Estar nomeado deve ser uma maneira retorcida que o karma achou para me compensar da semana benfiquista. A não ser que eu fique a lutar pelo título e depois perca o mesmo na segunda-feira, às 00h02.
18 de maio de 2013
16 de maio de 2013
Poeta pintor
Está a tornar-se o louco da Rua Garrett preferido de toda a gente, seja a chamar fascista ao indiano dos cães, a entrar na loja e a dizer que as mulheres feias não podem entrar numa livraria, a dizer que odeia ódio mas por acaso odeia paneleiros ou a andar pela rua abaixo atrás de turcos enquanto grita three nil!, three nil!
Clarícia
Pior que a italiana do sotaque, só a brasileira que folheia alguns cinco livros da Clarice, lè um pouco, e vem ao balcão perguntar se está em português de Portugal ou do Brasil, é, nós aqui traduzimos do brasileiro: riscamos o gerúndio , abolimos o tratamento por vocè e pomos "pá" no meio das frases, resulta muito bem.
It's-a me, Mario
Uma italiana aborda-me na loja e pergunta-me, em inglês, com o sotaque italiano mais estereotipado do mundo, "do you have-a children book? do you speak-a english?" ao que eu respondi yes, e ela acrescenta "hmmm, a little bit...", acho piada ao facto de ela inferir que eu falo um pouco de inglês apenas com um yes, especialmente ouvindo a qualidade do inglês dela.
Ainda do glorioso
Já que Jesus e os seus apóstolos perderam tanta coisa este ano podiam também perder o medo de perder, o medo de falhar, provaram na pele a maior derrota das suas vidas, uma derrota em dois actos, um bicho medonho que escalou impávido e sereno a montanha da sobranceria com que festejámos fora de tempo, que esta derrota sirva para eles perceberem que, apesar de tudo, continuamos aqui, para o ano será, seguramente, melhor.
Aí vamos nós
Mais uma semana sem notícias, jornais e sites desportivos, facebook e redes sociais no geral, como já li a Time, ontem li a The Economist e hoje foi a NME, amanhã será uma decisão difícil entre a Playboy e a Monocle, eu já estou por tudo desde que não haja qualquer vestígio de futebol.
13 de maio de 2013
South of the wall
Na senda de não ler jornais desportivos hoje fui ler a Time, não tem o Miguel Sousa Tavares mas tem o John McCain, o que é basicamente a mesma coisa, só muda o lado do Atlântico e o jeito para escrever ficção, tinha uma crónica deveras interessante sobre a geração do milénio, na qual, aparentemente, eu me incluo, açambarca tudo desde 1980 a 2000 (mais um bocado apanhava a minha filha, medo, filha essa que foi passear com a sua antiga empregada e voltou para casa com dois furos no mesmo lado da orelha, e eis que ela se torna uma mestre no "o pai deixou" como desculpa para tudo), geração portanto que partilho com a senhora aqui ao lado, senhora essa que enviei carinhosamente para o Algarve para poder estar em reclusão durante o fim-de-semana decisivo (que todos viram como bem correu...) e que volta com roupa nova e de franja, os ares do sul fizeram-lhe muito bem, mas aqui eu tenho que discordar dos senhores da Time, porque eu e a doce criatura não somos da mesma geração, a geração de 1980 é melhor do que todas as que vieram nos anos seguintes, ah, mas tu não tens factos que corroborem isso, mas, respondo eu, só duvidam porque não conhecem gente suficiente da geração de 1980, então a geração do milénio aparentemente é narcisista e preguiçosa, e mora até muito tarde na casa dos pais, naturalmente que não é tão boa quanto a geração anterior que realmente é fantástica em muitas coisas: especialmente a generalizar.
Ao segundo dia
Ainda não fui ler um único jornal, ver um único espaço de notícias na televisão, não fui às notícias do google nem, imagine-se, ao site da Bola. É para manter, pelo menos até quinta-feira, com possível extensão até ao início da época 2013/14.
12 de maio de 2013
Esquecer é deixar uma série de vidas para trás
Queria conseguir fechar os olhos e deixar de ver aquele momento: todos nós, girassóis de tecido gasto virados para um sol que se adivinhava a enegrecer, concentrados num momento singular, num ponto alpha da existência, quando de repente se dá o clarão e nós nos resignamos perante o facto de que não somos mais do que uma pontinha de infinito, ou como diria o outro, vai mas é para o caralhinho, oh Kelvin, foda-se.
11 de maio de 2013
Red right hand
A assessora de imprensa de uma editora convidou-me pelo facebook para um evento no qual, imagine-se, estarei a vender livros, vou recusar o convite e depois quando a vir lá vou dizer "desculpa, eu gostava muito de ter vindo mas estou a trabalhar".
Level up
Fui jogar futebol passado um ano e estou vivo e estou inteiro, está tudo na mesma, a cadela do S. passa por mim várias vezes no Chiado, a Bia, filha do C., está feliz, nas palavras dele, que vença a doença é o que toda a gente deseja, e o seu mais novo é um espectáculo, jogámos benfiquistas contra o resto do mundo, uma espécie de antevisão para logo à noite, fizeram as habituais piadas do Fifa e da PS3, isto para quem já há um ano que não tem uma é cruel, eu gostava de repetir em breve mas a feira do livro não quer e não deixa.
10 de maio de 2013
O pior do futebol
Daqui Ides sofrer como cães? Gente idiota, que não tem clube nem cor nas camisolas, dar-vos-ei de seguida uma pequena lição: os mouros, que vós tanto odiais, é que viam no cão um animal impio. Sem mais comentários.
9 de maio de 2013
8 de maio de 2013
Progressos
Progresso é ela estar às compras comigo, no supermercado, e eu dar por ela toda contente a olhar para uma prateleira e a cantarolar "twooo minutes, toooo midniiiiiight".
Um gajo quer não gostar dele
Mas depois o homem fala assim desta incrível personagem, e uma pessoa é fraca nestas coisas.
5 de maio de 2013
Não sou capaz
Estive a arrumar o quarto da Catarina, uma experiência de quase morte, devia ser vendida naquelas caixas de experiências nos supermercados, recomendo vivamente, a criança acumula tralha como se não houvesse amanhã, tem uma cena por sacos de plástico cheios dos mais variados items, o conceito de "caixote de lixo" é uma coisa muito vasta para ela, e havia bastante roupa ainda com etiquetas no armário, roupa essa que eu jurei a pés juntos à mãe da criança que nunca tinha ido lá para casa e que nunca tinha visto, consegui ainda tirar um saco gigante de roupa para dar mas há coisas que, por muito que não lhe sirvam, por muitos anos que tenham, não vou conseguir dar a ninguém.
Dead flowers
Fui comprar flores para a minha mãe num estabelecimento comercial onde, dado o volume de pessoas que decidiu fazer o mesmo à última da hora, colocaram a senhora do peixe ou do talho a fazer caixa só para registar as flores, ideia maravilhosa e compreensível, não fosse a senhora estar completamente em pânico com as novas funções e estar tão à vontade com a caixa como eu num cockpit de um avião, se a coisa já estava complicada apenas para mudar o rolo dos talões ficou pior quando viu o meu cartão-refeição-maravilha-que-permite-fazer-compras-abaixo-dos-vinte-euros-no-tal-estabelecimento:
- Ai Constantina, agora é que 'tás tramada!
A ver se aprende de uma vez
Talvez ela aprenda, um dia, que lá por ela lhe foder mais o juízo não quer dizer que se preocupe mais do que os outros que gostam dela.
Bilheteira da FNAC
- Bom dia, é aqui que se demora meia hora para comprar a merda de um bilhete?
- Sim, sim, é aqui esteja à vontade, diga-me o que quer que eu demoro meia hora para processar isso, pense na vida, veja os livros ao longe, veja as pessoas felizes a irem comprar cenas que tu não podes, veja o desespero dos que estão mais atrás na fila e a felicidade dos que, finalmente, conseguiram comprar bilhete.
4 de maio de 2013
See you in hell
Jeff Hanneman (1964 - 2013)
Depois do Chi, dos deftones, agora o Jeff de Slayer, ano mau para duas das bandas que mais gosto. O Jeff Hanneman mostrou que era possível adicionar toneladas de qualidade técnica e precisão à velocidade das bandas de speed e thrash, era a alma dos Slayer, criou dos melhores riffs de sempre, tive a sorte de o ver ao vivo no Ozzfest, no Restelo, na tour do God Hates Us All. O vinil do Reign in Blood é para ouvir, sempre, perto do máximo.
Deus me dê força
... Para eu não pedir à próxima pita que, quando vier comprar livros, tiver uma t-shirt de Ramones para me dizer cinco músicas deles.
3 de maio de 2013
Converge
Gostei muito do Fogo, do Gastão Cruz, o Escarpas é mais fraquinho mas ainda assim bom, vou ler mais dele, li ao mesmo tempo que a Maria Gabriela Llansol, interessante mas não me maravilhou, agora ando com o Don DeLillo atrás, um livreiro não me parava de chatear para ler o Ponto Ómega, e, cabrãozinho, tinha razão, é mesmo bom, mas isto de ler americanos deixa-me sempre com saudades do McCarthy e depois olho para a estante e vejo o Suttree e o Nas Trevas Exteriores e fico mais descansado, ainda queria ler o segundo volume dos contos do Tchekhov ou o Cossacos do Tolstoi mas depois lembro-me que estou a gostar de ler Saramago e não há fome que não dê em fartura.
Dillinger escape plan
Não vou a XX, exagerados no preço e cartaz fraquinho, mas vou comprar o bilhete para Arctic Monkeys porque eu e o Alex Turner temos assim uma espécie de secret arrangement em que indo um de nós ao pais do outro o outro vai lá vê-lo, não tenho ido a Inglaterra nos últimos tempos portanto não sei se ele cumprirá a parte dele mas vamos acreditar que sim.
Bring me the horizon
Acho que me estou a tornar perito em fixar o olhar no infinito e deixar a vida passar ao meu lado, a música toca na divisão ao lado, eu vejo o mundo na terceira pessoa, a música como banda sonora, como se eu não fizesse parte disto, o olhar preso no nada, por vezes penso em coisas insignificantes, por vezes penso no significado da vida, mas o olhar, teimoso, mantém-se à procura de um qualquer horizonte que temo bem que nunca virá.
27 de abril de 2013
Espera, espera
Também estava lá aquele gajo que andava nos jornais e revistas porque se tinha atirado feito louco dum prédio queixava de que a mãe do filho não o deixava vê-lo e tal e agora enfiou-se numa casa sem contacto com o exterior durante três meses, faz sentido.
Ou sou eu ou é o país que está certamente errado
Ligo a tv no big brother VIP e a única pessoa que conheço, à primeira vista, é o Zezé Camarinha.
Polima sul
Sonhei que ia num autocarro, assim naqueles primeiros lugares logo a seguir a uma das portas do meio, ou de trás, já não sei bem, naqueles lugares que geralmente levam velhotas com hortaliças no colo e que gritam oooooh senhoooor quando o motorista não pára nas paragens, uma vez no quinto ou sexto ano apanhei um psicopata que saltou umas três paragens, daquelas todas muito próximas, deixando as velhotas de hortaliças no ar, foi a loucura, tipo tardes da Júlia mas em movimento, e eu sentado nesse lugar olhei em frente e vi o Roberto Bolaño e pensei o que qualquer pessoa normal pensaria: olha o Bolaño, isto num autocarro da carris com destino incenrto, e de seguida pensei: espera lá, mas o Bolaño está morto, algo que, segundo parece, não me incomodou sobremaneira pois, quando dei por mim, já caminhava rumo ao lugar dele para o interpelar, reparei, mal tive uma visão mais próxima dele, que ele trazia debaixo do braço todos os livros dele que existem editados em português, então abordei-o e disse Bolaño, e ele ficou a olhar para mim pensativo, tens que me assinar esses livros para mim, eu venero-te, por favor, e ele reforçou o olhar pensativo e disse gostava muito mas não posso, vou para uma conferência na casa da América Latina, preciso deles, e eu foda-se, mas tu estás morto e eu nunca mais vou conseguir um autógrafo teu, e ele tira um dos livros do monte e diz olha, dos meus não te posso dar, mas tenho aqui o O que o turista deve ver, do Fernando Pessoa, posso assinar-te esse?, e eu respondi é melhor que nada, e ele lá assinou e eu saí na paragem seguinte, agora giro, giro, era arranjar uma interpretação para isto, e, pelo sim, pelo não, quando andar de autocarro vou andar com o 2666 debaixo do braço.
Aces high
Hoje está um mau dia para ser feirante na rua Anchieta, com a companhia do vento frio que são mil e uma agulhas que se espetam nos olhos, eu era bom era para feirante na praia, está visto, e a feira do livro que é já daqui a um mês e upa upa vamos comprar livros e apanhar sol e comer hamburguers oleosos e vender livros, vá, se tiver que ser.
26 de abril de 2013
Jornalistas desportivos, andam a dormir
Ainda não acredito que o título de nenhum dos jornais desportivos é "Banho Turco".
24 de abril de 2013
O fogo e o ruído surdo
Esqueci-me de escolher um livro para a viagem de comboio nocturna, depois de um dia esgotante a última coisa que eu precisava era de fazer a viagem para casa, que a estas horas ainda demora trinta minutos, na companhia dos meus pensamentos, então decidi escrever no caderno que uso para as minhas reuniões, nos phones, mais no coração do que nos ouvidos, toca o concerto do sábado passado, soube-me tão bem, até o Lição de Voo nº1, opus maldita, outrora espalhada nas paredes do meu quarto, é sempre bom espetarmos o nosso sofrimento na parede para outros o verem, é fofinho e resulta melhor do que gritá-lo aos ouvidos de alguém, até o Lição de Voo me tocou da maneira certa, quase todo ouvidos e nada coração, a senhora acalorada ao meu lado não suspeitava de nada do que ia em mim e do quanto contribuiu para que, no fundo, já nada fosse, ainda assim há coisas que gritadas nos fazem sentir vivos, na pressa de viver o corpo quente, eu queria tanto parar aqui, ainda só vou em Belém e há muito para escrever, não tivesse eu a caligrafia assustadoramente ilegível e isto daria um post fac-similado à maneira, as pessoas estão a ver-me escrever e parecem desconfiadas, é compreensível, há um senhor que olha para mim como se eu fosse o gajo do seven que está a escrever umas cenas psycho no seu caderninho e que, mais dia, menos dia, vai cortar alguém às postas e guardar na arca frigorífica, eles olham e eu escrevo e chego à triste conclusão que eu estou mais fadado para ler do que escrever, escrever é uma tortura, um dia, em dois mil e oito, obriguei-me a escrever um livro de contos em duas semanas, consegui, já não escrevia há muito, algumas pessoas chateavam-me por causa disso, faz lá os truques com as letras, maravilha-nos, isto pessoas pouco ou nada entendedoras das letras em geral, sentia-me como se pedissem ao Busquets para impressionar umas crianças dando uns toques na bola, isto quando há Messis por aí é pouco razoável, eu tinha pensado numa analogia com o Messi e pessoas com problemas de locomoção, mas é tarde para coisas de mau tom, voltando aos contos, não escrevi desde então, pelo menos nada que se lesse, umas das coisas que mais me incomodava a escrever era que as pessoas que me liam tentavam tirar conclusões ou vislumbrar sinais, o que, para quem tinha uma obsessão com cenários de fim de relação, era maravilhoso, que obsessão apropriada, pensam vocês, a ironia e eu somos assim, aqui façam o gesto de esfregar os indicadores um no outro, eu no fundo até gostava de escrever mas não consigo, ah, mas tens um blog, pois, pois tenho, e só eu sei as vezes em que eu penso que isto já deu o que tinha a dar, que já serviu o seu propósito, mas, tão certo como o Benfica ser o maior clube do mundo, se eu apagasse isto ia surgir em mim uma irreprimível e inocultável vontade de fazer postzinhos que ninguém vai ler, portanto, para já, continua, apesar de tudo, eu no fundo, no fundo, até gostava de escrever, mas eu a escrever sou como aquele tipo de barulho que se ouve quando estamos sozinhos em casa e, vai-se a ver, não era nada, sou cada vez menos fogo, apenas ruído surdo.
22 de abril de 2013
Record store day
Estive a trabalhar o dia inteiro no record store day, com o meu novo chefe e, como se não bastasse isso, ainda tive que montar e desmontar uma feira e fazer um evento com um autor estrangeiro. Tempo para discos, zero. Solução: enviar a senhora que me atura à Carbono, durante uma hora, enquanto eu vou andando para trás e para a frente na escolha de que discos ela tem que comprar, isto tudo por sms às escondidas durante o evento. A senhora merece o céu. O problema é que ela não acredita em céu. A parte preferida dela foi quando eu disse que não queria o All We Love We Leave Behind, dos Converge, e ela largou-o por lá, e, passado uns minutos, trinta minutos, vá, eu lá achei que sim, que esse era um dos que eu queria e ela quando foi buscá-lo já não estava lá.
21 de abril de 2013
Hoje é um dia de felicidade para a raça masculina
Tottenham - City
Liverpool - Chelsea
Juve - Milan
Benfica - Sporting
Liverpool - Chelsea
Juve - Milan
Benfica - Sporting
Dos títulos que começam por "dos"
No outro dia partilhei no meu mui selecto e refinado facebook aquela votação para eleger a livraria preferida dos lisboetas, na ânsia, claro, de que a minha ganhe (acho difícil, mas...). Recebi uns comentários na brincadeira, tudo bem, tudo normal, até que uma ex-funcionária da livraria (trabalhei com ela mas numa livraria em Cascais, não nesta em particular) diz que nunca votaria na minha por causa da falta de condições e limpeza dos locais destinados aos funcionários e do mal que pagam a estes... Faz-me confusão este tipo de pessoas que confunde as coisas: esta votação dirige-se ao público em geral, leitores, consumidores. As coisas mudaram bastante desde que a senhora em questão saiu de lá. Ela tinha alguma razão na questão da limpeza. Agora, quanto ao vencimento? Mas em que sítios é que ela faz as suas compras? A maior parte dos sítios paga o ordenado mínimo. Ou paga abaixo do que seria expectável. Depois, a realidade já nem é essa: penso que a maior parte (ganha mal, muito mal...) ainda assim ganha acima do ordenado mínimo. E a verdade é esta: quantos consumidores se preocupam com quanto ganham os funcionários das superfícies comerciais que visitam? Para quem é que esse é um factor determinante na escolha da loja onde compram os seus bens? Obviamente que eu nunca pactuaria com situações de ilegalidade, abuso, escravatura moderna. Mas estamos a falar de situações completamente diferentes: ganham pouco, é verdade, não vou ser hipócrita e negá-lo, mas não é cometida nenhuma ilegalidade nem lhes é pedido nem exigido nada do outro mundo enquanto livreiros. Claro que muito podia ser mudado, tudo podia ser melhorado e tenha eu oportunidade um dia de o fazer assim será feito. Mas não se pode confundir uma votação para consumidores com uma carta aberta para ressabiamentos ou reclamações sem sentido.
Ficas na dúvida se o teu pequeno-almoço continha substâncias ilícitas quando...
... Vais a descer a Garrett e vês o Nuno do Câmara Pereira (ou era outro qualquer?) vestido de homem-aranha a entrevistar pessoas para a TVI.
Uptown
Foi entregue em casa da avó com a indicação de que esta lhe cortasse as unhas. Aparentemente é mais fácil meter a criança num cabeleireiro para lhe arranjarem as unhas...
Assim não custa nada.
19 de abril de 2013
Escarpas
Eu percebo que as pessoas queiram editar livros: várias vezes pude testemunhar quando autores, de forma incógnita ou declaradamente aberta, visitam a livraria para ver os seus livros expostos, o ar de contentamento, os gestos de sonho realizado, os mais aventurosos sorriem perante um destino que julgam cumprido. Também temos outros, proto-visitantes à procura de livros que ainda não o são, sonhar não faz mal, imaginar merdas deste género também não.
Depois, temos os que editam a todo o custo. Que pagam para ser editados. Que alimentam editoras sem escrúpulos, mestres de esquemas de piramides que fariam a D. Branca empalidecer. Estes autores, sob falsas promessas de representação digna no mercado editorial, despejam largas quantias de dinheiro para verem o seu livro nas principais livrarias. O resultado não foge, muitas vezes disto: ou o editor não chega sequer a editar o livro, ficando com o dinheiro e aproveitando o nosso célere e eficaz sistema judicial para ser ir aguentando às custas destes autores, ou então o livro é editado, agora com o print-on-demand então é uma maravilha, às mijas e sabe-se lá com que controlo, não há apoio da editora em absolutamente nada.
Tenho lidado, infelizmente, em primeira mão com estes casos. Editoras que marcam lançamentos para autores completamente desconhecidos, com edições print-on-demand, que nem sequer arranjam uma merda de um apresentador, que não têm a coragem de aparecer e apoiar o autor quando este, invariavelmente, tem de reduzir o ego a um grão de pó e abandonar a mais uma vez sala vazia, deixar o silêncio para quem fica a arrumar o espaço que não chegou sequer a ser utilizado.
E quem é que tem que ficar a ouvir os lamuriosos queixumes dos autores? Aqui o vosso amigo. Eu compreendo-os quase sempre, quando não consigo compreender finjo que o faço, estão numa situação melindrosa, por vezes incrivelmente envergonhados. Apetece-me dizer-lhes, por vezes, que deviam ter tido juízo. Um gajo que edite um livro por uma editora destas e ache que vai encher uma livraria no lançamento é equivalente a eu achar que se gravar um vídeo a cantar e metê-lo no youtube vou encher o coliseu.
18 de abril de 2013
16 de abril de 2013
Partir para ficar
A não ser que queiram gastar só 8€, nesse caso é ir ao Ritz ver Linda Martini a tocar o primeiro álbum na íntegra, e já só faltam três dias.
Fogo
Fui ler um pouco do novo livro do Gastão Cruz, Fogo, da Assírio, durante o almoço, são os melhores 10€ que podem gastar por estes dias.
Mindless self indulgence
Estas mudanças estão a custar-me muito: ando a alternar entre momentos de oh-isto-é-maravilhoso com oh-que-caralho-onde-é-que-me-foram-meter.
I am the razor in the hands of god
Hoje em digo acho que já consigo imaginar o quão irritante devo ser para as pessoas que só conseguem ver o lado negativo das coisas, para a senhora mãe da Catarina nunca estava nada bem, nunca íamos chegar a horas, o Benfica ia sempre perder, percebo agora o chato que eu devia ser, sempre a achar que ia ficar tudo bem, no trabalho acaba por ser a mesma coisa, por vezes, não consigo não acreditar.
14 de abril de 2013
13 de abril de 2013
Ups, my bad
"Funcionário enganou-se e enviou alerta de míssil norte-coreano." Míssil, terramoto, é um erro comum, as teclas estão mesmo ao lado umas das outras.
12 de abril de 2013
South of the river
Como é que se explica que cinco pessoas cheguem aos sítios combinados para serem apanhadas de carro a caminho de Palmela cinco ou dez minutos antes da hora combinada para cada local, que a pessoa que os vai apanha saia também dez minutos antes do tempo previsto e, ainda assim, cheguemos trinta minutos atrasados ao nosso destino?
La banlieu
A chuva, acordo e passeio o adormecido cão e o sol nasce lá bem ao fundo num céu razoavelmente descoberto, sim, são seis da manhã, mas, que raio, hoje vai haver sol, tenho que me animar, arranjo-me na forma automatizada do costume, a máquina de barbear está um nível acima do normal o que faz com que eu me barbeie, de olhos semi-cerrados, durante um ou dois minutos, para depois ver que a barba está tal e qual estava quando acordei, repetimos o processo, afinal de contas, ainda é cedo, entro no banho e são seis e qualquer coisa são sete e tal afinal, parece que o tempo escorre pelo ralo, tudo a despachar a partir daí, saio de casa e respiro fundo quando vejo o chão encharcado, os óculos voltam para o bolso do casaco, diz que vai estar bom tempo este fim-de-semana, que vem aí o verão, mas custa-me verão sem primavera primeiro, e eu já não sei bem como é que se faz no verão, acontecem coisas aqui pelo meio que envolvem pó e livros em armazéns de alturas inenarráveis, tacks e picks, terminamos o dia com a Clarice Lispector, ou era o que queríamos, deixemos o Mexia e a Teolinda Gersão tomarem conta daquilo que temos coisas para fazer na livraria, tentas dar atenção ao Saramago no comboio mas o telefone do trabalho e o telefone pessoal vão tocando, chega a noite e percebemos que há discos e dias que funcionam melhor a dois.
11 de abril de 2013
Rapariga de coragem
A senhora foi jantar a minha casa no âmbito do evento "ver o Benfica na TV porque não tenho sporttv". O melhor momento chegou quando eu a apresento à minha avó e a minha avó diz olá e fica a olhar para ela durante algum tempo e, à nossa frente, vira-se para a minha mãe e diz "eu não sei quem é", e quando a minha mãe a anuncia novamente como minha namorada a reacção dela é "é mentira!", a minha mãe insistiu e ela disse "Não é nada!" por entre os risos incontroláveis de toda a gente.
O que vale é que dava para corrigir na hora
Um belo começo de dia é ires às nove da manhã assinar o teu novo contrato de empréstimo da casa (sim, aquele que te vai manter endividado até aos cento e dez anos) e no nome dos fiadores estar José qualquer coisa Abelhinha e Anabela qualquer coisa Fonseca, gente que, segundo me consigo lembrar, não conheço de lado absolutamente nenhum. A minha mãe riu-se com a piada fácil "ah, eu logo vi que tinha sido adoptado", já o meu pai não achou piada.
Sálvio, deves-me umas pastilhas para a garganta
Acho que estive perto de matar o meu cão de susto com o grito de golo, ficou parado no canto da sala a uivar, meio encolhido. Aguenta Link, que ainda falta muito da época.
10 de abril de 2013
9 de abril de 2013
4 de abril de 2013
2 de abril de 2013
A mil
Não aprecio quando me pedem para ir mais devagar, para fazer as coisas mais lentamente, é assim que funciono, é assim que o meu raciocínio corre, sou rápido a pensar e a agir. A desculpa do "ah, mas assim vais enganar-te" ou "vai-te escapar qualquer coisa" não funciona, temos pena. Erro tanto como quem demora o dobro do tempo. Chateia-me gente que me trava.
1 de abril de 2013
Oi? Moço...
Hoje foram gravar um spot para passar nos voos entre o Brasil e Portugal, a publicitar (entre outros locais de interesse) a livraria vintage very tipical tão antiga mais antiga do mundo e também mais antiga da cidade. É um spot narrado por actores famosos do Brasil e a protagonista é uma fashion blogger brasileira. E o ponto fulcral aqui é que, pelo que pudemos ver da moça, cada país tem as fashion bloggers que merece.
31 de março de 2013
Agora e na hora da nossa morte
Sem ser particularmente fã da frase "de leitura obrigatória", é a única coisa que me vem à cabeça quando penso neste livro. Imenso, intenso, único.
Boy division
Li mais um Bolaño, não há mais para ler, a Quetzal que se despache que ainda há três ou quatro obras por traduzir. Vejam lá isso.
Está morto, Jim
Tenho a Caixa Geral a deliberar sobre a mudança do meu empréstimo desde o dia quatro de dezembro do ano passado. Como só me faltam quinze anos para pagar a casa começo a ficar preocupado.
Leviathan
Quando soube que, afinal de contas, ficava na livraria onde estou, não me senti mais aliviado, a inquietação e desconforto com toda esta situação continuou tal e qual estava. Vou deixar de trabalhar directamente com uma pessoa que me colocou onde estou, que me deu quatro desafios, sempre em crescendo, sempre a passar para lojas maiores e com mais responsabilidades, que acreditou em mim, que, mais vezes do que devia, me safou de merdas que me podiam ter custado muito caro. E isso está a ser difícil de processar.
27 de março de 2013
Everybody wants to change the world but no one wants to die
Uma pessoa vai jantar fora e quando volta o facebook está em histerismo pelo Sócrates.
24 de março de 2013
21 de março de 2013
Poetas da casa
6.
Leste os poemas fora do prazo
muito menos sóbrio do que parecias
e pensaste que também os versos
podiam coser-se ao pescoço.
O mesmo cordel que te prendia,
a mão aberta sobre o valante,
afundou-te o pé inútil -
travavas um carro plano, desligado -
e puxou-te do estômago
uma vaga confissão.
eco surdo das horas antigas,
avulsas, longas, gratas, iguais.
Margarida Ferra
Leste os poemas fora do prazo
muito menos sóbrio do que parecias
e pensaste que também os versos
podiam coser-se ao pescoço.
O mesmo cordel que te prendia,
a mão aberta sobre o valante,
afundou-te o pé inútil -
travavas um carro plano, desligado -
e puxou-te do estômago
uma vaga confissão.
eco surdo das horas antigas,
avulsas, longas, gratas, iguais.
Margarida Ferra
A partir daqui é sempre a descer
Fui entrevistado hoje pela Serenella Andrade. A partir daqui só o Eládio Clímaco ou não dou mais entrevistas.
Orla Marítima
O tempo das suaves raparigas
é junto ao mar ao longo da avenida
ao sol dos solitários dias de dezembro
Tudo ali pára como nas fotografias
É a tarde de agosto o rio a música o teu rosto
alegre e jovem hoje ainda quando tudo ia mudar
És tu surges de branco pela rua antigamente
noite iluminada de noite de nuvens ó melhor mulher
(E nos alpes o cansado humanista canta alegremente)
«Mudança possui tudo»? Nada muda
nem sequer o cultor dos sistemáticos cuidados
levanta a dobra da tragédia nestas brancas horas
Deus anda à beira de água calça arregaçada
como um homem se deita como um homem se levanta
Somos crianças feitas para grandes férias
pássaros pedradas de calor
atiradas ao frio em redor
pássaros compêndios de vida
e morte resumida agasalhada em asas
Ali fica o retrato destes dias
gestos e pensamentos tudo fixo
Manhã dos outros não nossa manhã
pagão solar de uma alegria calma
De terra vem a água e da água a alma
o tempo é a maré que leva e traz
o mar às praias onde eternamente somos
Sabemos agora em que medida merecemos a vida
Ruy Belo
Catarina
Teve 4 a matemática, português e estudo do meio, 5 a expressão plástica e música. Aparentemente não teve 5 a português porque tudo indica que não se deu ao trabalho de ler o texto de interpretação e respondeu à vontade dela. E está proibida de participar no teatro enquanto não melhorar o comportamento na sala de aula e fechar aquela matraca imparável de uma vez por todas, a professora não percebe como é que ela sequer tem tanto assunto para falar e com tão variados colegas.
Sabes que és distraído
Quando apenas cinco meses depois de namorarem é que reparas que os vossos blogs tem ambos nomes de músicas de Arctic Monkeys.
18 de março de 2013
Velho do restelo
Passei a adolescência num bairro a cerca de um quilómetro do centro de Cascais. É um bairro praticamente fechado, na altura quase não tinha trânsito. O estacionamento vazava a partir das oito da manhã e só voltava a encher por volta das oito da noite. Até lá, era tudo o nosso campo de futebol. O passeio grande no centro, como se fosse uma rotunda disforme, era o nosso campo de futebol. Hoje, ao ir a casa da minha mãe para ficar lá com a Catarina, deparei-me com o facto de não conseguir arranjar um lugar, com carros parados em segunda fila. A uma segunda à tarde. O parque automóvel cresceu assim tanto em quinze anos, vinte anos? Está tudo desempregado? O que eu sei é que, nas férias da Páscoa de 1995 estariam, por esta hora, vinte ou trinta miúdos na rua. Agora? Zero.
License to ill
Não me recordo da última vez que tinha ido com a Catarina ao médico. Acordei hoje de "manhã", vamos ignorar as horas para não chocar as pessoas, ela deixou-me dormir e estava sossegada no sofá a ver televisão, como se nada fosse, como se estivesse óptima. Estava com um febrão. Desde pequena que ela raramente demonstra sintomas de doença. Ou bem que o corpo dela se manifesta inequivocamente ou a cena de ela ficar murcha e dormir muito ou pouco ou queixar-se de dores é mentira. É a amigdalite do costume, vai passar metade das férias por casa. Já estou a passar filmes para o tablet para ela ver quando ficar o dia todo em casa da mãe. Isto de ficar doente agora é outra coisa.
16 de março de 2013
Tem dias
Isto é enorme, as palavras iam caindo ao ritmo da boina, coçada e descolorada, a caminho de ser pousada no balcão, um último olhar para trás a perder-se no corredor, uma incredulidade quase pueril, a mão, de dedos grossos e rudes, é levada à cabeça para a coçar, e eu que vivo há cinquenta anos em Lisboa e nunca aqui entrei, bem, passei à porta, mas entrar, não senhor, nunca entrei, voltou a olhar para o livro de apoio escolar que levava para o neto, o raio dos professores é só pedir, só pedir, eu concordei e acrescentei que era a primeira vez mas que agora voltaria mais vezes, ele foi deixando cair umas notas no balcão, amarrotadas, saídas de um dos bolsos das calças, à procura da mais baixa, da certa, e disse agora já é tarde, já não há muito tempo, deu-me a nota, fechei a venda e despedi-me mas as verdadeiras palavras que lhe teria dito ficaram guardadas no saco que levou.
Vou receber hate mail por esta
Os parabéns que lhe enviei morreram no vidro que nos separava, ainda que me ouvisse provavelmente não me veria devido ao reflexo, mesmo que me visse e ouvisse não saberia quem sou.
Numb
A partir de certa altura o som da chuva e da guitarra do gajo que toca na entrada do estacionamento da Garrett tornam-se um só.
Ikea
Reencontro um colega do secundário, igual, igual, assustador, a voz o cabelo a roupa o andar, de novo só a filha loirinha ao colo, desenvolveu um excelente gosto literário lá por Estocolmo, onde vive e casou e, ao contrário de muitos de nós que ficaram, é feliz.
12 de março de 2013
Walk the line
"Agora é oficial. Saiu na media. FaceBook acaba de publicar seu preço da adesão, taxa de €5,99; para tornar membro ouro e manter a sua privacidade como está.
Se você colar isto no seu mural estará livre dessa cobrança.
Caso contrário, amanhã suas publicações podem se tornar públicas.
Mesmo aquelas mensagens que você excluiu ou fotos quem não
autorizou. Não custa nada copiar e colar. Pelo sim pelo não"
Este tipo de mensagens deviam ser uma espécie de triagem para quem podia ou não usar facebook. E utilizar ferramentas eléctricas. E andar na rua.
11 de março de 2013
Oh que caralho
Parece que vai mudar tudo outra vez. E que vai ficar um bocado grande grande para trás.
10 de março de 2013
Sabes que a tua namorada é nova (e tem a mania que tem piada...) #2
Quando vai a chegar a minha casa, com uma mochila às costas, e diz "a tua vizinha que está à janela deve estar a pensar que a tua filha está muito crescida".
Sabes que a tua namorada é nova (e tem a mania que tem piada...)
Quando vamos no comboio e ela vê uma mulher a ler a Lux e vê uma foto do Eduardo Beauté e do namorado e diz "olha, parecemos nós, mas em heterossexual".
7 de março de 2013
Internacional A
Novo record de distância e estranheza: dei uma entrevista para uma revista peruana. Sobre o Pessoa.
5 de março de 2013
x10
Há dez anos estava em S. Francisco Xavier e, por entre as mãos da minha ex-sogra que mais frequentemente do que eu gostaria me seguravam pelo colarinho enquanto perguntava selvaticamente "como está a minha filha?!", ia pensando na vida. Não na minha vida em particular, vida que até então tinha sido basicamente um passeio agradável por esta terra, infância e adolescência feliz e rica em coisas que devia ter feito e em coisas que nem por isso, mas que, ainda assim, não deixei de as fazer, mas na vida enquanto milagre biológico. Ia entrando e saindo da sala de parto mais ou menos ao mesmo ritmo que as companheiras de quarto dela iam parindo e partindo para outras salas, mais filho, menos filho, pareciam rotinadas em desovar como se nada fosse. Ia perguntando se ela sentia dores, dizia-me que não. Isto até me ter quase partido a mão com uma contracção. Depois levou a epidural e da próxima vez que a vi estava com a língua de fora a dizer "isto é buéeeeeeeeee fixe", ao que eu troquei dois olhares com a enfermeira e percebi que, enfim, era mais ou menos normal. Numa das vezes em que já tinha saudades de ir aturar a senhora mãe da senhora mãe da minha filha, ao voltar deparo-me com uma cama vazia. Tinha parido assim de um momento para o outro. E eu sem ver nada, sem assistir. Senti-me, na altura, bastante aliviado: eu sabia lá se ia desmaiar ou algo do género. Na sala de espera estavam o meu pai e o meu sogro: não fizeram outra coisa senão irem gozando comigo ao longo do dia (que tinha começado às cinco da manhã numa cama ensanguentada, bonita maneira de acordar). Se eu desfaleço lá num canto qualquer ia ser gozado até à morte. Entretanto lá me chamaram e mostraram-me o bicho através de um vidro. Era cabeluda e mexia muito os braços e as mãos. Parecia que ia abrir os olhos. E eu fiquei ali, sem saber onde pôr as mãos. Sem saber o que dizer. Pior, sem saber o que sentir. Não sei o que senti, ainda hoje. Sei que não era nada do que eu pensava. Eventualmente lá peguei nela, e parece que fiz aquilo a vida toda. Tendo em conta o estado em que a senhora mãe da criança ficou, assumi papel de destaque no tratamento da recém-nascida. E a ligação que se criou nesses primeiros dias manteve-se: por uma ou outra razão, acabei por ser sempre eu a ter um papel mais presente na vida da Catarina. Hoje passaram dez anos, é demasiado para conseguir colocar num só texto. Verdade seja dita, também me custa escrever sem cair em mil e um clichés. Hoje passaram dez anos, quase um terço da minha vida, e sei que já fui melhor pai do que sou hoje. Achava-me tão adulto quando ela nasceu. Tinha vinte e dois anos. Isso prova a irracionalidade da minha pessoa, na altura. Mas, apesar de tudo, dez anos depois, sei que fizemos um bom trabalho.
3 de março de 2013
Mixtape
Há coisas que nos mudam a vida: a mixtape que o meu primo me deu em noventa e três foi uma delas. Não estava cheia, sequer, o lado b só tinha as três primeiras músicas do Chaos AD dos Sepultura. Não me recordo com o que preenchi a cassete. Lembro-me, isso sim, que uns tempos mais tarde um dos meus divertimentos era ligar a tv à aparelhagem e gravar as músicas directamente da MTV por satélite, do Headbanger's Ball e do Alternative Nation. Já o primeiro lado da cassete tinha pilares fundamentais na minha formação musical e, consequentemente, como pessoa. Gostava de me conseguir lembrar de todas as músicas, de certeza que havia uma ou outra banda que entretanto me passou ao lado e que agora iria de certeza apreciar. Mas há umas que não me esqueço: My Way e C'mon Everybody dos Sex Pistols, o Low de R.E.M (estes nunca me deu para ouvir... mas desta gostava), Where is My Mind dos Pixies (antes de o mundo se lembrar que eles existiam por causa do Fight Club), Epic de Faith No More, Youth Against Fascism dos Sonic Youth, Should I Stay or Should I Go dos Clash... O resto das músicas desse lado aparecem na minha cabeça meio inventadas pela minha imaginação: Depeche Mode, quase de certeza, talvez Joy Division, entre outras coisas. Sei que ouvi a cassete até ela se partir toda. Backup era para meninas. Sei que me fartei de emprestar o walkman nos intervalos. Sei que partilhei um dos lados dos headphones em incontáveis viagens de autocarro. Tenho quase a certeza que ele não se deve lembrar disto. Nem do momento em que tirou do armário o Use Your Illusion II e mudou a minha vida, no fundo. Eu não seria quem sou hoje se não tivesse estado sentado no chão, naquela noite, quando ele colocou a agulha no vinil e ouvi pela primeira vez o You Could Be Mine.
Das férias
Mesmo que ela te diga que te viu fechar a porta antes de irem dormir, pelo sim pelo não vai ver se realmente não deixaste a porta de casa escancarada. Só naquela.
Ah, e, já agora, tenta não sair de casa no mesmo dia e deixar a porta de casa aberta. Outra vez.
2 de março de 2013
1 de março de 2013
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