Em que tu, sem dares por ela, link após link, vais parar novamente àquele lado da blogoesfera. Medo.
13 de agosto de 2013
Oh tempo... Esquece
Vejo a foto da bebé da Leididi e uma onda irreprimível de nostalgia invade-me o corpo que deveria estar a trabalhar e a fazer coisas com livros, eu, carregado de saudades a pensar na minha criatura recém-nascida, ao meu colo, a dormir, tão caladinha que ela era, ainda os One Direction e o Brad Pitt (...) eram uma miragem, era tudo tão mais simples nessa altura, eu pego no telefone e ligo-lhe imediatamente, apenas para ouvir a voz dela, sei que não ia prestar atenção ao que ela ia dizer, apenas queria ouvi-la.
E, claro, como não podia deixar de ser... Tinha o telefone desligado.
3 de agosto de 2013
Adoro as pessoas
Num contexto normal, pose cool, olhar vago e saudoso: "sim, eu aos doze, treze anos, fui ver Guns e Metallica a Alvaldade, sim, eu estive lá, o bom gosto vem de muito novo..."
A mesma pessoa, após um concerto hoje em dia: "o concerto foi bom, mas o público?! Eram só miúdos de catorze anos!!"
Isto, no fundo, explica muita coisa
Ao falarmos, à mesa, sobre o irmão da Catarina e o facto de ele ainda não falar, a minha mãe contou a história da minha primeira palavra, história que, curiosamente, eu nunca tinha ouvido. Quando eu pensava que ia ouvir uma enternecedora história que envolvia um bebé tremendamente bonito, numa praia ao fim da tarde, a dizer "mamã", perante os olhos verdes da minha mãe que brilhariam, só pode, tanto como o mar que nos servia de fundo, eis que surge a verdade: eu estava sentado na cadeirinha, na sala, a olhar para a televisão, enquanto dava o telejornal, e eis que sai pela primeira vez uma palavra da minha boca: Beirute. Normalíssimo: Beirute. Aparentemente era um Nuno Rogeiro em bebé e ninguém puxou por mim. Podia ser que agora fosse um crânio da geo-política, ou pelo menos tivesse melhor cabelo. Por outro lado, gosto muito de Beirut, portanto, tudo está bem quando acaba bem.
A vida real é, tipo, 3D
A criatura vem de casa da mãe com uns óculos 3D sem lentes, uma pessoa pergunta porquê, embora saiba que certamente se irá arrepender de ter feito tal coisa, e a criatura responde que é porque quer uns óculos hipster, que aqueles são para eu ver mais ou menos como são, então quer uns óculos hipster sem graduação, porque quer usar óculos mas gosta de ver bem.
Hardcore karaoke retirement home
A passear o cão, os dois.
- Pai, hoje foi uma seca o dia.
- Então?
- Não tinha nada para fazer... De tarde vesti as leggings pretas e os all-star pretos e arranjei uma nova personalidade, a Carina, até mudei os brincos.
- ...
... E estamos de volta
Sai do prédio da mãe, espreita para dentro do carro, sorri, acena, abre a porta, senta-se.
- Pai, a Xana?
- Está nos Açores.
- ... Olá para ti também, também tive muitas saudades tuas nestas três semanas...
- Quero a Xana!
- ...
1 de agosto de 2013
27 de julho de 2013
vida aguda atenta a tudo / e contudo para acabar mais depressa no escuro / escrevo rescrevo / e enfim reluzo e desmorro / (finjo pensá-lo) / um pouco um pouco / acautela a tua dor que se não torne académica *
Ultimamente tenho tido recordações de situações da minha infância nas quais não pensava há muito, muito tempo, ao ponto de, quando tenho essas recordações, estas serem extremamente vividas e acontecer algo curioso: a partir de um pequeno fragmento começa a formar-se uma imagem cada vez maior e mais detalhada na minha cabeça e consigo distinguir bem certos pormenores, bem como isolar áreas ou momentos das quais não guardo qualquer recordação e há apenas um vazio, e é engraçado perceber de onde é que têm surgido, ultimamente de forma persistente e consistente, os rastilhos para estas explosões de memória: os livros. Sentado no Metro, algo que nem é normal, estava a terminar de ler o conto do Pahmuk na Granta, escritor pelo qual eu não sentia o menor interesse, empatia ou desinteresse, fruto natural de um desconhecimento compreensível, quando uma cena me fez parar de ler: dois miúdos e a sua mãe vão visitar a avó, cujo prédio "parecia uma caixa de fósforos assente na vertical", e onde a mãe, depois de apanhar a chave atirada da janela pela avó, para abrir a porta "girou-a na fechadura com alguma dificuldade. A grande porta de ferro abriu-se devagar".
A Lisboa dos anos oitenta não é Istambul dos anos cinquenta: o prédio da minha avó não tinha uma porta de ferro, mas a verdade é que, para um miúdo magrinho e pequeno como eu era, custava muito a abrir. Lembro-me de esperar à porta, depois de subir do Cais-do-Sodré até à Rua de Santa Catarina, com sorte pelo elevador da Bica, de tocar na campainha e ficar a ver a porta a estender-se a caminho do céu, tão alta que ela era aos meus olhos, sempre impaciente para que a avó a abrisse finalmente. A porta abria-se e entrávamos num espaço escuro, confrontados imediatamente com a escadaria de madeira entorpecida e gasta. Não me recordo de alguma vez a termos subido. O mais curioso desta entrada era que, nas paredes da casa da minha avó existiam duas portas: uma pela qual entrávamos, directamente na cozinha, o que sempre me fez confusão, e uma segunda, que dava para um dos quartos e que, obviamente, não funcionava. Já lá dentro, lembro-me dos budas na cristaleira e do aviso de nunca, em caso algum, lhes tocarmos, sob pena de castigo infinito e pesado, e uma pintura de caça, certamente um cenário inglês com um caçador e raposas. Existiam dois quartos, o dos meus avós e outro em que não me recordo de entrar, onde dormia normalmente uma prima da minha avó, vinda do Porto e que acabou, com a saída de casa do meu tio e a morte do meu avô, por ficar a morar lá até ela, também, ter morrido. Não me recordo da morte dela, nem da data nem da circunstância. Recordo-me da morte estúpida do meu avô, demasiado cedo, não conheceu todos os netos. Já a minha avó conheceu todos os netos e a bisneta: a Catarina nunca se irá lembrar dela: é só uma velhinha com ar embevecido que a segura ao colo em algumas fotos. Não se vai lembrar da avó que, na manhã em que morreu, quando a fui visitar antes de entrar no trabalho, me implorou para que lá levasse a Catarina, porque tinha que ver a Catarina, queria muito ver a Catarina. A Catarina não chegou a ir.
Gostava muito de visitar a minha avó, em pequeno, algo que fazia com alguma frequência: estava com ela, por exemplo, no dia do incêndio no Chiado, já ali ao lado, a minha mãe com algum pânico e tudo, coisas de mãe. Eu a minha irmã costumávamos sentar-nos na janela a dar pão aos pombos, ou então íamos brincar para o Adamastor. Quando passeávamos com a minha avó pelas redondezas todos os corrimões eram escorregas e todas as lojas potenciais sítios para prendas, a generosidade e carinho dela não tinham limites.
Não pensava na casa da minha avó, nem em tantas situações há demasiado tempo. Nela, sim, nela penso muitas vezes. Especialmente por trabalhar ali tão perto e por ter a certeza de que seria o maior orgulho da sua vida ver-me como gerente de um sítio que ela conhecia desde sempre.
Pensar na casa fez me recordar tantas coisas, boas e más, tal como o dia em que, depois da sua morte, eu e o meu pai fomos os dois, sozinhos, desmontar os móveis de casa dela e levar tudo o que ficaria para nós, tudo o que seria guardado e ficaria como memória física de alguém que não precisava, jamais, de algo físico para que nos recordássemos dela. Deixei a mulher e a filha em casa e encontrei-me com o meu pai à porta. Naquela altura, a relação que tinha com o meu pai era pouca ou nenhuma. Não confundir, atenção, com os sentimentos que um pai e um filho sentem um pelo outro, que permaneciam imutáveis. Por uma série de circunstâncias e afastamentos, tínhamos uma relação distante. Recordo-me, quando vivíamos juntos, do seu alhear-se a meio de conversas, dos silêncios, das más disposições, do olhar no infinito.
Foi uma tarde de silêncio: o meu pai e eu a desmontarmos a casa de infância dele, a desfazermos memórias, a limparmos os restos de vida de um local que lhe era muito. Foi dos silêncios mais difíceis da minha vida, um silêncio preenchido pela distância no olhar dele, pela agrura dos seus gestos. Terminámos, carregámos o carro e foi cada um para seu lado, sem saber que, passados sete anos, iria conseguir perceber que sou muito mais parecido com ele do que alguma vez desejei ser.
* Herberto Helder.
26 de julho de 2013
Deve ser da febre #3
Recebi um vídeo da minha filha a cantar o Ouvi Dizer, num karaoke, algures na Manta Rota, a terminar num valente aplauso e em risinhos das tias. Cheguei agora à conclusão que durante o próximo ano vou ter o triplo da idade dela. Parece muito pouco.
Deve ser da febre #2
Posso quase jurar que ouvi um comentador na Antena 1 dizer "não se pode tapar o swap com a peneira".
Eu e a Benfica TV
Antes da Benfica TV: foda-se, estes gajos, sempre a dizer-mal, sempre a mandar abaixo, isto é vergonhoso, vou escrever ao provedor, isto é inadmissível!
Depois da Benfica TV: estes gajos, sempre a conter-se quando têm que dizer, mal, foda-se, digam-lá, arranjem coragem, parem lá de dizer "ah e tal o Benfica não tem um elemento fixo na frente e isso atrapalha só um bocadinho o jogo e não prende tanto os defesas, mas, atenção, é uma nova maneira de jogar!", e digam logo "tragam de volta o Cardozo!"
21 de julho de 2013
Granta, aqui vou eu
O Presidente e a Cagarra
"Quantas vezes tenho de dizer,
que não fui eu que disse isso,
foda-se?!"
Fernando Pessoa
1.
Selvagem, como as ilhas que piso
O Presidente sabia, melhor que ninguém, que não aguentava facilmente o terreno rochoso das ilhas onde se encontrava, mas, por outro lado, não queria dar sinais de fraqueza: o país precisava dele e não queria passar a imagem de velhote que mal consegue subir uma escarpa. Com a ajuda de um dos seus seguranças pessoais, o Ferreira, combatente nas ex-colónias e seu companheiro nas tardes de crapot, o Presidente ia subindo a custo, apoiando-se amiúde nos braços firmes do segurança, tentando sempre dar a sensação de que estava tudo bem, de que aquela subida não lhe sujava os ténis da Cat Merrel que a sua esposa o chateou para comprar, ele, que com a sua mísera pensão, se tinha contentado com uns Berg da Sportzone, ou, se o tempo estivesse bom, tinha ido de roupão e pantufas, mas já ninguém aguenta a indisposição da primeira-dama, portanto lá levou os ténis que ela escolheu, uma maçada, nem combinavam por aí além com a sua fatiota de Presidente em visita a terreno inóspito, mas, o que tem que ser tem muita força. não havia nada a fazer. A cada passo trémulo que dava, o Presidente evitava cruzar o olhar com quem o acompanhava: os olhos marejados, a voz a fugir-lhe no nevoeiro da rouquidão, a respiração a saltar em soluços de vinil riscado, isto custa-me horrores, confidenciou aos santinhos que a primeira-dama tanto adorava. Mas o que lhe custava mais, e isto nem a ele próprio admitia, era ver o presidente do governo regional das ilhas que visitava, inconsciente da sua galopante senilidade, a arrepiar caminho por ali fora como se houvesse um carnaval lá em cima e não pudessem começar sem ele, bolas!, pensou, lá vai o gajo mandar-me umas bocas assim que chegar lá acima, tenho de pensar numa resposta, se ao menos a primeira-dama aqui estivesse, pensou, ela não deixa ninguém sem resposta, enquanto ia acenando aos comentários das pessoas que o acompanhavam nesta importantíssima visita oficial. Isto é que são as ilhas selvagens, pensou para si mesmo, grande coisa, deixa-me cantarolar, selvagem, uh uh, uma dentada em Lion, há muito tempo que não como um Lion, agora a primeira-dama só me deixa comer Kinder Surpresa e nem me deixa montar o brinde sozinho, enfim, selvagem sou eu, quando alguém nasce, nasce selvagem, não é de ninguém, já nem me lembro quem canta isto, deve ser de um baladeiro como o Nel Monteiro ou algo do género, bom, boa música independentemente do baladeiro que lhe dá voz, concluiu para si mesmo.
Continuou a caminhar em silêncio, os olhos presos no céu, com a sua infernal promessa de infinito. Era nestes momentos que o Presidente conseguia pensar em assuntos que realmente importavam, a sua mente parecia alinhar-se nos carris dos pensamentos fulcrais da sua existência enquanto chefe de estado, e o pensamento fluía mecanicamente e só parava nas estações que faziam a diferença: sou um bom líder para este país?, devemos acelerar a ida aos mercados?, será que me esqueci de deixar a gravar o Crime Disse Ela?, a mente do Presidente era precisa e eficaz como o Patek Philippe que ostentava no pulso.
Senhor Presidente, pareceu-me ter ouvido qualquer coisa, deve ser o vento, pensou enquanto ignorava o chamamento, Senhor Presidente, oh diabo, não é que estão a chamar por mim, deixa-me acenar enquanto sorriu, pode ser que resulte, Senhor Presidente veja isto!, não resulta, deixa lá ver o que este quer. Andou mais uns passos, sempre apoiado nas rochas, e viu, aninhada num pequeno ninho escondido nas rochas, uma cagarra.
- Olha, uma cagarra! - disse o chefe de estado, mostrando um contentamento de criança em visita de fim de ano ao jardim zoológico. - Bom dia!
Os olhos do Presidente e da cagarra cruzaram-se e, naquela fracção de segundo, formou-se uma espécie de elo que, sem que ambos o soubessem no momento, iria perdurar para sempre. Várias pessoas, munidas de câmaras de filmar, aproximaram-se para captar o momento. A cagarra, meio assustada, piscou os olhos duas vezes e aninhou-se, desviando a cabeça e ignorando todo o aparato que se perfilava diante de si.
Quando a subida terminou, o Presidente tentou, subtilmente, fazer com a comitiva voltasse para trás: queria experimentar novamente aquela leve sensação de paz, queria fundir o seu olhar com a da cagarra: era como se ela lhe quisesse dizer alguma coisa. Senhor Presidente, onde é que vai?, gritou um dos seguranças, oh Ferreira, vai lá apanhá-lo que ele está outra vez sem saber onde anda!, Senhor Presidente, o caminho é por aqui!
O Ferreira correu uns metros e abordou, com cuidado como lhe foi ensinado pela primeira-dama, o aparentemente confuso presidente, Senhor Presidente, temos de voltar para trás, o Presidente voltou-se, cerrou os punhos e disse, a cagarra espera por mim, mas, senhor Presidente, amanhã tem de fazer uma declaração ao país, venha lá. Ele suspirou, não evitando olhar para trás enquanto caminhava, contrariado, na direcção do Ferreira.
2.
Pesadelos, como fantasmas na neve
Foi um grito abafado, uma espécie de uivo em crescendo, como se umas mãos invisíveis lhe apertassem a traqueia. A primeira-dama acordou sobressaltada, Presidente!, acorde!, ai, que dá uma coisa ao homem!, exclamava enquanto abanava o presidente para este acordar. Ao abrir os olhos, distinguiu a figura da sua mulher na penumbra. A primeira-dama acendeu o candeeiro da mesa de cabeceira, uma estátua de uma mulher africana de formas abundantes e mais quentes que o Saara, como ele gostava de dizer, às escondidas da primeira-dama, que lhe tinha sido oferecida por um chefe de estado de um qualquer país africano. Já com a indiscreta luz da Vénus africana a banhar-lhes as faces, a primeira-dama abordou o assunto: Presidente, estás outra vez a sonhar com o Bochechas?, perguntou, enquanto lhe afagava a cara, o Bochechas já não existe, politicamente falando, por favor, não te preocupes mais. Ele ajeitou o cabelo e respondeu, não, não era isso hoje, sonhei com a cagarra, estás a ver?, ela abanou a cabeça pois não fazia ideia do que ele estava a falar, a cagarra falou para mim no sonho, sou como aquele miúdo da Guerra dos Tronos, não me lembro do nome dele. Aquele que apalpou a irmã e agora já não tem genitais, presidente?, perguntou a primeira-dama, confusa, não, não, respondeu o presidente, aquele que vê o corvo de três olhos e consegue encarnar nos animais, aquele moço que apanhou aqueles dois irmãos em actos sodomitas e depois caiu da torre, vês, a sodomia faz mal à locomoção, agora anda sempre a ser puxado por aquele gajo que diz sempre a mesma coisa, o, como é que ele se chama?, o primeiro ministro? inquiriu a primeira-dama, não, não, o Hodor, ah, não sei quem é, afirmou a senhora, mas, Presidente, continuou, o que é que a cagarra te disse? Ajeitou a almofada e ergueu-se, demorando-se a beber do copo de água que tinha à cabeceira, ao lado do livro das memórias do Churchill e do livro da Criada Malcriada. Primeira-dama, a cagarra mostrou-me o caminho: sei o que devo dizer amanhã no discurso. Mas, Presidente!, não podes colocar o destino do país nas garras de uma cagarra!, a primeira-dama estava chocada com o que acabara de ouvir. Se os cidadãos deste país me confiaram o destino, porque é que não posso fazer uma parvoíce e aceitar o discurso da cagarra?
3.
Nas asas da certeza, no aconchego de uma nuvem
Apertou a gravata, sorriu ao espelho. Sabia que não podia demorar muito tempo na declaração, daqui a nada ia dar o Estoril - Sporting, e, mal por mal, já que o Sport Lisboa e Benfica não ia disputar esta final, tinha que torcer pelo Estoril, até porque gostava do amarelo das camisolas, lembrava-lhe o sol a sul, na sua terra de origem, onde, embalado pelo vento quente do fim da tarde, ajudava os seus pais no campo. Caminhou até ao pódio, ajeitou os papéis e saudou o país. Com a cagarra no pensamento, o Presidente afirmou convictamente que não havia crise política alguma porque, efectivamente, não tinha dado entrada nenhum pedido de remodelação do governo, aquilo foram os garotos a brincarem aos políticos, o raça dos miúdos, aquilo foi tudo da boca para fora, é como quando dizemos às miúdas que vamos casar com elas e tudo e tudo, é coisa do momento, até haver papéis escritos não vale nada, disse enquanto piscava o olho à audiência masculina. Portanto, meus amigos, concluiu, voltem lá para as suas famílias, parem lá com as brincadeiras, vão lá para casa jogar ao Spectrum e ao Sabichão, que o gajo, é do caraças, ele adivinha mesmo as respostas!, aquilo não se engana, porque o país não pode parar: faremos eleições para o ano, que diz que o tempo está mais fresco, é o ano do Mundial no Brasil, o Benfica, Deus nos valha a todos se isto não acontecer, vai ser campeão e vai andar tudo mais bem disposto. Portanto, amigos como sempre, vamos por isto para trás das costas e continuar a empobrecer preventivamente o país para não corrermos o risco de empobrecer no futuro, é mais ou menos como diz o Ned do Southpark: se não matarmos os animais eles aumentam em número e deixam de ter recursos e acabam por morrer, é mais ou menos isto. Obrigado.
Pousou os papéis e fechou os olhos. Viu a cagarra na sua mente, esta parecia sorrir-lhe. Sabia que tinha cumprido a sua missão. Abandonou a sala, tinha a primeira-dama com o roupão e os chinelos à sua espera, como sempre. A primeira-dama não estava minimamente preocupada com a crise política: sabia que pior do que isto estava era difícil, tal como sabia que daqui por um bocado começava o especial de domingo do Big Brother e, se o Presidente não visse tudo desde o início, depois acabava por adormecer mal disposto. Isto cada um sabe de si, pode ser que um dia alguém queira saber de todos.
Não tens de agradecer, Carlos Vaz Marques.
20 de julho de 2013
SBSR, isto já não é o que era
Ao contrário de há dois anos atrás, em vez de apanharmos uma seca de cinco horas no carro a caminho, chegámos muito depressa. E para é que serviu esse tempo que ganhámos? Exactamente: para apanhamos uma seca de cinco horas no próprio recinto. O concerto que nos levou lá era só à uma da manhã, o Johnny Marr era só às vinte e três e qualquer coisa. Então por lá andámos, perplexos (e isto só comprova a minha inenarrável ingenuidade, já que esperava que algo tivesse melhorado em dois anos) por não encontrarmos nenhum tipo de comunicação onde pudéssemos saber as bandas e a hora em que tocam, um gajo vai ao alive e é bombardeado de merdas itens úteis para percebermos o que se passa quando onde e com quem, no super bock não, estás no meio do mato e vives como tal, na anarquia pura. Comemos, passeámos, tirámos uma foto com o sapo, ele também te apalpou o rabo?, perguntou a senhora logo após a foto, não, não me apalpou, acho bem, bestialidade não é a minha cena. Passado algumas horas, os concertos: primeiro tocaram as Anarchicks, a baterista é brutal, a guitarrista e a baixista safam-se, o som até não é mau, mas a vocalista... Não consigo. Estava no palco principal do super bock, alguns milhares de pessoas perante ela, e parecia que não se divertia tanto desde que lhe morreu o peixe dourado quando tinha oito anos. Ainda assim passou-se bem. Depois veio a Azealia Banks, uma coisa completamente deslocada ali no meio, com momentos assustadores, mas que até acabou por resultar para algumas pessoas. As drogas são más, ok? Finalmente tivemos o Johnny Marr. Se as músicas do álbum novo dele são competentes quanto baste, quando toca música dos Smiths a coisa roça o sublime, Stop Me If You Think You've Heard This One Before, Bigmouth Strikes Again, How Soon Is Now e There Is a Light That Never Goes Out, podiam ter sido mais, deu para ver o músico que o Johnny é, podia perfeitamente deixar o ego do Morrissey a brincar sozinho e dar uma nova vida aos Smiths, eu alinhava nisso. Claro que as jovens de menos de dezasseis anos e rabos à mostra, de cerveja na mão e pernas sujas de terra não faziam ideia do que se estava a passar em palco e quem é que estava à frente delas. Pérolas a porcas. Finalmente, e depois da senhora já estar sentada no chão, relativamente perto do palco, a fazer amigos e a conhecer pessoas das ilhas, lá vieram os Arctic Monkeys, Alex Turner e os amigos, a este e oeste dele, cada vez mais, o menino cresceu, perdeu as borbulhas, ganhou gel, o geniozinho continua lá e os bons concertos vão se sucedendo, olhando a frio para o alinhamento tinha algumas dúvidas, mas, lá, mergulhado naquela poeira, acabou por resultar bastante bem, a senhora ia morrendo no mosh, no Brianstorm, especialmente quando alguém achou que era divertido atirar uma tocha lá para o meio, fazendo uma clareira gigante e quase provocando o esmagamento de umas quantas pessoas, ainda agora no concerto dos Kaiser Chiefs já apareceram tochas por duas vezes, não compreendo, a mulher polícia até os pensos da senhora apalpou, fazendo questão de os tirar da mala e tudo. Já eu, cheguei e atirei tudo para cima da mesa, dois telemóveis, chaves do carro, o polícia disse logo ah, já sabe como é, e eu, pois, e ele passe lá, podia ter uma tocha ou podia estar apenas contente de vê-lo, a verdade é que nem me apalpou nem nada disso, um gajo paga cinquenta euros e já nem por estas merdas passa, enfim os festivais já não são o que eram.
Subscrever:
Mensagens (Atom)
