vez e ir todos os dias para o Saldanha todo nu e ficar lá o dia todo a fingir que é uma máquina de lavar roupa, a fazer sons e tudo. Do Suttree gostei muito, não fica perto dos meus preferidos dele mas é bom, tenho de conhecer melhor este período da escrita dele. O McCarthy tem o dom de nos fazer torcer pelas personagens mais improváveis.
Agora continuam as crónicas do DFW e volto, com muito agrado, ao Tolstoi, o Cossacos como que em preparação para a edição do Guerra e Paz pela Relógio d'Água. Pelo menos é o que eles dizem, porque, assim como quem não quer a coisa, já se fala nisso já vai para um ano. Vejam lá isso, agora estão ricos da Munro, deitem cá para fora o Ulisses e o Guerra e Paz.
É isto
A viver no Lado A da vida, por estes dias. Dizem que há vida para além do trabalho, mas eu acho que é um mito, até ver o Lado B já não acredito em nada.
21 de outubro de 2013
Granta, aqui vou eu II
Ficção Impossível *
Vais passar uma hora a escolher uma citação?!
Porque é que não pegas num livro e escolhes uma enquanto trabalho?!
Porque é que não pegas num livro e escolhes uma enquanto trabalho?!
Xana
Estava a chuviscar, como se
finalmente o outubro tivesse decidido revelar a sua verdadeira face, talvez
cansado de passar por setembro, e ele, à porta do centro internacional de cultura
literária puxou a gola do casaco para cima e tacteou o bolso interior para tirar
um cigarro. Dois problemas: não tinha tabaco e não fumava. Não gostava de tocar a campainhas,
portanto ia ficar a fumar à porta até chegar alguém, mas, não sendo fumador,
teria de arranjar um qualquer outro motivo para estar ali, à mercê da chuva,
uma chuva tímida como o ataque do Benfica deste ano: um gajo sabe que existe,
de um determinado ângulo até se consegue ver, mas, no fundo, no fundo, causa pouca mossa.
Fingiu que utilizava o telemóvel, o ecrã táctil salpicado de gotas, os segundos
a passarem lentamente. Pouco tempo depois, aproxima-se alguém, não conseguiu reconhecer a pessoa mas, para o efeito, pouco importa: a pessoa toca à porta e
pede para entrar. Aproximou-se, sacudiu o casaco e entrou logo atrás. Após as
primeiras escadas de pedra encontrou um corredor estreito e curto de paredes
carregadas de cartazes anunciando tertúlias antigas, poeirentos obituários
culturais, retratos de gente de olhar vago e sorriso torto. Após umas segundas
escadas, sempre atrás do senhor que entrou à sua frente que parecia conhecer bem
o sítio, entra numa espécie de escritório. O estranho cumprimenta calorosamente a secretária e volta à esquerda, entrando
num corredor oblíquo e que se vai estreitando a cada passo que davam, cada
passo um golpe no silêncio que se fundia com o espaço. Depois de passarem por um
local a céu aberto no meio do prédio e descerem umas novas escadas começava a
temer que minotauro iria ele encontrar naquele labirinto. Causou-lhe alguma
confusão fazerem um evento literário num sítio labiríntico como aquele pois toda
a gente sabe que as gentes das letras por norma saem pouco e enxergam mal, rapidamente se perdiam ali e quando dessem por elas, quando dessem por elas estavam num canto em posição fetal a recitar passagens de Roland Barthes.
Finalmente chegaram ao local do
evento: várias cadeiras coloridas alinhavam-se militarmente defronte de um
pequeno palco, onde três cadeirões se preparam para receber as iluminadas vozes
da literatura. O outro senhor, aparentemente o primeiro a chegar, segue para a
direita da sala. Ele opta pela esquerda escolhe um lugar numa das primeiras
filas, uma táctica ponderada: fica suficientemente perto para ouvir bem e longe
o suficiente para poder ir deitando o olho ao telefone e tomando notas das
barbaridades que se vão dizendo sem causar má impressão aos convidados. Por
falar em convidados, chega a primeira convidada: Adélia Carreira e o seu marido,
Jaime Tocha. Sempre gostara muito da Adélia Carreira, o seu ar de louca que mora
com trezentos e trinta e dois gatos, numa casa mal arejada onde o sol apenas
tem licença para se esgueirar por ténues frestas e invadir o felino espaço, e a escrita dela, a escrita dela. Entram mais três ou quatro convidados e o anfitrião que obriga toda e qualquer
cara conhecida a subir uns andares e a visitar a exposição da sua filha, se ele soubesse o que quer dizer nepotismo usava essa palavra agora.
Os cumprimentos, abraços e pancadas
nas costas iam-se sucedendo, sôtor, sôtor, meu caro, sôtor, caríssimo, sôtor,
minha querida, sôtor. Entra mais uma das oradoras, nova, finalista de um prémio
literário, haja coragem para se sentar ao lado de dois poetas com nome feito, e
toma o seu lugar no palco. Ajeita o
cabelo uma última vez, não te preocupes, querida, pensou ele, eles gostam de ti
pelas tuas letras, redondas e curiosas, ninguém liga ao teu cabelo. Enquanto ia
pensando no que um prémio literário faz a uma pessoa, não deu por uma pessoa
ter entrado: era a Matilde do Rosário Teixeira, editora que lançou alguns dos
mais prolíficos autores da nova geração. Caminhou confiante pela sala, os
saltos curtos a marcarem o compasso, ela sabe quem é e o que representa. O
anfitrião ia discursando sobre a importância da gaiola de madeira que sustenta
o prédio e que estava visível no meio daquela sala, passando depois para
histórias sobre casinos ilegais e rusgas da pide. Os convidados sorriam, afinal
de contas, tudo é melhor do que ver exposições por obrigação.
A sessão parecia estar a ser
interessante, com a apresentadora a fazer perguntas meta-literárias a que os
autores tinham uma enorme dificuldade em compreender e responder, mas a cabeça dele já não estava no mísero palco: tinha a atenção totalmente concentrada na senhora editora. Passou a sessão toda a desviar o olhar para ela, a bater com o pé nervosamente,
precisava de falar com ela, precisava de lhe dizer qualquer coisa. Planeou tudo
cuidadosamente: a sessão terminava e ele aproximava-se dela, ia esperar que
terminasse uma qualquer conversa de circunstância e, enquanto ela estivesse a preparar-se para sair, apresentar-se-ia e pediria o seu e-mail para lhe
enviar a sua obra-prima, trinta e três anos em papel, uma coisa totalmente
autobiográfica. Dispensava prémios literários, reconhecimentos estilo casa dos
segredos, ascensões à fama por escadas rolantes de curta duração e fundações
inquinadas. Apenas queria ver o seu nome num livro da sua chancela, ser colega
de editora do seu herói, não, o Van Basten não escreve, não era nesse que ele estava a pensar.
Estava tão embrenhado nos
pensamentos delirantes que não deu pela sessão terminar: foi despertado pelas
palmas secas e pouco sentidas que se faziam ouvir. Levantou-se e procurou-a no
meio da multidão: em vão. Afastou-se das cadeiras, desviou-se dos sôtores,
ignorou os pobres mas nobres vendedores de livros que ali acudiram em vão,
ninguém comprou nada, e procurou a porta. Espreitou casualmente para o corredor, estava
vazio. Voltou a olhar para a sala e não a viu em lado nenhum e, desiludido, decidiu descer as escadas. A cada passo que dava ia pensando que o acesso ao local dos
eventos deveria ser sempre por ali: ao invés de atravessarem corredores,
escadas e um saguão que ficava bem em qualquer prédio de Beirute, esta saída
pelas traseiras era composta por apenas dois lanços de escada. Já via os carris
do eléctrico na entrada do prédio quando, ao atravessar a porta, chocou com
alguém que dava aqueles últimos bafos no quase extinto cigarro, qual
adolescente a fumar às escondidas do pai: era a senhora editora.
Peço desculpa, disse.
Peço desculpa, disse.
Eu é que peço desculpa, com licença, respondeu, enquanto ela se desviava para entrar no edifício.
Um leve sorriso e um virar de costas foi tudo o que podia ter guardado do encontro mas, estupidamente, não resistiu.
Matilde do Rosário Teixeira, chamou-a, quase entre dentes. Ela voltou-se, espantada por vê-lo de mão esticada para ela. Chamo-me Bernardo e vou ser o seu próximo autor.
A expressão dela mudou repentinamente, como se não soubesse o que dizer. Rapidamente se recompôs.
A expressão dela mudou repentinamente, como se não soubesse o que dizer. Rapidamente se recompôs.
E como que é que se chama o seu livro?
Empalideceu. Não tinha título para o livro. Não tinha livro, aliás, mas isso, para ele, era secundário.
O nome do livro?, perguntou, tentando ganhar tempo.
Sim, o nome, diga-me lá para ver se é coisa para perder o meu tempo ou não. Notava-se a impaciência na voz dela. Ele tinha que lhe dizer um nome, algo que, naquele espaço de tempo, era impossível, como a ficção que iria, um dia escrever. Ficção, impossível.
Ficção impossível, respondeu como quem tinha acabado de carregar no buzzer de um qualquer concurso de prime time de estação pública.
Ficção impossível, é?
É. A sua confiança estava de volta. Ficção impossível. É uma coisa moderna, original, quase autobiográfica, assim uma espécie de Memória de Elefante mas do século XXI.
Ah, mas esteve na guerra colonial?
Não...
Em alguma guerra?
Também não... O calor começava a incomodá-lo fatalmente.
É psiquiatra?
Não... Ele não aguentava mais a tortura, ia desistir. Bem, obrigado pelo seu tempo, eu tenho que ir andando e...
Não, não, interrompeu ela, espere lá, agora quero saber mais, envie-me lá o seu livro. Abriu a bolsa e tirou um cartão. Fico à espera.
Balbuciou um obrigado e saíu porta fora. A chuva tinha parado e já se conseguiam ouvir os primeiros acordes da música africana que costuma embalar a estátua do poeta no largo um pouco mais abaixo. Apertou o casaco, respirou fundo: há muito tempo que via a sua respiração a materializar-se diante dos seu olhos: sentia a falta do inverno a sério. Começou a caminhar, o cartão a rodar entre os dedos, a decisão estava tomada: ia escrever o romance, vou escrever o romance, vou escrever o romance, repetia para si mesmo.
Pensou em dar um salto à primeira livraria que lh aparecesse à frente, ia buscar inspiração no cheiro dos livros, sempre com o romance no pensamento, o cartão na mão, mas a atenção das pessoas é independente da sua vontade, e o seu olhar foi cair num jovem hipster sentado numa daquelas esplanadas da moda, macbook air aberto num processador de texto qualquer, bicicleta encostada à cadeira. Ao passar em frente à banca de jornais lembrou-se que o Benfica jogava para a taça. Rodou mais uma vez o cartão entre os dedos. Olhou para a o cartão, para o jornal, depois para o hipster que escrevia. Mudou de passeio, passou rente à mesa e, sub-repticiamente, deixou cair o cartão em cima do teclado dele. Vou escrever um romance, disse em voz baixa, mas não vai ser hoje.
* qualquer semelhança com pessoas, locais ou acontecimentos reais é pura coincidência.
20 de outubro de 2013
Ah, pois, faz sentido
A Catarina começou a ler livros do PNL. Claro que eu fui logo comprar os livros todos, para ela ter na sua pequena biblioteca. E o que é que encontro no primeiro livro que ela tem que ler? Na introdução da Sophia, no livro "O Rapaz de Bronze", há um asterisco na palavra "quinta". No fim do texto vem uma explicação do que é uma quinta: um grande propriedade onde há floresta, jardins e uma parte agrícola. Coisa que, claramente, as criança dos quinto ano não sabem. O resto sabem, seguramente: "(...) quinta* da minha avó e pelo feéricos jardins(...). (...) certas reminiscências (...).
18 de outubro de 2013
15 de outubro de 2013
Ironia, uma definição
Seres gerente da livraria mais antiga do mundo e a tua namorada comprar noventa por cento dos livros na FNAC online.
Ler é mentira
Estou a demorar uma eternidade no Suttree, e a Granta que chega amanhã. E o DFW que já paira na minha secretária. Tenho que estabelecer um plano de leitura, algo do género Suttree para o comboio, DFW para a hora de almoço e Granta em casa.
13 de outubro de 2013
I just called to say I miss my car keys
É sempre bom quando vamos sair de casa e não encontramos as chaves do carro. Sendo que não seria inédito elas estarem na ignição, uma pessoa leva as chaves suplentes e encontra isto no vidro do carro. E aqui levanta-se toda uma problemática de difícil resolução: liga para me? Me? "Me" tipo "me" em "call me", ou "Me" como primeiro nome? E pronúncia-se Me ou Mé? Aparentemente as chaves ficaram enroladas nos sacos das compras (é o que dá ter uma fita presa nas chaves, fita que eu usava quando era livreiro e a identificação era usada ao pescoço, enfim, uma pessoa apega-se a estas coisas e eis o que acontece) e caíram. Então lá se ligou, e, de tantos sítios onde se podia ir buscar a chave (podia ter sido um vizinho fofinho a ter apanhado a chave do chão), o local combinado foi na entrada do bairro social que há a dois quilómetros de distância. E pronto lá estava ele, com as chaves na mão, no sítio combinado. Queria agradecer ao senhor por ter guardado as chaves (e aparentemente não ter feito nenhuma cópia) e à senhora que ligou várias vezes para o homem, enquanto eu conduzia, e que, sem perceber nada do que ele dizia, lá conseguiu descortinar o sítio de encontro. Um grande bem-haja todos.
10 de outubro de 2013
"Há tanto tempo que nada acontece e o mar não cresce para me enrolar na sua afronta"
"eu vou na volta em ti, traz-me de volta a mim"
Ah, dias de Nobel ou de morte de escritores...
... é igual a dar entrevistas, desta vez a novidade foi falar para duas câmaras e jornalistas ao mesmo tempo, senti-me um jogador da bola, pensei em dizer que jogava onde o mister quisesse e que estava ali para ajudar, que não prometo títulos mas que vou dar tudo pelo clube, que não penso no Real Madrid mas que tenho de estar aberto a todas as propostas, mas na realidade o que disse foi que os contos da autora tinham bastante personalidade (?) e engasguei-me quando quis comparar a entrega deste prémio com o do Mo Yan, do ano passado, é assim, só não falha quem não está lá, temos que levantar a cabeça e pensar já no próximo jogo.
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