30 de outubro de 2013

A noite é mais longa no lado de baixo da rua Garrett

Aqui está o novo disco de Arcade Fire:


Ou não. Desde segunda-feira que os senhores da FNAC me dizem que chega "hoje à noite". A noite é interminável, por aquelas bandas. Na Louie Louie apontam mais para o fim desta semana, início da próxima, e depois uma pessoa dá uma volta e acaba por gastar dinheiro noutras coisas. Melhor ainda é a senhora da FNAC, quando inquirida sobre o disco de Arcade Fire, franze o cenho e diz "está AQUI", apontando para os cds que se encontravam em cima do balcão onde ela estava. Eu depois lá esclareci que era o LP e ela disse, enigmaticamente: "hoje à noite". 

28 de outubro de 2013

23 de outubro de 2013

A Granta 2 já está, o Suttree também

Gostei mais da Granta anterior, ainda assim. Para não variar gostei de autores que nunca pensei em gostar, gostei dos que tinha uma ideia que ia gostar, não gostei de uma que eu suspeitava que não ia gostar, desgostei bastante de um em particular e o Gonçalo M. Tavares está a um livro de se passar de vez e ir todos os dias para o Saldanha todo nu e ficar lá o dia todo a fingir que é uma máquina de lavar roupa, a fazer sons e tudo. Do Suttree gostei muito, não fica perto dos meus preferidos dele mas é bom, tenho de conhecer melhor este período da escrita dele. O McCarthy tem o dom de nos fazer torcer pelas personagens mais improváveis. 
Agora continuam as crónicas do DFW e volto, com muito agrado, ao Tolstoi, o Cossacos como que em preparação para a edição do Guerra e Paz pela Relógio d'Água. Pelo menos é o que eles dizem, porque, assim como quem não quer a coisa, já se fala nisso já vai para um ano. Vejam lá isso, agora estão ricos da Munro, deitem cá para fora o Ulisses e o Guerra e Paz. 

É isto

A viver no Lado A da vida, por estes dias. Dizem que há vida para além do trabalho, mas eu acho que é um mito, até ver o Lado B já não acredito em nada.

21 de outubro de 2013

Granta, aqui vou eu II

Ficção Impossível *

Vais passar uma hora a escolher uma citação?!
 Porque é que não pegas num livro e escolhes uma enquanto trabalho?!
Xana

          Estava a chuviscar, como se finalmente o outubro tivesse decidido revelar a sua verdadeira face, talvez cansado de passar por setembro, e ele, à porta do centro internacional de cultura literária puxou a gola do casaco para cima e tacteou o bolso interior para tirar um cigarro. Dois problemas: não tinha tabaco e não fumava. Não gostava de tocar a campainhas, portanto ia ficar a fumar à porta até chegar alguém, mas, não sendo fumador, teria de arranjar um qualquer outro motivo para estar ali, à mercê da chuva, uma chuva tímida como o ataque do Benfica deste ano: um gajo sabe que existe, de um determinado ângulo até se consegue ver, mas, no fundo, no fundo, causa pouca mossa. Fingiu que utilizava o telemóvel, o ecrã táctil salpicado de gotas, os segundos a passarem lentamente. Pouco tempo depois, aproxima-se alguém, não conseguiu reconhecer a pessoa mas, para o efeito, pouco importa: a pessoa toca à porta e pede para entrar. Aproximou-se, sacudiu o casaco e entrou logo atrás. Após as primeiras escadas de pedra encontrou um corredor estreito e curto de paredes carregadas de cartazes anunciando tertúlias antigas, poeirentos obituários culturais, retratos de gente de olhar vago e sorriso torto. Após umas segundas escadas, sempre atrás do senhor que entrou à sua frente que parecia conhecer bem o sítio, entra numa espécie de escritório. O estranho cumprimenta calorosamente a secretária e volta à esquerda, entrando num corredor oblíquo e que se vai estreitando a cada passo que davam, cada passo um golpe no silêncio que se fundia com o espaço. Depois de passarem por um local a céu aberto no meio do prédio e descerem umas novas escadas começava a temer que minotauro iria ele encontrar naquele labirinto. Causou-lhe alguma confusão fazerem um evento literário num sítio labiríntico como aquele pois toda a gente sabe que as gentes das letras por norma saem pouco e enxergam mal, rapidamente se perdiam ali e quando dessem por elas, quando dessem por elas estavam num canto em posição fetal a recitar passagens de Roland Barthes.
          Finalmente chegaram ao local do evento: várias cadeiras coloridas alinhavam-se militarmente defronte de um pequeno palco, onde três cadeirões se preparam para receber as iluminadas vozes da literatura. O outro senhor, aparentemente o primeiro a chegar, segue para a direita da sala. Ele opta pela esquerda escolhe um lugar numa das primeiras filas, uma táctica ponderada: fica suficientemente perto para ouvir bem e longe o suficiente para poder ir deitando o olho ao telefone e tomando notas das barbaridades que se vão dizendo sem causar má impressão aos convidados. Por falar em convidados, chega a primeira convidada: Adélia Carreira e o seu marido, Jaime Tocha. Sempre gostara muito da Adélia Carreira, o seu ar de louca que mora com trezentos e trinta e dois gatos, numa casa mal arejada onde o sol apenas tem licença para se esgueirar por ténues frestas e invadir o felino espaço, e a escrita dela, a escrita dela. Entram mais três ou quatro convidados e o anfitrião que obriga toda e qualquer cara conhecida a subir uns andares e a visitar a exposição da sua filha, se ele soubesse o que quer dizer nepotismo usava essa palavra agora.
          Os cumprimentos, abraços e pancadas nas costas iam-se sucedendo, sôtor, sôtor, meu caro, sôtor, caríssimo, sôtor, minha querida, sôtor. Entra mais uma das oradoras, nova, finalista de um prémio literário, haja coragem para se sentar ao lado de dois poetas com nome feito, e toma o seu lugar no palco.  Ajeita o cabelo uma última vez, não te preocupes, querida, pensou ele, eles gostam de ti pelas tuas letras, redondas e curiosas, ninguém liga ao teu cabelo. Enquanto ia pensando no que um prémio literário faz a uma pessoa, não deu por uma pessoa ter entrado: era a Matilde do Rosário Teixeira, editora que lançou alguns dos mais prolíficos autores da nova geração. Caminhou confiante pela sala, os saltos curtos a marcarem o compasso, ela sabe quem é e o que representa. O anfitrião ia discursando sobre a importância da gaiola de madeira que sustenta o prédio e que estava visível no meio daquela sala, passando depois para histórias sobre casinos ilegais e rusgas da pide. Os convidados sorriam, afinal de contas, tudo é melhor do que ver exposições por obrigação.
          A sessão parecia estar a ser interessante, com a apresentadora a fazer perguntas meta-literárias a que os autores tinham uma enorme dificuldade em compreender e responder, mas a cabeça dele já não estava no mísero palco: tinha a atenção totalmente concentrada na senhora editora. Passou a sessão toda a desviar o olhar para ela, a bater com o pé nervosamente, precisava de falar com ela, precisava de lhe dizer qualquer coisa. Planeou tudo cuidadosamente: a sessão terminava e ele aproximava-se dela, ia esperar que terminasse uma qualquer conversa de circunstância e, enquanto ela estivesse a preparar-se para sair, apresentar-se-ia e pediria o seu e-mail para lhe enviar a sua obra-prima, trinta e três anos em papel, uma coisa totalmente autobiográfica. Dispensava prémios literários, reconhecimentos estilo casa dos segredos, ascensões à fama por escadas rolantes de curta duração e fundações inquinadas. Apenas queria ver o seu nome num livro da sua chancela, ser colega de editora do seu herói, não, o Van Basten não escreve, não era nesse que ele estava a pensar.
          Estava tão embrenhado nos pensamentos delirantes que não deu pela sessão terminar: foi despertado pelas palmas secas e pouco sentidas que se faziam ouvir. Levantou-se e procurou-a no meio da multidão: em vão. Afastou-se das cadeiras, desviou-se dos sôtores, ignorou os pobres mas nobres vendedores de livros que ali acudiram em vão, ninguém comprou nada, e procurou a porta. Espreitou casualmente para o corredor, estava vazio. Voltou a olhar para a sala e não a viu em lado nenhum e, desiludido, decidiu descer as escadas. A cada passo que dava ia pensando que o acesso ao local dos eventos deveria ser sempre por ali: ao invés de atravessarem corredores, escadas e um saguão que ficava bem em qualquer prédio de Beirute, esta saída pelas traseiras era composta por apenas dois lanços de escada. Já via os carris do eléctrico na entrada do prédio quando, ao atravessar a porta, chocou com alguém que dava aqueles últimos bafos no quase extinto cigarro, qual adolescente a fumar às escondidas do pai: era a senhora editora.
Peço desculpa, disse.
Eu é que peço desculpa, com licença, respondeu, enquanto ela se desviava para entrar no edifício. 
Um leve sorriso e um virar de costas foi tudo o que podia ter guardado do encontro mas, estupidamente, não resistiu.
Matilde do Rosário Teixeira, chamou-a, quase entre dentes. Ela voltou-se, espantada por vê-lo de mão esticada para ela. Chamo-me Bernardo e vou ser o seu próximo autor.
A expressão dela mudou repentinamente, como se não soubesse o que dizer. Rapidamente se recompôs.
E como que é que se chama o seu livro?
Empalideceu. Não tinha título para o livro. Não tinha livro, aliás, mas isso, para ele, era secundário.
O nome do livro?, perguntou, tentando ganhar tempo.
Sim, o nome, diga-me lá para ver se é coisa para perder o meu tempo ou não. Notava-se a impaciência na voz dela. Ele tinha que lhe dizer um nome, algo que, naquele espaço de tempo, era impossível, como a ficção que iria, um dia escrever. Ficção, impossível.
Ficção impossível, respondeu como quem tinha acabado de carregar no buzzer de um qualquer concurso de prime time de estação pública.
Ficção impossível, é?
É. A sua confiança estava de volta. Ficção impossível. É uma coisa moderna, original, quase autobiográfica, assim uma espécie de Memória de Elefante mas do século XXI.
Ah, mas esteve na guerra colonial?
Não...
Em alguma guerra?
Também não... O calor começava a incomodá-lo fatalmente.
É psiquiatra?
Não... Ele não aguentava mais a tortura, ia desistir. Bem, obrigado pelo seu tempo, eu tenho que ir andando e...
Não, não, interrompeu ela, espere lá, agora quero saber mais, envie-me lá o seu livro. Abriu a bolsa e tirou um cartão. Fico à espera.
Balbuciou um obrigado e saíu porta fora. A chuva tinha parado e já se conseguiam ouvir os primeiros acordes da música africana que costuma embalar a estátua do poeta no largo um pouco mais abaixo. Apertou o casaco, respirou fundo: há muito tempo que via a sua respiração a materializar-se diante dos seu olhos: sentia a falta do inverno a sério. Começou a caminhar, o cartão a rodar entre os dedos, a decisão estava tomada: ia escrever o romance, vou escrever o romance, vou escrever o romance, repetia para si mesmo.
          Pensou em dar um salto à primeira livraria que lh aparecesse à frente, ia buscar inspiração no cheiro dos livros, sempre com o romance no pensamento, o cartão na mão, mas a atenção das pessoas é independente da sua vontade, e o seu olhar foi cair num jovem hipster sentado numa daquelas esplanadas da moda, macbook air aberto num processador de texto qualquer, bicicleta encostada à cadeira. Ao passar em frente à banca de jornais lembrou-se que o Benfica jogava para a taça. Rodou mais uma vez o cartão entre os dedos. Olhou para a o cartão, para o jornal, depois para o hipster que escrevia. Mudou de passeio, passou rente à mesa e, sub-repticiamente, deixou cair o cartão em cima do teclado dele. Vou escrever um romance, disse em voz baixa, mas não vai ser hoje.

* qualquer semelhança com pessoas, locais ou acontecimentos reais é pura coincidência.

20 de outubro de 2013

Ah, pois, faz sentido

A Catarina começou a ler livros do PNL. Claro que eu fui logo comprar os livros todos, para ela ter na sua pequena biblioteca. E o que é que encontro no primeiro livro que ela tem que ler? Na introdução da Sophia, no livro "O Rapaz de Bronze", há um asterisco na palavra "quinta". No fim do texto vem uma explicação do que é uma quinta: um grande propriedade onde há floresta, jardins e uma parte agrícola. Coisa que, claramente, as criança dos quinto ano não sabem. O resto sabem, seguramente: "(...) quinta* da minha avó e pelo feéricos jardins(...). (...) certas reminiscências (...).

18 de outubro de 2013

15 de outubro de 2013

Ironia, uma definição

Seres gerente da livraria mais antiga do mundo e a tua namorada comprar noventa por cento dos livros na FNAC online.

Ler é mentira

Estou a demorar uma eternidade no Suttree, e a Granta que chega amanhã. E o DFW que já paira na minha secretária. Tenho que estabelecer um plano de leitura, algo do género Suttree para o comboio, DFW para a hora de almoço e Granta em casa. 

E amanhã

O novo da MRP. Espero mais gente do que espaço. Espero que comprem. Espero não me enganar.

É a loucura

Mais de cem livros em dois dias, Alice Munro, estás em grande.

13 de outubro de 2013

A mim parece-me igual...


Levei-o a casa da minha mãe, toda a gente o achou maior.

I just called to say I miss my car keys


É sempre bom quando vamos sair de casa e não encontramos as chaves do carro. Sendo que não seria inédito elas estarem na ignição, uma pessoa leva as chaves suplentes e encontra isto no vidro do carro. E aqui levanta-se toda uma problemática de difícil resolução: liga para me? Me? "Me" tipo "me" em "call me", ou "Me" como primeiro nome? E pronúncia-se Me ou Mé? Aparentemente as chaves ficaram enroladas nos sacos das compras (é o que dá ter uma fita presa nas chaves, fita que eu usava quando era livreiro e a identificação era usada ao pescoço, enfim, uma pessoa apega-se a estas coisas e eis o que acontece) e caíram. Então lá se ligou, e, de tantos sítios onde se podia ir buscar a chave (podia ter sido um vizinho fofinho a ter apanhado a chave do chão), o local combinado foi na entrada do bairro social que há a dois quilómetros de distância. E pronto lá estava ele, com as chaves na mão, no sítio combinado. Queria agradecer ao senhor por ter guardado as chaves (e aparentemente não ter feito nenhuma cópia) e à senhora que ligou várias vezes para o homem, enquanto eu conduzia, e que, sem perceber nada do que ele dizia, lá conseguiu descortinar o sítio de encontro. Um grande bem-haja todos.

Como diria o Chico Buarque


Foi bonita a festa pá, fiquei contente.

10 de outubro de 2013

Natal é quando chegas à secretária e...




"Há tanto tempo que nada acontece e o mar não cresce para me enrolar na sua afronta"



"eu vou na volta em ti, traz-me de volta a mim"

Ah, dias de Nobel ou de morte de escritores...

... é igual a dar entrevistas, desta vez a novidade foi falar para duas câmaras e jornalistas ao mesmo tempo, senti-me um jogador da bola, pensei em dizer que jogava onde o mister quisesse e que estava ali para ajudar, que não prometo títulos mas que vou dar tudo pelo clube, que não penso no Real Madrid mas que tenho de estar aberto a todas as propostas, mas na realidade o que disse foi que os contos da autora tinham bastante personalidade (?) e engasguei-me quando quis comparar a entrega deste prémio com o do Mo Yan, do ano passado, é assim, só não falha quem não está lá, temos que levantar a cabeça e pensar já no próximo jogo.

Alice Munro

Pois. E eu que torcia pelo Lobo Antunes. Ou pelo McCarthy.

7 de outubro de 2013

5 de outubro de 2013

Contem-me as agruras

Amanhã tenho inventário, quarenta e cinco mil livros é o que me separa de uma boa noite de sono, enfim saberemos quantos saíram pela porta em más mãos, sem passar pela casa de partida e muito menos ir parar à prisão, amanhã esperam-me horas que se riscam como dias na parede.

3 de outubro de 2013

One for the road

Chateias muito uma pessoa para mandar todos os mails com cc para ti. Ela passa a mandar todos os mails com cc para ti. Inclusive os mails que são só para ti: não só vão destinados a ti, como vão com cc para ti. Eu fico sem perceber se isto é a mais fina ironia ou se há coisas ali que não funcionam correctamente.

É isso, quase isso

"eu sei qual é o teu blog: o sujo e a sombra."

30 de setembro de 2013

Heresia, ou o que tu queres sei eu


Sempre que levo a criatura pequena à arrecadação e ela vê os mil trezentos e cinquenta e dois os dois ou três bonecos de Star Wars que estão por lá, ela quer trazer um para cima. Pior, estava a dar o Empire Strikes Back, o preferido cá de casa, coisa que agudiza o sentimento da criança. Então lá viu a Leia no seu fato de escrava, numa caixinha selada, com o R2-D2, e tratou logo de pedir autorização para abrir a caixa. Eu, no meu perfeito juízo, declinei o pedido, mas a criança decidiu ligar à legítima dona do item em questão e esta cedeu. Resultado: temos o Louis, dos One Direction, a bater couro na Princesa Leia. A heresia. Mas também, quem é que o pode censurar? Aproveitei mais uma vez a oportunidade para lembrar a Catarina de que ela era para se ter chamado Leia, não fosse o medo de ela ouvir constantemente "Leia, leia esta página" nas aulas ter demovido os defensores do nome.



Até dia doze somos tudo


29 de setembro de 2013

70/30

A hipótese da Catarina escolher o Jack White quando é ela a escolher o disco que vamos ouvir a seguir.

Viva as novas tecnologias

- Catarina, vai tomar banho.
- Eu tomei banho ontem!
- Catarina, vai já tomar banho ou eu tiro-te uma foto para o teu instagram e escrevo lá "eu e o meu cabelo sujo que não vê água há dois dias!" e as tuas BFF vão ver.
*água do banho a correr*

27 de setembro de 2013

Às vezes não sei o que fiz para merecer estas coisas


Mas acho que aturá-la há um ano, quase, se qualifica como coisa merecedora de prendas.

25 de setembro de 2013

Quase duas horas numa fila

 E para quê?, perguntam vocês. Pois.


Quase duas horas para comprar um bilhete para a criança ir ver estes rapazolas ao Estádio do Dragão (ainda por cima...), entalado primeiro entre uma universitária que ia comprar o bilhete para a irmã mais nova e desistiu a meio e foi substituída por uma mãe de duas jovens que não se encontravam por estarem na escola, mãe essa que travou rapidamente amizade com umas jovens tremendamente excitadas com tudo isto, e uma mãe que deveria estar no escritório e estava constantemente a receber mails e a receber telefonemas sobre o aicep e merdas do género. Eu só queria que ninguém interagisse comigo. Sem sucesso. Primeiro passa por mim um gajo de uma loja amiga, companheiro da bola e concertos de Linda Martini, olha para mim, olha para a fila, olha para mim, novamente para a fila, pergunta "o que é isto?!" e eu "er... *tosse* one direction *tosse*, para a minha filha", e ele "ah, para a tua filha, pois..." e vai-se embora. Depois foi uma mulher provavelmente da minha idade que, do meio daquela fila que ocupava quatro andares da escadaria que liga a FNAC à rua cá de baixo, tinha logo de perguntar a mim o que é que se estava a passar e, perante a minha resposta, fez um sorriso de escárnio e disse "estou a ver" e foi-se embora, ao que a senhora que estava atrás de mim acrescentou "vê-se que ela percebe o nosso sofrimento" e eu "pois", embora duvide que percebesse, era tudo tão surreal e a decorrer em câmara lenta, não percebo, juro que não percebo, eu cheguei ao balcão e disse "dois bilhetes, bancada inferior", "muitos euros", respondeu a senhora, pus o cartão e o pin, sai um talão, adeus e obrigado, juro que não percebo a demora desta gente em comprar a merda de um bilhete. E depois as jovens que afagavam a imagem dos rapazitos e coisas do género, o que é que se há de fazer à juventude? 
O mais engraçado de tudo foi eu ter perdido a hora de almoço e uma hora de trabalho para isto, tudo para poder ligar à Catarina e dar-lhe a novidade e ouvi-la explodir de excitação e ela ter o telefone desligado. Melhor ainda foi saber, depois, que a avó também tinha comprado os bilhetes e que tinha sido a heroína que salvou o dia. 
Só naquela, ninguém quer uns bilhetes para os One Direction não? 

23 de setembro de 2013

É impossível escrever

Quando a única coisa que te sai dos dedos é precisamente a coisa sobra a qual tu não queres falar.

18 de setembro de 2013

Sentido de humor cá dos meus II

- Vês? O jogo diz que a minha idade mental é vinte e quatro anos.
- Isso está errado, devia ter dado cinco.
- ...

Sentido de humor cá dos meus

- Vê lá se me ofereces uns ténis para correr.
- Nem pensar...
- Mas à outra ofereceste.
- Mas ela ia mesmo correr e eu já sei que tu não vais.
- Pois, lá que ela correu, correu...
- ...

17 de setembro de 2013

Conselho do dia


"Don't be the print of someone else's painting"

É bom que aproveites

O cão dorme no chão, o AM volta a rodar, ela lê Joyce e eu olho para o infinito e consigo não pensar em mais nada e isto, Mastercard, isto sim é priceless.

Torçam por mim

Planos para as próximas três semanas: acabar de ler o Suttree, ir buscar o Turbo Lento à Fnac, ir ao concerto de Linda Martini, e tentar, no fundo, contra as expectativas patronais, ter uma vida. Ou então, ganho o euromilhões e compro a Sá da Costa. 

15 de setembro de 2013

Canal 2, poesia

Mil nove seis um
Coluna, numa jogada individual
José Augusto cruza para José Águas cabecear
Não havia Eusébio,
Não era preciso.


Isto é que é um record do Guinness de valor




100m em 14.531 segundos, de saltos altos. A maior parte dos gajos que eu conheço não faria quinze segundos, de ténis. A senhora que me atura anda para comprar uns ténis para correr, pelo tempo que está a demorar já percebi a dica, mas, depois de ver isto, acho que leva é uns sapatos de salto.

14 de setembro de 2013

Devia fazer um programa de apanhados com o meu cão

A reacção das pessoas quando dão de caras connosco ao virar de uma esquina é impagável.

13 de setembro de 2013

"e depois vieram uns rapazes do nono ano" ...

- A M***** estava a mostrar-me o instagram, não sei como é que ela põe as imagens dos One Direction que tira da internet.
- Eu depois em casa explico-te.
- E depois vieram uns rapazes do nono ano...
(tiro o som do rádio e conduzo mais devagar, não quero perder a vida na A5 numa sexta-feira treze, era coisa para ir parar ao correio da manhã e isso não é coisa que alguém queira)
- ... Sim...
- E perguntaram: "como é que se chamam?" e a M***** disse "para que querem saber?" e eu disse "Catarina"...
(suores frios)
- E depois...
- Depois a M***** disse que se chamava M*****, eles perguntaram a nossa idade e nós respondemos "dez anos" e eles disseram "ah, respeitinho aos meus velhos!"
- ...
- E eu só me apetecia dar-lhes um chuto e dizer "take it easy!"
- ....

Vai ser um ano longo, está visto.

Detached

Por outro lado, recebi uma chamada da minha filha às dez horas, pensei logo que tinha começado a faltar no primeiro dia a sério de aulas, mas não: agora como é do quinto ano já pode levar o telemóvel para a escola, feliz da vida. E ligou-me: ela que para ligar à família, pais incluídos, é quase preciso recorrer a ameaças nucleares. Ligou-me. Agora que penso nisso fico preocupado. Imagino como eu não estaria se ela tivesse efectivamente mudado para o público. 

Maldito

Estou com um humor impossível e, pior de tudo, não consigo perceber porquê.

12 de setembro de 2013

Algo que não anda sobre carris não pode descarrilar

Preciso de um sítio para despejar ficção dispersa e indefinida. Urgentemente. 

AM night in


Fashion night out

E eis que chega a noite em que a sua se aperalta toda, em que as pessoas são muitas, a noite é inversamente proporcional ao tamanho das vestes, a Rua Garrett é hoje, seguramente, a capital mundial do piropo: incito-vos a descê-la uma vez, ali pelo flanco esquerdo, e a passar em frente às obras, enquanto as meninas e moças desfilam pela rua, o sol a dar-lhes o conveniente realce, quanto mais na moda menos roupa, e os trolhas, os trolhas… dos melhores dias da sua existência, aquele ar de contentamento nem quando o Benfica é campeão, já os livreiros também tiveram um dia em grande, elevada nota artística, segundo consta, da clientela de hoje, comprar livros é mentira mas a livraria sempre ganha outro interesse, lá mais para o fim da noite virá a fauna mais rebuscada, temo por quem ficará cá até ao fim, mas o importante é que hoje, por aqui, fala-se do Pacheco, que ia adorar este tipo de fantochada, e de outros malditos dos livros, vamos perder em quantidade e em decote com a turba lá de fora, mas ganhamos seguramente em interesse literário e deboche cultural.

11 de setembro de 2013

Chorando relâmpago

Será ao som do novíssimo AM que passarei esta noite, o carteiro não se atrasou e a encomenda chegou no tempo indicado, embora após o desejado, que eu sou menino para ficar com a birra se não tenho as novidades no dia e hora em que saem, a noite que é a véspera da entrada no quinto ano de escolaridade da criatura que dá pelo nome de minha filha, Catarina para o registo civil e religioso cristão e sócia do Sport Lisboa e Benfica desde a nascença, isto com trinta e dois anos é coisa para digerir com dificuldade, pois que a blogoesfera está a parir por todos os cantos e é ver os posts dos novinhos pais babados, com a maravilhosa e muy misteriosa carga da maternidade sobre os ombros, a soltar prosa poética paternal por todos os poros, e aqui uma pessoa, de cachimbo e whisky metafórico na mão, recostado no cadeirão, pousa o Guerra e Paz num só volume (metafórico também, a Relógio d'Água anda a brincar com as pessoas que isto era coisa para ter saído o ano passado), e sorri condescendentemente para o ecrã num claro sinal de "sim, eu já estive aí", mas a verdade é que não estive aí, esta gente dos blogs, coisa que à primeira vista é capaz de passar despercebida, é gente ajuizada e não está cá para se aventurar em viagens pelo mundo inóspito da paternidade aos vinte e dois anos, portanto não só não sei bem o que eles estão a passar como os invejo um bocadinho de nada, não saberei o que é ser pai na circunstância deles, tal como eles não saberão o que eu passei, os pontos positivos e negativos anulam-se e complementam-se e deixam-nos no ponto de partida, o importante é que aproveitem porque o tempo voa e quando damos por nós estamos à porta da Claire's à espera que a filha se decida pela milésima pulseira / brinco / caderno / inserir qualquer tipo de item que vos venha à cabeça dos One Direction, enquanto olhamos para o tecto vidrado do centro comercial e pensamos onde é que errámos e como, depois de ela sair feliz e contente, o faríamos outra vez.

6 de setembro de 2013

His and Hers


Não se percebe como é que os "dela" ocupam mais espaço que os meus. 

O meu primo casou lá longe, em Itália

E eu aqui a trabalhar, ele casou, lá, longe, no sul de Itália, com uma italiana jeitosa, ambos hospedeiros de bordo, e eu a trabalhar, sem grandes meios de apanhar quatro voos e uma estadia e arranjar sítio para deixar o cão, ele casou e eu, aqui, longe, a pensar como teria sido ter lá estado, perder destes momentos é perder um bocado de nós: conheço-o desde sempre, partilhámos muito, férias, fins-de-semana, viagens aparentemente intermináveis em bancos de trás de carros (ironia) italianos, black is black I want my baby back e outras merdas tocavam na rádio, e nós, armados em bons, Guns N' Roses, um headphone para cada um, a gozarmos com toda a situação, acho que enquanto crescíamos nunca o imaginei a casar-se, afinal de contas, o gajo das miúdas e da bola e do bodyboard era eu, mas quem se casa numa igreja, noiva de branco e tudo e tudo, é ele, e eu feliz e infeliz e miserável, a ver fotos a cair no facebook como relâmpagos que iluminam uma noite escura, parece-me ver qualquer coisa ali mas rapidamente desaparece, vão faltar para sempre a troca de olhares antes do momento, o último abraço, umas palavras confidenciadas ao ouvido, a lágrima seguramente no canto do olho ou algures no fato, o importante é que casou, o importante é que é feliz, o abraço há de vir um dia, a afilhada há de lhe dar os parabéns em pessoa, estamos tão crescidos, orgulho, acima de tudo, o orgulho.

Despertador

Ir fazendo pequenos cortes acidentais nos dedos durante o dia de trabalho, para depois chegar a casa e entornar éter nas mãos enquanto desinfecto a ferida do cão.

5 de setembro de 2013

Deve ser difícil conviver comigo no comboio de manhã, quando, banhado pelo sol vespertino, me torno incompreensivelmente ainda mais chato

- eu posso olhar para as raparigas todas. O Jesus não se importa. O Jesus sabe tudo. 
- tens uma lata, tu benzes-te quando passas pela nossa Senhora, mas depois é o que se vê. 
- Eu nunca fui casado pela graça de Deus. 
- e então? 
- para Jesus sou um homem livre. O registo não conta para o reino dos céus. Posso fazer o que bem entender. 
 - ah... 
- aliás, sou livre para ir com Jesus para a Rua Garrett e sentar-me lá a apreciar as mulheres que passam na rua. 
- ... 
- e mais, o Jesus era gajo para gostar. 
- ... 
- perdia era a piada de tentar adivinhar o nome delas ou se eram raparigas para todo o tipo de badalhoquices só pelo aspecto. Porque o Jesus sabe tudo. 
- ...

Meme

Isto às vezes é um bocado como quem reencontra o amigo da adolescência, aquele dos bons, aquele de saltar muros e roubar nêsperas e levar com tiros de pressão de ar, aquele que te fazia cruzamentos milimétricos que uma pessoa, negligenciando o chão de alcatrão ou de terra batida com pedras salientes, a imortalidade era já ali, finaliza num glorioso pontapé de bicicleta, mesmo que não tenha havido o contacto merecido durante muito tempo, o reencontro dá-se e é como se nunca sequer tivéssemos estado dois dias afastados: não há silêncios incómodos, tudo é familiar e tudo flui. Com a escrita é assim. E uma pessoa escreve e vai escrevendo, lê e vai lendo, e acaba por dar por si demasiado enredado nisto das letras e é tarde demais. O meu superior directo ficou extremamente surpreendido, talvez chocado até, por eu preferir uma posição numa editora a dar o próximo passo lógico e ter responsabilidades a nível regional. É me muito fácil escolher: eu em não conseguindo escrever livros o melhor que posso fazer por ora é vendê-los, mas, se me dessem a oportunidade, gostava muito de ajudar a criá-los. No fundo, no fundo, o facto de ser um eterno escritor frustrado mexe com todas as facetas da minha vida. E isto torna-se assombroso quando percebemos que, mesmo que escrevêssemos todos os livros que queremos, esse desassossego nunca irá partir, o sonho é sempre mais rápido que a mão, foi o Einstein que disse isto. Não foi, mas se eu pegar numa foto dele a preto e branco e puser o texto passa a ser, é assim que isto funciona hoje em dia.

31 de agosto de 2013

Piropos

"Fofinho, eu por ti até aprendia a ler!", bate tudo.

Sacrilégio, aparentemente

Dia de derby, estou vestido de verde.

22 de agosto de 2013

Eu um dia tive um blog

Mas parece que agora está difícil.

13 de agosto de 2013

No Brasil chama-se Misto Quente, o que dá para trocadilhos e é razoavelmente apropriado


Gostei tanto que chateei hoje a senhora da Relógio d'Água para reeditar o A Sul de Nenhum Norte. Agora ando novamente pelas Américas. E até agora está ser bom:



Aquele bonito momento

Em que tu, sem dares por ela, link após link, vais parar novamente àquele lado da blogoesfera. Medo.

Demoraram quatro meses a chegar, mas estão bem, graças a Deus e aos santos e tudo e tudo


Oh tempo... Esquece

Vejo a foto da bebé da Leididi e uma onda irreprimível de nostalgia invade-me o corpo que deveria estar a trabalhar e a fazer coisas com livros, eu, carregado de saudades a pensar na minha criatura recém-nascida, ao meu colo, a dormir, tão caladinha que ela era, ainda os One Direction e o Brad Pitt (...) eram uma miragem, era tudo tão mais simples nessa altura, eu pego no telefone e ligo-lhe imediatamente, apenas para ouvir a voz dela, sei que não ia prestar atenção ao que ela ia dizer, apenas queria ouvi-la. 
E, claro, como não podia deixar de ser... Tinha o telefone desligado. 

It's been a while

Acho que já não sei como é que isto se faz.

3 de agosto de 2013

Adoro as pessoas

Num contexto normal, pose cool, olhar vago e saudoso: "sim, eu aos doze, treze anos, fui ver Guns e Metallica a Alvaldade, sim, eu estive lá, o bom gosto vem de muito novo..."

A mesma pessoa, após um concerto hoje em dia: "o concerto foi bom, mas o público?! Eram só miúdos de catorze anos!!"

Isto, no fundo, explica muita coisa

Ao falarmos, à mesa, sobre o irmão da Catarina e o facto de ele ainda não falar, a minha mãe contou a história da minha primeira palavra, história que, curiosamente, eu nunca tinha ouvido. Quando eu pensava que ia ouvir uma enternecedora história que envolvia um bebé tremendamente bonito, numa praia ao fim da tarde, a dizer "mamã", perante os olhos verdes da minha mãe que brilhariam, só pode, tanto como o mar que nos servia de fundo, eis que surge a verdade: eu estava sentado na cadeirinha, na sala, a olhar para a televisão, enquanto dava o telejornal, e eis que sai pela primeira vez uma palavra da minha boca: Beirute. Normalíssimo: Beirute. Aparentemente era um Nuno Rogeiro em bebé e ninguém puxou por mim. Podia ser que agora fosse um crânio da geo-política, ou pelo menos tivesse melhor cabelo. Por outro lado, gosto muito de Beirut, portanto, tudo está bem quando acaba bem.

A vida real é, tipo, 3D

A criatura vem de casa da mãe com uns óculos 3D sem lentes, uma pessoa pergunta porquê, embora saiba que certamente se irá arrepender de ter feito tal coisa, e a criatura responde que é porque quer uns óculos hipster, que aqueles são para eu ver mais ou menos como são, então quer uns óculos hipster sem graduação, porque quer usar óculos mas gosta de ver bem.

Hardcore karaoke retirement home


A passear o cão, os dois.
- Pai, hoje foi uma seca o dia.
- Então?
- Não tinha nada para fazer... De tarde vesti as leggings pretas e os all-star pretos e arranjei uma nova personalidade, a Carina, até mudei os brincos.
- ...

... E estamos de volta

Sai do prédio da mãe, espreita para dentro do carro, sorri, acena, abre a porta, senta-se.
- Pai, a Xana?
- Está nos Açores.
- ... Olá para ti também, também tive muitas saudades tuas nestas três semanas...
- Quero a Xana!
- ...

27 de julho de 2013

vida aguda atenta a tudo / e contudo para acabar mais depressa no escuro / escrevo rescrevo / e enfim reluzo e desmorro / (finjo pensá-lo) / um pouco um pouco / acautela a tua dor que se não torne académica *

Ultimamente tenho tido recordações de situações da minha infância nas quais não pensava há muito, muito tempo, ao ponto de, quando tenho essas recordações, estas serem extremamente vividas e acontecer algo curioso: a partir de um pequeno fragmento começa a formar-se uma imagem cada vez maior e mais detalhada na minha cabeça e consigo distinguir bem certos pormenores, bem como isolar áreas ou momentos das quais não guardo qualquer recordação e há apenas um vazio, e é engraçado perceber de onde é que têm surgido, ultimamente de forma persistente e consistente, os rastilhos para estas explosões de memória: os livros. Sentado no Metro, algo que nem é normal, estava a terminar de ler o conto do Pahmuk na Granta, escritor pelo qual eu não sentia o menor interesse, empatia ou desinteresse, fruto natural de um desconhecimento compreensível, quando uma cena me fez parar de ler:  dois miúdos e a sua mãe vão visitar a avó, cujo prédio "parecia uma caixa de fósforos assente na vertical", e onde a mãe, depois de apanhar a chave atirada da janela pela avó, para abrir a porta "girou-a na fechadura com alguma dificuldade. A grande porta de ferro abriu-se devagar". 
A Lisboa dos anos oitenta não é Istambul dos anos cinquenta: o prédio da minha avó não tinha uma porta de ferro, mas a verdade é que, para um miúdo magrinho e pequeno como eu era, custava muito a abrir. Lembro-me de esperar à porta, depois de subir do Cais-do-Sodré até à Rua de Santa Catarina, com sorte pelo elevador da Bica, de tocar na campainha e ficar a ver a porta a estender-se a caminho do céu, tão alta que ela era aos meus olhos, sempre impaciente para que a avó a abrisse finalmente. A porta abria-se e entrávamos num espaço escuro, confrontados imediatamente com a escadaria de madeira entorpecida e gasta. Não me recordo de alguma vez a termos subido. O mais curioso desta entrada era que, nas paredes da casa da minha avó existiam duas portas: uma pela qual entrávamos, directamente na cozinha, o que sempre me fez confusão, e uma segunda, que dava para um dos quartos e que, obviamente, não funcionava. Já lá dentro, lembro-me dos budas na cristaleira e do aviso de nunca, em caso algum, lhes tocarmos, sob pena de castigo infinito e pesado, e uma pintura de caça, certamente um cenário inglês com um caçador e raposas. Existiam dois quartos, o dos meus avós e outro em que não me recordo de entrar, onde dormia normalmente uma prima da minha avó, vinda do Porto e que acabou, com a saída de casa do meu tio e a morte do meu avô, por ficar a morar lá até ela, também, ter morrido. Não me recordo da morte dela, nem da data nem da circunstância. Recordo-me da morte estúpida do meu avô, demasiado cedo, não conheceu todos os netos. Já a minha avó conheceu todos os netos e a bisneta: a Catarina nunca se irá lembrar dela: é só uma velhinha com ar embevecido que a segura ao colo em algumas fotos. Não se vai lembrar da avó que, na manhã em que morreu, quando a fui visitar antes de entrar no trabalho, me implorou para que lá levasse a Catarina, porque tinha que ver a Catarina, queria muito ver a Catarina. A Catarina não chegou a ir.
Gostava muito de visitar a minha avó, em pequeno, algo que fazia com alguma frequência: estava com ela, por exemplo, no dia do incêndio no Chiado, já ali ao lado, a minha mãe com algum pânico e tudo, coisas de mãe. Eu a minha irmã costumávamos sentar-nos na janela a dar pão aos pombos, ou então íamos brincar para o Adamastor. Quando passeávamos com a minha avó pelas redondezas todos os corrimões eram escorregas e todas as lojas potenciais sítios para prendas, a generosidade e carinho dela não tinham limites. 
Não pensava na casa da minha avó, nem em tantas situações há demasiado tempo. Nela, sim, nela penso muitas vezes. Especialmente por trabalhar ali tão perto e por ter a certeza de que seria o maior orgulho da sua vida ver-me como gerente de um sítio que ela conhecia desde sempre.
Pensar na casa fez me recordar tantas coisas, boas e más, tal como o dia em que, depois da sua morte, eu e o meu pai fomos os dois, sozinhos, desmontar os móveis de casa dela e levar tudo o que ficaria para nós, tudo o que seria guardado e ficaria como memória física de alguém que não precisava, jamais, de algo físico para que nos recordássemos dela. Deixei a mulher e a filha em casa e encontrei-me com o meu pai à porta. Naquela altura, a relação que tinha com o meu pai era pouca ou nenhuma. Não confundir, atenção, com os sentimentos que um pai e um filho sentem um pelo outro, que permaneciam imutáveis. Por uma série de circunstâncias e afastamentos, tínhamos uma relação distante. Recordo-me, quando vivíamos juntos, do seu alhear-se a meio de conversas, dos silêncios, das más disposições, do olhar no infinito. 
Foi uma tarde de silêncio: o meu pai e eu a desmontarmos a casa de infância dele, a desfazermos memórias, a limparmos os restos de vida de um local que lhe era muito. Foi dos silêncios mais difíceis da minha vida, um silêncio preenchido pela distância no olhar dele, pela agrura dos seus gestos. Terminámos, carregámos o carro e foi cada um para seu lado, sem saber que, passados sete anos, iria conseguir perceber que sou muito mais parecido com ele do que alguma vez desejei ser. 

* Herberto Helder.

Existem as lendas, depois existe o Phil Anselmo


26 de julho de 2013

Deve ser da febre #3

Recebi um vídeo da minha filha a cantar o Ouvi Dizer, num karaoke, algures na Manta Rota, a terminar num valente aplauso e em risinhos das tias. Cheguei agora à conclusão que durante o próximo ano vou ter o triplo da idade dela. Parece muito pouco. 

Deve ser da febre #2

Posso quase jurar que ouvi um comentador na Antena 1 dizer "não se pode tapar o swap com a peneira".

Eu e a Benfica TV

Antes da Benfica TV: foda-se, estes gajos, sempre a dizer-mal, sempre a mandar abaixo, isto é vergonhoso, vou escrever ao provedor, isto é inadmissível!

Depois da Benfica TV: estes gajos, sempre a conter-se quando têm que dizer, mal, foda-se, digam-lá, arranjem coragem, parem lá de dizer "ah e tal o Benfica não tem um elemento fixo na frente e isso atrapalha só um bocadinho o jogo e não prende tanto os defesas, mas, atenção, é uma nova maneira de jogar!", e digam logo "tragam de volta o Cardozo!"

Deve ser da febre

Estou a ver o André Gomes a lateral direito.

21 de julho de 2013

Granta, aqui vou eu

O Presidente e a Cagarra

"Quantas vezes tenho de dizer,
que não fui eu que disse isso,
foda-se?!"
Fernando Pessoa


1.
Selvagem, como as ilhas que piso

O Presidente sabia, melhor que ninguém, que não aguentava facilmente o terreno rochoso das ilhas onde se encontrava, mas, por outro lado, não queria dar sinais de fraqueza: o país precisava dele e não queria passar a imagem de velhote que mal consegue subir uma escarpa. Com a ajuda de um dos seus seguranças pessoais, o Ferreira, combatente nas ex-colónias e seu companheiro nas tardes de crapot, o Presidente ia subindo a custo, apoiando-se amiúde nos braços firmes do segurança, tentando sempre dar a sensação de que estava tudo bem, de que aquela subida não lhe sujava os ténis da Cat Merrel que a sua esposa o chateou para comprar, ele, que com a sua mísera pensão, se tinha contentado com uns Berg da Sportzone, ou, se o tempo estivesse bom, tinha ido de roupão e pantufas, mas já ninguém aguenta a indisposição da primeira-dama, portanto lá levou os ténis que ela escolheu, uma maçada, nem combinavam por aí além com a sua fatiota de Presidente em visita a terreno inóspito, mas, o que tem que ser tem muita força. não havia nada a fazer. A cada passo trémulo que dava, o Presidente evitava cruzar o olhar com quem o acompanhava: os olhos marejados, a voz a fugir-lhe no nevoeiro da rouquidão, a respiração a saltar em soluços de vinil riscado, isto custa-me horrores, confidenciou aos santinhos que a primeira-dama tanto adorava. Mas o que lhe custava mais, e isto nem a ele próprio admitia, era ver o presidente do governo regional das ilhas que visitava, inconsciente da sua galopante senilidade, a arrepiar caminho por ali fora como se houvesse um carnaval lá em cima e não pudessem começar sem ele, bolas!, pensou, lá vai o gajo mandar-me umas bocas assim que chegar lá acima, tenho de pensar numa resposta, se ao menos a primeira-dama aqui estivesse, pensou,  ela não deixa ninguém sem resposta, enquanto ia acenando aos comentários das pessoas que o acompanhavam nesta importantíssima visita oficial. Isto é que são as ilhas selvagens, pensou para si mesmo, grande coisa, deixa-me cantarolar, selvagem, uh uh, uma dentada em Lion, há muito tempo que não como um Lion, agora a primeira-dama só me deixa comer Kinder Surpresa e nem me deixa montar o brinde sozinho, enfim, selvagem sou eu, quando alguém nasce, nasce selvagem, não é de ninguém, já nem me lembro quem canta isto, deve ser de um baladeiro como o Nel Monteiro ou algo do género, bom, boa música independentemente do baladeiro que lhe dá voz, concluiu para si mesmo.
Continuou a caminhar em silêncio, os olhos presos no céu, com a sua infernal promessa de infinito. Era nestes momentos que o Presidente conseguia pensar em assuntos que realmente importavam, a sua mente parecia alinhar-se nos carris dos pensamentos fulcrais da sua existência enquanto chefe de estado, e o pensamento fluía mecanicamente e só parava nas estações que faziam a diferença: sou um bom líder para este país?, devemos acelerar a ida aos mercados?, será que me esqueci de deixar a gravar o Crime Disse Ela?, a mente do Presidente era precisa e eficaz como o Patek Philippe que ostentava no pulso.
Senhor Presidente, pareceu-me ter ouvido qualquer coisa, deve ser o vento, pensou enquanto ignorava o chamamento, Senhor Presidente, oh diabo, não é que estão a chamar por mim, deixa-me acenar enquanto sorriu, pode ser que resulte, Senhor Presidente veja isto!, não resulta, deixa lá ver o que este quer. Andou mais uns passos, sempre apoiado nas rochas, e viu, aninhada num pequeno ninho escondido nas rochas, uma cagarra.
- Olha, uma cagarra! - disse o chefe de estado, mostrando um contentamento de criança em visita de fim de ano ao jardim zoológico. - Bom dia! 
Os olhos do Presidente e da cagarra cruzaram-se e, naquela fracção de segundo, formou-se uma espécie de elo que, sem que ambos o soubessem no momento, iria perdurar para sempre. Várias pessoas, munidas de câmaras de filmar, aproximaram-se para captar o momento. A cagarra, meio assustada, piscou os olhos duas vezes e aninhou-se, desviando a cabeça e ignorando todo o aparato que se perfilava diante de si.
Quando a subida terminou, o Presidente tentou, subtilmente, fazer com a comitiva voltasse para trás: queria experimentar novamente aquela leve sensação de paz, queria fundir o seu olhar com a da cagarra: era como se ela lhe quisesse dizer alguma coisa. Senhor Presidente, onde é que vai?, gritou um dos seguranças, oh Ferreira, vai lá apanhá-lo que ele está outra vez sem saber onde anda!, Senhor Presidente, o caminho é por aqui! 
O Ferreira correu uns metros e abordou, com cuidado como lhe foi ensinado pela primeira-dama, o aparentemente confuso presidente, Senhor Presidente, temos de voltar para trás, o Presidente voltou-se, cerrou os punhos e disse, a cagarra espera por mim, mas, senhor Presidente, amanhã tem de fazer uma declaração ao país, venha lá. Ele suspirou, não evitando olhar para trás enquanto caminhava, contrariado, na direcção do Ferreira.

2.
Pesadelos, como fantasmas na neve

Foi um grito abafado, uma espécie de uivo em crescendo, como se umas mãos invisíveis lhe apertassem a traqueia. A primeira-dama acordou sobressaltada, Presidente!, acorde!, ai, que dá uma coisa ao homem!, exclamava enquanto abanava o presidente para este acordar. Ao abrir os olhos, distinguiu a figura da sua mulher na penumbra. A primeira-dama acendeu o candeeiro da mesa de cabeceira, uma estátua de uma mulher africana de formas abundantes e mais quentes que o Saara, como ele gostava de dizer, às escondidas da primeira-dama, que lhe tinha sido oferecida por um chefe de estado de um qualquer país africano. Já com a indiscreta luz da Vénus africana a banhar-lhes as faces, a primeira-dama abordou o assunto: Presidente, estás outra vez a sonhar com o Bochechas?, perguntou, enquanto lhe afagava a cara, o Bochechas já não existe, politicamente falando, por favor, não te preocupes mais. Ele ajeitou o cabelo e respondeu, não, não era isso hoje, sonhei com a cagarra, estás a ver?, ela abanou a cabeça pois não fazia ideia do que ele estava a falar, a cagarra falou para mim no sonho, sou como aquele miúdo da Guerra dos Tronos, não me lembro do nome dele. Aquele que apalpou a irmã e agora já não tem genitais, presidente?, perguntou a primeira-dama, confusa, não, não, respondeu o presidente, aquele que vê o corvo de três olhos e consegue encarnar nos animais, aquele moço que apanhou aqueles dois irmãos  em actos sodomitas e depois caiu da torre, vês, a sodomia faz mal à locomoção, agora anda sempre a ser puxado por aquele gajo que diz sempre a mesma coisa, o, como é que ele se chama?, o primeiro ministro? inquiriu a primeira-dama, não, não, o Hodor, ah, não sei quem é, afirmou a senhora, mas, Presidente, continuou, o que é que a cagarra te disse? Ajeitou a almofada e ergueu-se, demorando-se a beber do copo de água que tinha à cabeceira, ao lado do livro das memórias do Churchill e do livro da Criada Malcriada. Primeira-dama, a cagarra mostrou-me o caminho: sei o que devo dizer amanhã no discurso. Mas, Presidente!, não podes colocar o destino do país nas garras de uma cagarra!, a primeira-dama estava chocada com o que acabara de ouvir. Se os cidadãos deste país me confiaram o destino, porque é que não posso fazer uma parvoíce e aceitar o discurso da cagarra?

3.
Nas asas da certeza, no aconchego de uma nuvem

Apertou a gravata, sorriu ao espelho. Sabia que não podia demorar muito tempo na declaração, daqui a nada ia dar o Estoril - Sporting, e, mal por mal, já que o Sport Lisboa e Benfica não ia disputar esta final, tinha que torcer pelo Estoril, até porque gostava do amarelo das camisolas, lembrava-lhe o sol a sul, na sua terra de origem, onde, embalado pelo vento quente do fim da tarde, ajudava os seus pais no campo. Caminhou até ao pódio, ajeitou os papéis e saudou o país. Com a cagarra no pensamento, o Presidente afirmou convictamente que não havia crise política alguma porque, efectivamente, não tinha dado entrada nenhum pedido de remodelação do governo, aquilo foram os garotos a brincarem aos políticos, o raça dos miúdos, aquilo foi tudo da boca para fora, é como quando dizemos às miúdas que vamos casar com elas e tudo e tudo, é coisa do momento, até haver papéis escritos não vale nada, disse enquanto piscava o olho à audiência masculina. Portanto, meus amigos, concluiu, voltem lá para as suas famílias, parem lá com as brincadeiras, vão lá para casa jogar ao Spectrum e ao Sabichão, que o gajo, é do caraças, ele adivinha mesmo as respostas!, aquilo não se engana, porque o país não pode parar: faremos eleições para o ano, que diz que o tempo está mais fresco, é o ano do Mundial no Brasil, o Benfica, Deus nos valha a todos se isto não acontecer, vai ser campeão e vai andar tudo mais bem disposto. Portanto, amigos como sempre, vamos por isto para trás das costas e continuar a empobrecer preventivamente o país para não corrermos o risco de empobrecer no futuro, é mais ou menos como diz o Ned do Southpark: se não matarmos os animais eles aumentam em número e deixam de ter recursos e acabam por morrer, é mais ou menos isto. Obrigado.
Pousou os papéis e fechou os olhos. Viu a cagarra na sua mente, esta parecia sorrir-lhe. Sabia que tinha cumprido a sua missão. Abandonou a sala, tinha a primeira-dama com o roupão e os chinelos à sua espera, como sempre. A primeira-dama não estava minimamente preocupada com a crise política: sabia que pior do que isto estava era difícil, tal como sabia que daqui por um bocado começava o especial de domingo do Big Brother e, se o Presidente não visse tudo desde o início, depois acabava por adormecer mal disposto. Isto cada um sabe de si, pode ser que um dia alguém queira saber de todos.

Não tens de agradecer, Carlos Vaz Marques.

20 de julho de 2013

SBSR, isto já não é o que era

Ao contrário de há dois anos atrás, em vez de apanharmos uma seca de cinco horas no carro a caminho, chegámos muito depressa. E para é que serviu esse tempo que ganhámos? Exactamente: para apanhamos uma seca de cinco horas no próprio recinto. O concerto que nos levou lá era só à uma da manhã, o Johnny Marr era só às vinte e três e qualquer coisa. Então por lá andámos, perplexos (e isto só comprova a minha inenarrável ingenuidade, já que esperava que algo tivesse melhorado em dois anos) por não encontrarmos nenhum tipo de comunicação onde pudéssemos saber as bandas e a hora em que tocam, um gajo vai ao alive e é bombardeado de merdas itens úteis para percebermos o que se passa quando onde e com quem, no super bock não, estás no meio do mato e vives como tal, na anarquia pura. Comemos, passeámos, tirámos uma foto com o sapo, ele também te apalpou o rabo?, perguntou a senhora logo após a foto, não, não me apalpou, acho bem, bestialidade não é a minha cena. Passado algumas horas, os concertos: primeiro tocaram as Anarchicks, a baterista é brutal, a guitarrista e a baixista safam-se, o som até não é mau, mas a vocalista... Não consigo. Estava no palco principal do super bock, alguns milhares de pessoas perante ela, e parecia que não se divertia tanto desde que lhe morreu o peixe dourado quando tinha oito anos. Ainda assim passou-se bem. Depois veio a Azealia Banks, uma coisa completamente deslocada ali no meio, com momentos assustadores, mas que até acabou por resultar para algumas pessoas. As drogas são más, ok? Finalmente tivemos o Johnny Marr. Se as músicas do álbum novo dele são competentes quanto baste, quando toca música dos Smiths a coisa roça o sublime, Stop Me If You Think You've Heard This One Before, Bigmouth Strikes Again, How Soon Is Now e There Is a Light That Never Goes Out, podiam ter sido mais, deu para ver o músico que o Johnny é, podia perfeitamente deixar o ego do Morrissey a brincar sozinho e dar uma nova vida aos Smiths, eu alinhava nisso. Claro que as jovens de menos de dezasseis anos e rabos à mostra, de cerveja na mão e pernas sujas de terra não faziam ideia do que se estava a passar em palco e quem é que estava à frente delas. Pérolas a porcas. Finalmente, e depois da senhora já estar sentada no chão, relativamente perto do palco, a fazer amigos e a conhecer pessoas das ilhas, lá vieram os Arctic Monkeys, Alex Turner e os amigos, a este e oeste dele, cada vez mais, o menino cresceu, perdeu as borbulhas, ganhou gel, o geniozinho continua lá e os bons concertos vão se sucedendo, olhando a frio para o alinhamento tinha algumas dúvidas, mas, lá, mergulhado naquela poeira, acabou por resultar bastante bem, a senhora ia morrendo no mosh, no Brianstorm, especialmente quando alguém achou que era divertido atirar uma tocha lá para o meio, fazendo uma clareira gigante e quase provocando o esmagamento de umas quantas pessoas, ainda agora no concerto dos Kaiser Chiefs já apareceram tochas por duas vezes, não compreendo, a mulher polícia até os pensos da senhora apalpou, fazendo questão de os tirar da mala e tudo. Já eu, cheguei e atirei tudo para cima da mesa, dois telemóveis, chaves do carro, o polícia disse logo ah, já sabe como é, e eu, pois, e ele passe lá, podia ter uma tocha ou podia estar apenas contente de vê-lo, a verdade é que nem me apalpou nem nada disso, um gajo paga cinquenta euros e já nem por estas merdas passa, enfim os festivais já não são o que eram.

16 de julho de 2013

Cartinhas da sorte

Tenho a criança no Algarve com a avó e metade das tias, a banhos, ao sol, feliz como só ela, e eu aqui, mergulhado em escolares e no Inferno e nas montras e nas reuniões operacionais e nos eventos, a probabilidade de posts deprimentes aumenta consideravelmente nesta altura do ano.

Granta

Tirando o Saul Bellow (surpresa...), os portugueses estão a dar baile aos estrangeiros. Pensei que ia gostar mais do Afonso Cruz. A Dulce Maria Cardoso foi uma grande surpresa. Ainda não cheguei ao Hugo Mãe, até tenho medo de gostar.

Muita gente vai aos blogs à procura de respostas, lamento, hoje é mais perguntas

Existe alguma maneira de provar a outrem, quando tudo parece apontar contra nós, que somos inocentes e que no fundo da nossa corroída alma só correm boas intenções em relação a essa mesma pessoa? Ultimamente sinto-me um gajo muito azarado nestas coisas, parece que tudo conspira, levo muitas vezes por tabela, por vezes sinto-me como se tivesse a pagar o mal que já fiz, e se o fiz, e se o mereço, mas custa. Lá isso custa.

Tenho dois amores



Esta nunca tinha ouvido

"A temperatura está assim alta aqui dentro por causa dos livros, para conservar melhor?"

Threesome


13 de julho de 2013

Inveja

Ela, a rir-se, como se não existisse vida lá fora ou cá dentro, quando não é suposto rir durante o filme.

10 de julho de 2013

Kalopsia

Ter às vezes cá por casa uma engenheira é bastante útil ao nível do arranjo manhoso, mas perfeitamente funcional, atenção!, dos estores, admito que fiquei rendido, o próximo passo é pô-la a arranjar tomadas e a instalar candeeiros e pendurar quadros.

I appear missing

Eu pensava que as festas da Rã não me podiam importunar de qualquer forma, pensava que, estando mais para sul, estava seguro, mas, não, nada disso, com o vento de feição consigo distinguir, por entre a míriade  de techno manhoso dos vários carrosséis e demais atracções, a voz da mulher que tem uma barraca com peluches, que podiam perfeitamente terem sido manufaturados em Chernobyl, pendurados de pernas para o ar nuns cordéis, e a voz do gajo que desafia as pessoas para andar numa daquelas diversões assustadoras, não pela viagem em si, mas pelo facto daquilo estar assente em tarolos. E isto depois de dois fins-de-semana diabólicos na sociedade recreativa: festa das dez da manhã à uma da madrugada, com medleys de música portuguesa (vamos brindar com vinho verde deste meu adieu auf wiedersehen goodbye sobe sobe balão sobe e etc) pela manhã e um mix apurado de música pimba pela noite fora, fechar as janelas de nada servia, tal o volume da coisa, enfim, aposto que o Isaltino não permitia nada disto em Oeiras, por isso é que Cascais está como está, até a água de Carcavelos dá comichão às pessoas,

My god is the sun

Hoje saiu o Dan Brown, uma sombra da loucura de outros tempos, mas, ainda assim, deu para animar o dia, de manhã uma pessoa reúne-se para preparar coisas boas com parcerias azuis e subterrâneas que envolvem os Dead Combo e o Pessoa e livros, de tarde a TVI deixa-nos pendurados à espera de uma entrevista, eu que me preparava para falar do calor e do jogo Portas, Coelho ou Cavaco, uma variante do pedra, papel ou tesoura em que o Coelho ganha ao Cavaco e o Portas ganha aos dois, ah, mas o Cavaco perde sempre, pois, por isso é que só os desatentos o escolhem.

If I had a tail

Parece que a Catarina foi com a avó ao Colombo, à loja dos One Direction, isto da influência dos pares tem demasiada força, posso quase jurar que ela não conhece três músicas dos rapazinhos, mas, é pré-adolescente, o que se há de fazer?, consta que se encheu de pulseiras e posters e bonecos autografados (medo) e tirou uma foto com o preferido (acho que ela disse Liam, eu percebi Ivan, ela ia me matando pelo telefone, parecia eu a tentar explicar à minha avó quem eram os Guns n' Roses que eu ia ver a Alvalade, ah, o do lencinho, dizia ela, ofendia-me muito) num ecrã verde para parecer que estava mesmo mesmo mesmo com ele (ainda mais medo).

Fairweather friends

Preciso de confessar que me é impossível ter o discernimento correcto, seja ele qual for, quando temos em choque o gerente e o amigo, quando quero o melhor para essa pessoa ainda que isso não seja o melhor para mim profissionalmente.

Comentário político isento e fundamentado

Gostei do tempo que o Cavaco demorava a virar a página, literalmente falando, e quase que podia jurar, depois dele sair naquele seu passo lento, que ia aparecer no corredor a Maria com umas pantufas e xixi cama que o menino hoje já brincou muito com os outros meninos.

Preparem-se

Chuva de posts em breve.

7 de julho de 2013

Onze do Benfica 13/14

Três onzes à data de hoje, o provável, o alternativo e o meu.

5 de julho de 2013

Hard row, ou calor tarde e a más horas


Oh foda-se, mas isto é possível?!


Vamos ao Dragão na última jornada?! Sem me alongar muito, é no mínimo estranho. No mínimo.

4 de julho de 2013

A minha alma está parva

A mãe da Catarina veio buscá-la para ela ir ter uma aula de dança para ver se gostava. Aparentemente não só gostou como correu muito bem: a professora, que dá aulas há quarenta anos e tem um curriculum invejável dentro da dança, diz que a miúda apresenta uma concentração (oi?!) acima da média, que aprendeu coreografias à primeira, que corrige erros à primeira, que quando foi chamada a improvisar uma dança, a professora foi chamar a filha (também professora de dança) para assistir, disse que ela tem traços corporais muito bons, falou nos pés dela, falou em conservatório à mãe da criança e tudo. Eu sei que ela gosta de dançar, safa-se bem na escola, mas isto parece-me tudo exagerado. De qualquer forma, a minha alma está parva: parece que a miúda dança mesmo bem. 

The lost art of keeping a secret

Entre noventa e noventa e cinco andei numa escola ali para os lados do Bairro do Rosário. Lá perto havia um colégio só de raparigas. Eu e alguns colegas, por vezes, apanhávamos o autocarro para a Areia em vez apanharmos o da Torre. A viagem era um pouco mais lenta, dava para ouvir mais umas músicas no walkman, mas, ainda assim, não havia qualquer risco de não chegarmos a horas às aulas. A vantagem é que, apanhando este autocarro, podíamos sair numa paragem que ficava mesmo em frente desta escola só de raparigas. E lançávamos o nosso charme ao longo dos gradeamentos, sendo seguidos de dentro por uma horda de raparigas fardadas de bordeaux e cinzento, saias a encurtar à medida do nosso olhar, inventavam-nos alcunhas, elas, assanhadas, para nós eram as "freirinhas", e era o delírio matinal.  Não consigo precisar quando é que os rapazes lá entraram pela primeira vez. Mas foi algures nos anos noventa. Lembro-me bem de uma vez, já no nono ano, termos ido defrontar uma selecção de futebol da escola onde, segundo nos pareceu, constavam todos os rapazes da escola: foi a loucura. Elas puxavam-nos no túnel que dava acesso ao campo (que fica no outro lado da estrada), agarravam-nos quando chegávamos perto da linha lateral. Lançavam piropos de envergonhar muito bom camionista. E nós, cabelinho à foda-se em toda a sua glória, olhinhos claros e peles morenas, estávamos no céu (sem qualquer tipo de piada religiosa aqui).
Belas memórias. Pelo menos até ao momento em que me bate o facto da escola das minhas memórias ser exactamente a mesma escola em que acabei de matricular a minha filha no quinto ano.