13 de setembro de 2013

"e depois vieram uns rapazes do nono ano" ...

- A M***** estava a mostrar-me o instagram, não sei como é que ela põe as imagens dos One Direction que tira da internet.
- Eu depois em casa explico-te.
- E depois vieram uns rapazes do nono ano...
(tiro o som do rádio e conduzo mais devagar, não quero perder a vida na A5 numa sexta-feira treze, era coisa para ir parar ao correio da manhã e isso não é coisa que alguém queira)
- ... Sim...
- E perguntaram: "como é que se chamam?" e a M***** disse "para que querem saber?" e eu disse "Catarina"...
(suores frios)
- E depois...
- Depois a M***** disse que se chamava M*****, eles perguntaram a nossa idade e nós respondemos "dez anos" e eles disseram "ah, respeitinho aos meus velhos!"
- ...
- E eu só me apetecia dar-lhes um chuto e dizer "take it easy!"
- ....

Vai ser um ano longo, está visto.

Detached

Por outro lado, recebi uma chamada da minha filha às dez horas, pensei logo que tinha começado a faltar no primeiro dia a sério de aulas, mas não: agora como é do quinto ano já pode levar o telemóvel para a escola, feliz da vida. E ligou-me: ela que para ligar à família, pais incluídos, é quase preciso recorrer a ameaças nucleares. Ligou-me. Agora que penso nisso fico preocupado. Imagino como eu não estaria se ela tivesse efectivamente mudado para o público. 

Maldito

Estou com um humor impossível e, pior de tudo, não consigo perceber porquê.

12 de setembro de 2013

Algo que não anda sobre carris não pode descarrilar

Preciso de um sítio para despejar ficção dispersa e indefinida. Urgentemente. 

AM night in


Fashion night out

E eis que chega a noite em que a sua se aperalta toda, em que as pessoas são muitas, a noite é inversamente proporcional ao tamanho das vestes, a Rua Garrett é hoje, seguramente, a capital mundial do piropo: incito-vos a descê-la uma vez, ali pelo flanco esquerdo, e a passar em frente às obras, enquanto as meninas e moças desfilam pela rua, o sol a dar-lhes o conveniente realce, quanto mais na moda menos roupa, e os trolhas, os trolhas… dos melhores dias da sua existência, aquele ar de contentamento nem quando o Benfica é campeão, já os livreiros também tiveram um dia em grande, elevada nota artística, segundo consta, da clientela de hoje, comprar livros é mentira mas a livraria sempre ganha outro interesse, lá mais para o fim da noite virá a fauna mais rebuscada, temo por quem ficará cá até ao fim, mas o importante é que hoje, por aqui, fala-se do Pacheco, que ia adorar este tipo de fantochada, e de outros malditos dos livros, vamos perder em quantidade e em decote com a turba lá de fora, mas ganhamos seguramente em interesse literário e deboche cultural.

11 de setembro de 2013

Chorando relâmpago

Será ao som do novíssimo AM que passarei esta noite, o carteiro não se atrasou e a encomenda chegou no tempo indicado, embora após o desejado, que eu sou menino para ficar com a birra se não tenho as novidades no dia e hora em que saem, a noite que é a véspera da entrada no quinto ano de escolaridade da criatura que dá pelo nome de minha filha, Catarina para o registo civil e religioso cristão e sócia do Sport Lisboa e Benfica desde a nascença, isto com trinta e dois anos é coisa para digerir com dificuldade, pois que a blogoesfera está a parir por todos os cantos e é ver os posts dos novinhos pais babados, com a maravilhosa e muy misteriosa carga da maternidade sobre os ombros, a soltar prosa poética paternal por todos os poros, e aqui uma pessoa, de cachimbo e whisky metafórico na mão, recostado no cadeirão, pousa o Guerra e Paz num só volume (metafórico também, a Relógio d'Água anda a brincar com as pessoas que isto era coisa para ter saído o ano passado), e sorri condescendentemente para o ecrã num claro sinal de "sim, eu já estive aí", mas a verdade é que não estive aí, esta gente dos blogs, coisa que à primeira vista é capaz de passar despercebida, é gente ajuizada e não está cá para se aventurar em viagens pelo mundo inóspito da paternidade aos vinte e dois anos, portanto não só não sei bem o que eles estão a passar como os invejo um bocadinho de nada, não saberei o que é ser pai na circunstância deles, tal como eles não saberão o que eu passei, os pontos positivos e negativos anulam-se e complementam-se e deixam-nos no ponto de partida, o importante é que aproveitem porque o tempo voa e quando damos por nós estamos à porta da Claire's à espera que a filha se decida pela milésima pulseira / brinco / caderno / inserir qualquer tipo de item que vos venha à cabeça dos One Direction, enquanto olhamos para o tecto vidrado do centro comercial e pensamos onde é que errámos e como, depois de ela sair feliz e contente, o faríamos outra vez.

6 de setembro de 2013

His and Hers


Não se percebe como é que os "dela" ocupam mais espaço que os meus. 

O meu primo casou lá longe, em Itália

E eu aqui a trabalhar, ele casou, lá, longe, no sul de Itália, com uma italiana jeitosa, ambos hospedeiros de bordo, e eu a trabalhar, sem grandes meios de apanhar quatro voos e uma estadia e arranjar sítio para deixar o cão, ele casou e eu, aqui, longe, a pensar como teria sido ter lá estado, perder destes momentos é perder um bocado de nós: conheço-o desde sempre, partilhámos muito, férias, fins-de-semana, viagens aparentemente intermináveis em bancos de trás de carros (ironia) italianos, black is black I want my baby back e outras merdas tocavam na rádio, e nós, armados em bons, Guns N' Roses, um headphone para cada um, a gozarmos com toda a situação, acho que enquanto crescíamos nunca o imaginei a casar-se, afinal de contas, o gajo das miúdas e da bola e do bodyboard era eu, mas quem se casa numa igreja, noiva de branco e tudo e tudo, é ele, e eu feliz e infeliz e miserável, a ver fotos a cair no facebook como relâmpagos que iluminam uma noite escura, parece-me ver qualquer coisa ali mas rapidamente desaparece, vão faltar para sempre a troca de olhares antes do momento, o último abraço, umas palavras confidenciadas ao ouvido, a lágrima seguramente no canto do olho ou algures no fato, o importante é que casou, o importante é que é feliz, o abraço há de vir um dia, a afilhada há de lhe dar os parabéns em pessoa, estamos tão crescidos, orgulho, acima de tudo, o orgulho.

Despertador

Ir fazendo pequenos cortes acidentais nos dedos durante o dia de trabalho, para depois chegar a casa e entornar éter nas mãos enquanto desinfecto a ferida do cão.

5 de setembro de 2013

Deve ser difícil conviver comigo no comboio de manhã, quando, banhado pelo sol vespertino, me torno incompreensivelmente ainda mais chato

- eu posso olhar para as raparigas todas. O Jesus não se importa. O Jesus sabe tudo. 
- tens uma lata, tu benzes-te quando passas pela nossa Senhora, mas depois é o que se vê. 
- Eu nunca fui casado pela graça de Deus. 
- e então? 
- para Jesus sou um homem livre. O registo não conta para o reino dos céus. Posso fazer o que bem entender. 
 - ah... 
- aliás, sou livre para ir com Jesus para a Rua Garrett e sentar-me lá a apreciar as mulheres que passam na rua. 
- ... 
- e mais, o Jesus era gajo para gostar. 
- ... 
- perdia era a piada de tentar adivinhar o nome delas ou se eram raparigas para todo o tipo de badalhoquices só pelo aspecto. Porque o Jesus sabe tudo. 
- ...

Meme

Isto às vezes é um bocado como quem reencontra o amigo da adolescência, aquele dos bons, aquele de saltar muros e roubar nêsperas e levar com tiros de pressão de ar, aquele que te fazia cruzamentos milimétricos que uma pessoa, negligenciando o chão de alcatrão ou de terra batida com pedras salientes, a imortalidade era já ali, finaliza num glorioso pontapé de bicicleta, mesmo que não tenha havido o contacto merecido durante muito tempo, o reencontro dá-se e é como se nunca sequer tivéssemos estado dois dias afastados: não há silêncios incómodos, tudo é familiar e tudo flui. Com a escrita é assim. E uma pessoa escreve e vai escrevendo, lê e vai lendo, e acaba por dar por si demasiado enredado nisto das letras e é tarde demais. O meu superior directo ficou extremamente surpreendido, talvez chocado até, por eu preferir uma posição numa editora a dar o próximo passo lógico e ter responsabilidades a nível regional. É me muito fácil escolher: eu em não conseguindo escrever livros o melhor que posso fazer por ora é vendê-los, mas, se me dessem a oportunidade, gostava muito de ajudar a criá-los. No fundo, no fundo, o facto de ser um eterno escritor frustrado mexe com todas as facetas da minha vida. E isto torna-se assombroso quando percebemos que, mesmo que escrevêssemos todos os livros que queremos, esse desassossego nunca irá partir, o sonho é sempre mais rápido que a mão, foi o Einstein que disse isto. Não foi, mas se eu pegar numa foto dele a preto e branco e puser o texto passa a ser, é assim que isto funciona hoje em dia.

31 de agosto de 2013

Piropos

"Fofinho, eu por ti até aprendia a ler!", bate tudo.

Sacrilégio, aparentemente

Dia de derby, estou vestido de verde.