E eis que chega a noite em que a sua se aperalta toda, em que as pessoas são muitas, a noite é inversamente proporcional ao tamanho das vestes, a Rua Garrett é hoje, seguramente, a capital mundial do piropo: incito-vos a descê-la uma vez, ali pelo flanco esquerdo, e a passar em frente às obras, enquanto as meninas e moças desfilam pela rua, o sol a dar-lhes o conveniente realce, quanto mais na moda menos roupa, e os trolhas, os trolhas… dos melhores dias da sua existência, aquele ar de contentamento nem quando o Benfica é campeão, já os livreiros também tiveram um dia em grande, elevada nota artística, segundo consta, da clientela de hoje, comprar livros é mentira mas a livraria sempre ganha outro interesse, lá mais para o fim da noite virá a fauna mais rebuscada, temo por quem ficará cá até ao fim, mas o importante é que hoje, por aqui, fala-se do Pacheco, que ia adorar este tipo de fantochada, e de outros malditos dos livros, vamos perder em quantidade e em decote com a turba lá de fora, mas ganhamos seguramente em interesse literário e deboche cultural.
12 de setembro de 2013
11 de setembro de 2013
Chorando relâmpago
Será ao som do novíssimo AM que passarei esta noite, o carteiro não se atrasou e a encomenda chegou no tempo indicado, embora após o desejado, que eu sou menino para ficar com a birra se não tenho as novidades no dia e hora em que saem, a noite que é a véspera da entrada no quinto ano de escolaridade da criatura que dá pelo nome de minha filha, Catarina para o registo civil e religioso cristão e sócia do Sport Lisboa e Benfica desde a nascença, isto com trinta e dois anos é coisa para digerir com dificuldade, pois que a blogoesfera está a parir por todos os cantos e é ver os posts dos novinhos pais babados, com a maravilhosa e muy misteriosa carga da maternidade sobre os ombros, a soltar prosa poética paternal por todos os poros, e aqui uma pessoa, de cachimbo e whisky metafórico na mão, recostado no cadeirão, pousa o Guerra e Paz num só volume (metafórico também, a Relógio d'Água anda a brincar com as pessoas que isto era coisa para ter saído o ano passado), e sorri condescendentemente para o ecrã num claro sinal de "sim, eu já estive aí", mas a verdade é que não estive aí, esta gente dos blogs, coisa que à primeira vista é capaz de passar despercebida, é gente ajuizada e não está cá para se aventurar em viagens pelo mundo inóspito da paternidade aos vinte e dois anos, portanto não só não sei bem o que eles estão a passar como os invejo um bocadinho de nada, não saberei o que é ser pai na circunstância deles, tal como eles não saberão o que eu passei, os pontos positivos e negativos anulam-se e complementam-se e deixam-nos no ponto de partida, o importante é que aproveitem porque o tempo voa e quando damos por nós estamos à porta da Claire's à espera que a filha se decida pela milésima pulseira / brinco / caderno / inserir qualquer tipo de item que vos venha à cabeça dos One Direction, enquanto olhamos para o tecto vidrado do centro comercial e pensamos onde é que errámos e como, depois de ela sair feliz e contente, o faríamos outra vez.
9 de setembro de 2013
ADD
As pessoas que não percebem como é que há mais de duzentas mil pessoas inscritas naquele programa de ida sem volta para Marte não estão a prestar atenção.
6 de setembro de 2013
O meu primo casou lá longe, em Itália
E eu aqui a trabalhar, ele casou, lá, longe, no sul de Itália, com uma italiana jeitosa, ambos hospedeiros de bordo, e eu a trabalhar, sem grandes meios de apanhar quatro voos e uma estadia e arranjar sítio para deixar o cão, ele casou e eu, aqui, longe, a pensar como teria sido ter lá estado, perder destes momentos é perder um bocado de nós: conheço-o desde sempre, partilhámos muito, férias, fins-de-semana, viagens aparentemente intermináveis em bancos de trás de carros (ironia) italianos, black is black I want my baby back e outras merdas tocavam na rádio, e nós, armados em bons, Guns N' Roses, um headphone para cada um, a gozarmos com toda a situação, acho que enquanto crescíamos nunca o imaginei a casar-se, afinal de contas, o gajo das miúdas e da bola e do bodyboard era eu, mas quem se casa numa igreja, noiva de branco e tudo e tudo, é ele, e eu feliz e infeliz e miserável, a ver fotos a cair no facebook como relâmpagos que iluminam uma noite escura, parece-me ver qualquer coisa ali mas rapidamente desaparece, vão faltar para sempre a troca de olhares antes do momento, o último abraço, umas palavras confidenciadas ao ouvido, a lágrima seguramente no canto do olho ou algures no fato, o importante é que casou, o importante é que é feliz, o abraço há de vir um dia, a afilhada há de lhe dar os parabéns em pessoa, estamos tão crescidos, orgulho, acima de tudo, o orgulho.
Despertador
Ir fazendo pequenos cortes acidentais nos dedos durante o dia de trabalho, para depois chegar a casa e entornar éter nas mãos enquanto desinfecto a ferida do cão.
5 de setembro de 2013
Deve ser difícil conviver comigo no comboio de manhã, quando, banhado pelo sol vespertino, me torno incompreensivelmente ainda mais chato
- eu posso olhar para as raparigas todas. O Jesus não se importa. O Jesus sabe tudo.
- tens uma lata, tu benzes-te quando passas pela nossa Senhora, mas depois é o que se vê.
- Eu nunca fui casado pela graça de Deus.
- e então?
- para Jesus sou um homem livre. O registo não conta para o reino dos céus. Posso fazer o que bem entender.
- ah...
- aliás, sou livre para ir com Jesus para a Rua Garrett e sentar-me lá a apreciar as mulheres que passam na rua.
- ...
- e mais, o Jesus era gajo para gostar.
- ...
- perdia era a piada de tentar adivinhar o nome delas ou se eram raparigas para todo o tipo de badalhoquices só pelo aspecto. Porque o Jesus sabe tudo.
- ...
Meme
Isto às vezes é um bocado como quem reencontra o amigo da adolescência, aquele dos bons, aquele de saltar muros e roubar nêsperas e levar com tiros de pressão de ar, aquele que te fazia cruzamentos milimétricos que uma pessoa, negligenciando o chão de alcatrão ou de terra batida com pedras salientes, a imortalidade era já ali, finaliza num glorioso pontapé de bicicleta, mesmo que não tenha havido o contacto merecido durante muito tempo, o reencontro dá-se e é como se nunca sequer tivéssemos estado dois dias afastados: não há silêncios incómodos, tudo é familiar e tudo flui. Com a escrita é assim. E uma pessoa escreve e vai escrevendo, lê e vai lendo, e acaba por dar por si demasiado enredado nisto das letras e é tarde demais. O meu superior directo ficou extremamente surpreendido, talvez chocado até, por eu preferir uma posição numa editora a dar o próximo passo lógico e ter responsabilidades a nível regional. É me muito fácil escolher: eu em não conseguindo escrever livros o melhor que posso fazer por ora é vendê-los, mas, se me dessem a oportunidade, gostava muito de ajudar a criá-los. No fundo, no fundo, o facto de ser um eterno escritor frustrado mexe com todas as facetas da minha vida. E isto torna-se assombroso quando percebemos que, mesmo que escrevêssemos todos os livros que queremos, esse desassossego nunca irá partir, o sonho é sempre mais rápido que a mão, foi o Einstein que disse isto. Não foi, mas se eu pegar numa foto dele a preto e branco e puser o texto passa a ser, é assim que isto funciona hoje em dia.
2 de setembro de 2013
31 de agosto de 2013
23 de agosto de 2013
22 de agosto de 2013
13 de agosto de 2013
No Brasil chama-se Misto Quente, o que dá para trocadilhos e é razoavelmente apropriado
Gostei tanto que chateei hoje a senhora da Relógio d'Água para reeditar o A Sul de Nenhum Norte. Agora ando novamente pelas Américas. E até agora está ser bom:
Aquele bonito momento
Em que tu, sem dares por ela, link após link, vais parar novamente àquele lado da blogoesfera. Medo.
Oh tempo... Esquece
Vejo a foto da bebé da Leididi e uma onda irreprimível de nostalgia invade-me o corpo que deveria estar a trabalhar e a fazer coisas com livros, eu, carregado de saudades a pensar na minha criatura recém-nascida, ao meu colo, a dormir, tão caladinha que ela era, ainda os One Direction e o Brad Pitt (...) eram uma miragem, era tudo tão mais simples nessa altura, eu pego no telefone e ligo-lhe imediatamente, apenas para ouvir a voz dela, sei que não ia prestar atenção ao que ela ia dizer, apenas queria ouvi-la.
E, claro, como não podia deixar de ser... Tinha o telefone desligado.
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