13 de abril de 2013
12 de abril de 2013
South of the river
Como é que se explica que cinco pessoas cheguem aos sítios combinados para serem apanhadas de carro a caminho de Palmela cinco ou dez minutos antes da hora combinada para cada local, que a pessoa que os vai apanha saia também dez minutos antes do tempo previsto e, ainda assim, cheguemos trinta minutos atrasados ao nosso destino?
La banlieu
A chuva, acordo e passeio o adormecido cão e o sol nasce lá bem ao fundo num céu razoavelmente descoberto, sim, são seis da manhã, mas, que raio, hoje vai haver sol, tenho que me animar, arranjo-me na forma automatizada do costume, a máquina de barbear está um nível acima do normal o que faz com que eu me barbeie, de olhos semi-cerrados, durante um ou dois minutos, para depois ver que a barba está tal e qual estava quando acordei, repetimos o processo, afinal de contas, ainda é cedo, entro no banho e são seis e qualquer coisa são sete e tal afinal, parece que o tempo escorre pelo ralo, tudo a despachar a partir daí, saio de casa e respiro fundo quando vejo o chão encharcado, os óculos voltam para o bolso do casaco, diz que vai estar bom tempo este fim-de-semana, que vem aí o verão, mas custa-me verão sem primavera primeiro, e eu já não sei bem como é que se faz no verão, acontecem coisas aqui pelo meio que envolvem pó e livros em armazéns de alturas inenarráveis, tacks e picks, terminamos o dia com a Clarice Lispector, ou era o que queríamos, deixemos o Mexia e a Teolinda Gersão tomarem conta daquilo que temos coisas para fazer na livraria, tentas dar atenção ao Saramago no comboio mas o telefone do trabalho e o telefone pessoal vão tocando, chega a noite e percebemos que há discos e dias que funcionam melhor a dois.
11 de abril de 2013
Rapariga de coragem
A senhora foi jantar a minha casa no âmbito do evento "ver o Benfica na TV porque não tenho sporttv". O melhor momento chegou quando eu a apresento à minha avó e a minha avó diz olá e fica a olhar para ela durante algum tempo e, à nossa frente, vira-se para a minha mãe e diz "eu não sei quem é", e quando a minha mãe a anuncia novamente como minha namorada a reacção dela é "é mentira!", a minha mãe insistiu e ela disse "Não é nada!" por entre os risos incontroláveis de toda a gente.
O que vale é que dava para corrigir na hora
Um belo começo de dia é ires às nove da manhã assinar o teu novo contrato de empréstimo da casa (sim, aquele que te vai manter endividado até aos cento e dez anos) e no nome dos fiadores estar José qualquer coisa Abelhinha e Anabela qualquer coisa Fonseca, gente que, segundo me consigo lembrar, não conheço de lado absolutamente nenhum. A minha mãe riu-se com a piada fácil "ah, eu logo vi que tinha sido adoptado", já o meu pai não achou piada.
Sálvio, deves-me umas pastilhas para a garganta
Acho que estive perto de matar o meu cão de susto com o grito de golo, ficou parado no canto da sala a uivar, meio encolhido. Aguenta Link, que ainda falta muito da época.
10 de abril de 2013
9 de abril de 2013
4 de abril de 2013
2 de abril de 2013
A mil
Não aprecio quando me pedem para ir mais devagar, para fazer as coisas mais lentamente, é assim que funciono, é assim que o meu raciocínio corre, sou rápido a pensar e a agir. A desculpa do "ah, mas assim vais enganar-te" ou "vai-te escapar qualquer coisa" não funciona, temos pena. Erro tanto como quem demora o dobro do tempo. Chateia-me gente que me trava.
1 de abril de 2013
Oi? Moço...
Hoje foram gravar um spot para passar nos voos entre o Brasil e Portugal, a publicitar (entre outros locais de interesse) a livraria vintage very tipical tão antiga mais antiga do mundo e também mais antiga da cidade. É um spot narrado por actores famosos do Brasil e a protagonista é uma fashion blogger brasileira. E o ponto fulcral aqui é que, pelo que pudemos ver da moça, cada país tem as fashion bloggers que merece.
31 de março de 2013
Agora e na hora da nossa morte
Sem ser particularmente fã da frase "de leitura obrigatória", é a única coisa que me vem à cabeça quando penso neste livro. Imenso, intenso, único.
Boy division
Li mais um Bolaño, não há mais para ler, a Quetzal que se despache que ainda há três ou quatro obras por traduzir. Vejam lá isso.
Está morto, Jim
Tenho a Caixa Geral a deliberar sobre a mudança do meu empréstimo desde o dia quatro de dezembro do ano passado. Como só me faltam quinze anos para pagar a casa começo a ficar preocupado.
Leviathan
Quando soube que, afinal de contas, ficava na livraria onde estou, não me senti mais aliviado, a inquietação e desconforto com toda esta situação continuou tal e qual estava. Vou deixar de trabalhar directamente com uma pessoa que me colocou onde estou, que me deu quatro desafios, sempre em crescendo, sempre a passar para lojas maiores e com mais responsabilidades, que acreditou em mim, que, mais vezes do que devia, me safou de merdas que me podiam ter custado muito caro. E isso está a ser difícil de processar.
27 de março de 2013
Everybody wants to change the world but no one wants to die
Uma pessoa vai jantar fora e quando volta o facebook está em histerismo pelo Sócrates.
24 de março de 2013
21 de março de 2013
Poetas da casa
6.
Leste os poemas fora do prazo
muito menos sóbrio do que parecias
e pensaste que também os versos
podiam coser-se ao pescoço.
O mesmo cordel que te prendia,
a mão aberta sobre o valante,
afundou-te o pé inútil -
travavas um carro plano, desligado -
e puxou-te do estômago
uma vaga confissão.
eco surdo das horas antigas,
avulsas, longas, gratas, iguais.
Margarida Ferra
Leste os poemas fora do prazo
muito menos sóbrio do que parecias
e pensaste que também os versos
podiam coser-se ao pescoço.
O mesmo cordel que te prendia,
a mão aberta sobre o valante,
afundou-te o pé inútil -
travavas um carro plano, desligado -
e puxou-te do estômago
uma vaga confissão.
eco surdo das horas antigas,
avulsas, longas, gratas, iguais.
Margarida Ferra
A partir daqui é sempre a descer
Fui entrevistado hoje pela Serenella Andrade. A partir daqui só o Eládio Clímaco ou não dou mais entrevistas.
Orla Marítima
O tempo das suaves raparigas
é junto ao mar ao longo da avenida
ao sol dos solitários dias de dezembro
Tudo ali pára como nas fotografias
É a tarde de agosto o rio a música o teu rosto
alegre e jovem hoje ainda quando tudo ia mudar
És tu surges de branco pela rua antigamente
noite iluminada de noite de nuvens ó melhor mulher
(E nos alpes o cansado humanista canta alegremente)
«Mudança possui tudo»? Nada muda
nem sequer o cultor dos sistemáticos cuidados
levanta a dobra da tragédia nestas brancas horas
Deus anda à beira de água calça arregaçada
como um homem se deita como um homem se levanta
Somos crianças feitas para grandes férias
pássaros pedradas de calor
atiradas ao frio em redor
pássaros compêndios de vida
e morte resumida agasalhada em asas
Ali fica o retrato destes dias
gestos e pensamentos tudo fixo
Manhã dos outros não nossa manhã
pagão solar de uma alegria calma
De terra vem a água e da água a alma
o tempo é a maré que leva e traz
o mar às praias onde eternamente somos
Sabemos agora em que medida merecemos a vida
Ruy Belo
Catarina
Teve 4 a matemática, português e estudo do meio, 5 a expressão plástica e música. Aparentemente não teve 5 a português porque tudo indica que não se deu ao trabalho de ler o texto de interpretação e respondeu à vontade dela. E está proibida de participar no teatro enquanto não melhorar o comportamento na sala de aula e fechar aquela matraca imparável de uma vez por todas, a professora não percebe como é que ela sequer tem tanto assunto para falar e com tão variados colegas.
Sabes que és distraído
Quando apenas cinco meses depois de namorarem é que reparas que os vossos blogs tem ambos nomes de músicas de Arctic Monkeys.
18 de março de 2013
Velho do restelo
Passei a adolescência num bairro a cerca de um quilómetro do centro de Cascais. É um bairro praticamente fechado, na altura quase não tinha trânsito. O estacionamento vazava a partir das oito da manhã e só voltava a encher por volta das oito da noite. Até lá, era tudo o nosso campo de futebol. O passeio grande no centro, como se fosse uma rotunda disforme, era o nosso campo de futebol. Hoje, ao ir a casa da minha mãe para ficar lá com a Catarina, deparei-me com o facto de não conseguir arranjar um lugar, com carros parados em segunda fila. A uma segunda à tarde. O parque automóvel cresceu assim tanto em quinze anos, vinte anos? Está tudo desempregado? O que eu sei é que, nas férias da Páscoa de 1995 estariam, por esta hora, vinte ou trinta miúdos na rua. Agora? Zero.
License to ill
Não me recordo da última vez que tinha ido com a Catarina ao médico. Acordei hoje de "manhã", vamos ignorar as horas para não chocar as pessoas, ela deixou-me dormir e estava sossegada no sofá a ver televisão, como se nada fosse, como se estivesse óptima. Estava com um febrão. Desde pequena que ela raramente demonstra sintomas de doença. Ou bem que o corpo dela se manifesta inequivocamente ou a cena de ela ficar murcha e dormir muito ou pouco ou queixar-se de dores é mentira. É a amigdalite do costume, vai passar metade das férias por casa. Já estou a passar filmes para o tablet para ela ver quando ficar o dia todo em casa da mãe. Isto de ficar doente agora é outra coisa.
16 de março de 2013
Tem dias
Isto é enorme, as palavras iam caindo ao ritmo da boina, coçada e descolorada, a caminho de ser pousada no balcão, um último olhar para trás a perder-se no corredor, uma incredulidade quase pueril, a mão, de dedos grossos e rudes, é levada à cabeça para a coçar, e eu que vivo há cinquenta anos em Lisboa e nunca aqui entrei, bem, passei à porta, mas entrar, não senhor, nunca entrei, voltou a olhar para o livro de apoio escolar que levava para o neto, o raio dos professores é só pedir, só pedir, eu concordei e acrescentei que era a primeira vez mas que agora voltaria mais vezes, ele foi deixando cair umas notas no balcão, amarrotadas, saídas de um dos bolsos das calças, à procura da mais baixa, da certa, e disse agora já é tarde, já não há muito tempo, deu-me a nota, fechei a venda e despedi-me mas as verdadeiras palavras que lhe teria dito ficaram guardadas no saco que levou.
Vou receber hate mail por esta
Os parabéns que lhe enviei morreram no vidro que nos separava, ainda que me ouvisse provavelmente não me veria devido ao reflexo, mesmo que me visse e ouvisse não saberia quem sou.
Numb
A partir de certa altura o som da chuva e da guitarra do gajo que toca na entrada do estacionamento da Garrett tornam-se um só.
Ikea
Reencontro um colega do secundário, igual, igual, assustador, a voz o cabelo a roupa o andar, de novo só a filha loirinha ao colo, desenvolveu um excelente gosto literário lá por Estocolmo, onde vive e casou e, ao contrário de muitos de nós que ficaram, é feliz.
12 de março de 2013
Walk the line
"Agora é oficial. Saiu na media. FaceBook acaba de publicar seu preço da adesão, taxa de €5,99; para tornar membro ouro e manter a sua privacidade como está.
Se você colar isto no seu mural estará livre dessa cobrança.
Caso contrário, amanhã suas publicações podem se tornar públicas.
Mesmo aquelas mensagens que você excluiu ou fotos quem não
autorizou. Não custa nada copiar e colar. Pelo sim pelo não"
Este tipo de mensagens deviam ser uma espécie de triagem para quem podia ou não usar facebook. E utilizar ferramentas eléctricas. E andar na rua.
11 de março de 2013
Oh que caralho
Parece que vai mudar tudo outra vez. E que vai ficar um bocado grande grande para trás.
10 de março de 2013
Sabes que a tua namorada é nova (e tem a mania que tem piada...) #2
Quando vai a chegar a minha casa, com uma mochila às costas, e diz "a tua vizinha que está à janela deve estar a pensar que a tua filha está muito crescida".
Sabes que a tua namorada é nova (e tem a mania que tem piada...)
Quando vamos no comboio e ela vê uma mulher a ler a Lux e vê uma foto do Eduardo Beauté e do namorado e diz "olha, parecemos nós, mas em heterossexual".
7 de março de 2013
Internacional A
Novo record de distância e estranheza: dei uma entrevista para uma revista peruana. Sobre o Pessoa.
5 de março de 2013
x10
Há dez anos estava em S. Francisco Xavier e, por entre as mãos da minha ex-sogra que mais frequentemente do que eu gostaria me seguravam pelo colarinho enquanto perguntava selvaticamente "como está a minha filha?!", ia pensando na vida. Não na minha vida em particular, vida que até então tinha sido basicamente um passeio agradável por esta terra, infância e adolescência feliz e rica em coisas que devia ter feito e em coisas que nem por isso, mas que, ainda assim, não deixei de as fazer, mas na vida enquanto milagre biológico. Ia entrando e saindo da sala de parto mais ou menos ao mesmo ritmo que as companheiras de quarto dela iam parindo e partindo para outras salas, mais filho, menos filho, pareciam rotinadas em desovar como se nada fosse. Ia perguntando se ela sentia dores, dizia-me que não. Isto até me ter quase partido a mão com uma contracção. Depois levou a epidural e da próxima vez que a vi estava com a língua de fora a dizer "isto é buéeeeeeeeee fixe", ao que eu troquei dois olhares com a enfermeira e percebi que, enfim, era mais ou menos normal. Numa das vezes em que já tinha saudades de ir aturar a senhora mãe da senhora mãe da minha filha, ao voltar deparo-me com uma cama vazia. Tinha parido assim de um momento para o outro. E eu sem ver nada, sem assistir. Senti-me, na altura, bastante aliviado: eu sabia lá se ia desmaiar ou algo do género. Na sala de espera estavam o meu pai e o meu sogro: não fizeram outra coisa senão irem gozando comigo ao longo do dia (que tinha começado às cinco da manhã numa cama ensanguentada, bonita maneira de acordar). Se eu desfaleço lá num canto qualquer ia ser gozado até à morte. Entretanto lá me chamaram e mostraram-me o bicho através de um vidro. Era cabeluda e mexia muito os braços e as mãos. Parecia que ia abrir os olhos. E eu fiquei ali, sem saber onde pôr as mãos. Sem saber o que dizer. Pior, sem saber o que sentir. Não sei o que senti, ainda hoje. Sei que não era nada do que eu pensava. Eventualmente lá peguei nela, e parece que fiz aquilo a vida toda. Tendo em conta o estado em que a senhora mãe da criança ficou, assumi papel de destaque no tratamento da recém-nascida. E a ligação que se criou nesses primeiros dias manteve-se: por uma ou outra razão, acabei por ser sempre eu a ter um papel mais presente na vida da Catarina. Hoje passaram dez anos, é demasiado para conseguir colocar num só texto. Verdade seja dita, também me custa escrever sem cair em mil e um clichés. Hoje passaram dez anos, quase um terço da minha vida, e sei que já fui melhor pai do que sou hoje. Achava-me tão adulto quando ela nasceu. Tinha vinte e dois anos. Isso prova a irracionalidade da minha pessoa, na altura. Mas, apesar de tudo, dez anos depois, sei que fizemos um bom trabalho.
3 de março de 2013
Mixtape
Há coisas que nos mudam a vida: a mixtape que o meu primo me deu em noventa e três foi uma delas. Não estava cheia, sequer, o lado b só tinha as três primeiras músicas do Chaos AD dos Sepultura. Não me recordo com o que preenchi a cassete. Lembro-me, isso sim, que uns tempos mais tarde um dos meus divertimentos era ligar a tv à aparelhagem e gravar as músicas directamente da MTV por satélite, do Headbanger's Ball e do Alternative Nation. Já o primeiro lado da cassete tinha pilares fundamentais na minha formação musical e, consequentemente, como pessoa. Gostava de me conseguir lembrar de todas as músicas, de certeza que havia uma ou outra banda que entretanto me passou ao lado e que agora iria de certeza apreciar. Mas há umas que não me esqueço: My Way e C'mon Everybody dos Sex Pistols, o Low de R.E.M (estes nunca me deu para ouvir... mas desta gostava), Where is My Mind dos Pixies (antes de o mundo se lembrar que eles existiam por causa do Fight Club), Epic de Faith No More, Youth Against Fascism dos Sonic Youth, Should I Stay or Should I Go dos Clash... O resto das músicas desse lado aparecem na minha cabeça meio inventadas pela minha imaginação: Depeche Mode, quase de certeza, talvez Joy Division, entre outras coisas. Sei que ouvi a cassete até ela se partir toda. Backup era para meninas. Sei que me fartei de emprestar o walkman nos intervalos. Sei que partilhei um dos lados dos headphones em incontáveis viagens de autocarro. Tenho quase a certeza que ele não se deve lembrar disto. Nem do momento em que tirou do armário o Use Your Illusion II e mudou a minha vida, no fundo. Eu não seria quem sou hoje se não tivesse estado sentado no chão, naquela noite, quando ele colocou a agulha no vinil e ouvi pela primeira vez o You Could Be Mine.
Das férias
Mesmo que ela te diga que te viu fechar a porta antes de irem dormir, pelo sim pelo não vai ver se realmente não deixaste a porta de casa escancarada. Só naquela.
Ah, e, já agora, tenta não sair de casa no mesmo dia e deixar a porta de casa aberta. Outra vez.
2 de março de 2013
1 de março de 2013
26 de fevereiro de 2013
Cormac McCarthy
A Travessia. Até agora, pese os momentos de partir o coração (aqueles olhos cor de amêndoa da loba...), está a ser muito bom.
25 de fevereiro de 2013
Refuse / Resist
O corcunda que toca o sino na igreja dos Mártires está em grande hoje, há momentos em que eu acho que ele está a tentar tocar Sepultura. Depois há outros em que é tipo sino-em-aldeia-devastada-por-epidemia-mutante-no-meio-do-nevoeiro-e-não-está-ninguém-à-volta-e-tu-sabes-que-vai-saltar-um-gajo-com-uma-serra-eléctrica-do-nada-para-te-cortar-a-cabeça.
24 de fevereiro de 2013
Catarina
O quarto dela está aparentemente arrumado. Abro o armário e aquilo parece Nárnia, com animais e tudo (de peluche, mas ainda assim animais).
23 de fevereiro de 2013
Eu nunca guardei rebanhos / mas é como se os guardasse / já as algemas tenho guardadas / e uso quando lhe quero dar umas palmadas
Entram três escuteiras a arfar na livraria e param no balcão, atropelando-se umas às outras a falar:
- Pode dizer-nos os heterónimos do Fernando Pessoa? Sabe? Sabe?
- Sim, alguns, ele tem muitos, até há uns que...
- Pode dizer, senhor, alguns? Os mais conhecidos!
- Hm, Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Ricardo Reis...
- Ai, Ai, não parece nenhum desses!
- Bernardo Soares?
- Não, não, qual foi o primeiro que disse? Qualquer coisa Grey?
- ...
Depois desta conversa isto já fez todo o sentido:
A juventude só sabe reagir à adversidade invocando o demónio
- Por favooooor, diga-me que tem o livro do Angélico! Por favor!
- Desculpe, mas já não temos há algum tempo...
- Oh satanás!
- ...
21 de fevereiro de 2013
Hoje fizemos as pazes
Foi no Piper's, com quase oito anos, que vi o Benfica perder a final da liga dos campeões, taça dos campeões europeus na altura, e esse momento viveu em mim durante muito tempo. O bar era local de eleição do meu pai, amigo dos donos há muitos anos, e fui lá toda a minha vida. Durante alguns anos poucas vezes lá fui. E, acima de tudo, nem pensar ver lá o meu glorioso SLB para as competições europeias. Lembro-me claramente de não querer ir com o meu pai ver a final contra o Milão, em noventa, porque ainda estava marcado da última. Vi em casa sozinho. Também não ganhámos. Hoje voltámos a ver lá o jogo, passaram-se quase vinte e cinco anos, não jantava com o meu pai desde o natal. E muito mais que isso, hoje fui eu que apanhei o meu pai no trabalho, fui eu que falei mais de reuniões e budgets e forecasts e coisas assim, a brincar aos adultos, quando, no fundo, eu era o miúdo de oito anos outra vez porque ia ver o jogo com o meu pai, naquele sítio especial. E fomos, e ganhámos. Hoje fiz as pazes com o piper's, penso que fiz as pazes com uma parte de mim.
20 de fevereiro de 2013
"Talvez esta seja uma história de monstros"
"Talvez seja possível amar uma mulher por causa de um livro, de um poema sublinhado, de um filme a preto e branco", durante a leitura deste livro senti-me sempre assaltado por uma sensação difícil de explicar: há uma sensibilidade na escrita dela que eu tenho dificuldade em compreender, por ser algo tão feminino, mas é algo que me fascina, e a morte, a morte é mais bela na mão de uma mulher, mais digna, até, tal como todas as traições que passam quase despercebidas nesta Londres a cair pelo outono dentro, "if we do meet again, we'll smile indeed", se nos encontrarmos de novo, parece que vai ter que ser.
19 de fevereiro de 2013
Era mesmo isto
Chego a casa, e, ao abrir a porta, tenho um cão louco a tentar sair ao mesmo tempo que estou a entrar. Passam-se um ou dois segundos em que fico estupefacto, de chave na mão, a olhar para a cancela caída no chão, basicamente em negação com o que estava a ver enquanto o cão corria contra as minhas permas a tentar sair. Quando fechei a porta encontrei o caos: pá e vassoura em cima do sofá (lá estão as "indirectas" do cão), boxers pela sala, lençóis do quarto revirados, meias no corredor, um resto de Milka Oreo comido, cortina da sala toda levantada, e, o momento mais bizarro, o Link levou apenas um sapato de cada par, cinco sapatos no total, espalhados pela sala, corredor e em cima da minha cama. Aguardo ansiosamente pelo dia em que chego a casa e o cão está com uma garrafa de whisky ao lado, inconsciente no sofá, com a televisão na Benficatv.
18 de fevereiro de 2013
Astro zombies
A minha irmã diz que eu tenho que apresentar a namorada à família, a outra irmã diz que devia ser uma coisa formal, a primeira irmã sugere que vamos a um club de strip que ela sempre quis ir (??), a Catarina diz que já a viu muitas vezes e a minha mãe ficou num silêncio aterrador, eu acho que ela anda há algum tempo em negação, ainda não percebi se pensa que eu tenho uma namorada imaginária ou se tem algum receio que eu não percebo.
17 de fevereiro de 2013
“It is tragic and sad and chaotic and lovely"
Terminado. Falar desta experiência de leitura é muito complicado, há momentos de puro génio, há passagens em que a leitura é quase dolorosa, há períodos em que não percebemos bem o que se está a passar. Nem nunca iremos perceber. Centenas de personagens, de vidas, múltiplos enredos que eventualmente (ou não) se tocam em algum ponto, e, no entanto, fecho o livro pela última vez com a desoladora sensação de que ficou tudo por dizer. Isto deriva da nossa obsessão pelo fim das coisas. Foster Wallace abre uma janela para um mundo, fascinante, complexo, aterrador, violento, e depois fecha-a na nossa cara e manda-nos à nossa vida. E nós, ainda assim, agradecemos.
Eu não consegui derivado a motivos
Ela consegue abrir a bracelete do relógio novo e diz "sou tão engenheira". É para isto que servem cinco anos do Técnico.
Kinda I want to
Até que ponto devemos separar o homem do cargo que exerce? Ou até que ponto nós passamos a ser aquilo que fazemos? E deveria haver uma só medida ou deveria ser algo visto caso a caso? Por exemplo: o FJV disse aquilo e ficou tudo muito chocado porque ele foi secretário de estado (e, no campo profissional, porque é editor da Quetzal). A questão é que ele não disse aquilo nem como uma coisa nem como outra. Escreveu no seu blog. Pessoal. Acredito que nas nove ou dez horas que estou na livraria sou Ricardo, o gerente, e tudo o que faço poderá ser usado contra mim em termos profissionais. Fora disso? É da minha conta. Apenas e só. Quando falo aqui, falo como Ricardo. O gerente de uma livraria não pode dizer certas merdas. Eu posso. O mesmo se aplica a outras pessoas e profissões. Mas e em cargos políticos relevantes? Aplica-se a mesma coisa? Seja como for, deixem o Viegas em paz, leave Britney alone, e amem-se uns aos outros, ah, e tomem no cu, se isso for o que mais vos aprouver.
As pessoas um dia vão perceber
Estão a ver aqueles papelinhos que saem dos POS dos estabelecimentos comerciais, daquelas máquinas novas e bonitas certificadas pelo pai, filho e espírito santo das finanças?, pronto, esses papelinhos são, quer queiram ou não, facturas, e podem ou não, conforme assim o desejem, ter os vossos dados, por isso é que sim, eu quero factura, e não, não vou dar o meu nome nem contribuinte, e sim, eu dou sempre aos meus clientes uma factura, nunca pergunto se querem uma, levam e mais nada, apenas pergunto se querem lá colocar os dados deles.
16 de fevereiro de 2013
Medo
- Esta boneca sou eu.
- Ah...
- E tem um namorado.
- Hm...
- Chama-se Gonçalo. (nome do rapaz por quem ela tinha uma paixoneta o ano passado, filho da catequista dela, o tal que tocava guitarra e bebia coca-cola...)
- Hm...
- E tem abdominais!
- ...
15 de fevereiro de 2013
Pedido maravilha do dia dos namorados
"Tem o segundo e o terceiro volume das Cinquenta Sombras de Grey? A minha mulher teve dois dias sem me falar agarrada ao livro. Assim são mais quatro!"
É tipo raio na basílica mas em versão financeira
Andava a gozar com as finanças, hoje fui alvo de uma inspecção das finanças, comprovando que, lá está, Deus e o Vítor Gaspar não dormem.
13 de fevereiro de 2013
Posso adicionar ao meu CV "inspector das finanças?"
Pimba.
Já me estou a ver a denunciar comerciantes por não me passarem fatura e a denunciar consumidores que não me pedirem fatura, podem começar doravante a tratar-me por shôr inspector, obrigado.
12 de fevereiro de 2013
Já tinha saudades
De ficar fechado sem chaves fora de casa quando vou passear o Link, desta vez foi sem o telemóvel pessoal, apenas com o do trabalho, e com a chave do carro, a minha primeira ideia, e concordam comigo que será a mais normal, foi levar o carro para a entrada das garagens, subir para o tejadilho e entrar pela janela aberta da cozinha, a parte do tejadilho foi fácil, a grade da janela, é uma janela que vai do tecto ao chão, com uma grade verde, é que não parecia muito sólida, portanto não me pareceu que fosse boa ideia apoiar todo o meu peso na grade, então o que é que eu fiz?, tentei, mas devagarinho, não resultou, desci airosamente, que é como quem diz ficando todo molhado porque o carro estava molhado da chuva que caía, e tive de engolir o orgulho e ligar à minha mãe para ligar à Catarina para pedir à Catarina que pedisse à mãe as chaves suplentes que ainda tinha para eu ir lá buscá-las, realmente já tinha saudades de ficar trancado na rua, já me aconteceu diversas vezes, sempre com items diferentes: uma vez fiquei sem chaves do carro e telemóveis, apenas eu e o cão, consegui que a Catarina entrasse pela janela da sala, da outra vez tinha apenas as chaves do carro, tinha deixado a janela do quarto só com os estores para baixo, também foi relativamente fácil, para a próxima vou tentar ficar fechado fora de casa sem chaves, telemóveis, vendado, com um fósforo e uma lata de laca para o cabelo, para tornar as coisas mais difíceis.
The one ring
Depois de ter feito a milésima piada sobre Mordor / Senhor dos Anéis:
- Pai, podias por essas piadas no teu blog, tem muito mais piada do que as coisas de seca que tu lá pões.
- É? E se eu pusesse esta conversa?
- Ainda assim tinha mais piada do que o resto.
- ...
11 de fevereiro de 2013
Tatooine
Acho piada ao facto de ela fazer-nos ficar como Leia e Darth Vader, pai e filha, para dar um toque de realismo à coisa, o raio da miúda é esperta a jogar isto, e não vai cá em subornos do tipo "Mos Eisley por um gelado", não que eu tenha tentado, é uma coisa que eu sei por ser pai dela.
10 de fevereiro de 2013
Sabem que sou mais benfiquista do que o próximo...
Mas isto é assustador. "Vem dormir no ninho da Águia, enquanto dormes o Jorge Jesus vai olhar para ti assim meio às escondidas, qual pervertido, e sabe-se lá o que ele terá vestido ali por trás."
Rocket man
"Sir Elton John To Guest On New Queens Of The Stone Age Album."
Linda Martini, o José Cid está à vossa espera.
Linda Martini, o José Cid está à vossa espera.
8 de fevereiro de 2013
Prémio Bruno Alves
(uma cliente pede-me para procurar um livro e vem atrás de mim enquanto me dirijo para a secção)
- por sua causa, anda tão depressa por aqui, fui abalroando toda a gente com quem me cruzei!
- por sua causa, anda tão depressa por aqui, fui abalroando toda a gente com quem me cruzei!
Prémio Ui isso é muita longe, segue, segue, segue
(ao telefone)
- É que eu moro em Cascais que, como sabe, fica a quarenta e cinco quilómetros de Lisboa.
- ... (deve ser Cascais do Ribatejo)
- Tem algum catálogo em papel com todos os livros que vendem? (tipo páginas amarelas mas em infinito)
- Infelizmente não, repare, saem dezenas e dezenas de livros semanalmente e...
- Ah, pois, pois, então e se imprimirem umas das vossas listas informáticas digitais?
- ...
- É que eu moro em Cascais que, como sabe, fica a quarenta e cinco quilómetros de Lisboa.
- ... (deve ser Cascais do Ribatejo)
- Tem algum catálogo em papel com todos os livros que vendem? (tipo páginas amarelas mas em infinito)
- Infelizmente não, repare, saem dezenas e dezenas de livros semanalmente e...
- Ah, pois, pois, então e se imprimirem umas das vossas listas informáticas digitais?
- ...
Prémio Acordei do coma e não sei onde estou
(puxam-me o braço)
- trabalha aqui?
- ... Sim (o colete LARANJA FLUORESCENTE deve ser um acessório da moda, por estes dias, facilmente visto pelos mais variados recantos desta Paris portuguesa que é a baixa lisboeta)
- vende mochilas?
- ... não.
- mas isto não é uma papelaria?
_ ...
- trabalha aqui?
- ... Sim (o colete LARANJA FLUORESCENTE deve ser um acessório da moda, por estes dias, facilmente visto pelos mais variados recantos desta Paris portuguesa que é a baixa lisboeta)
- vende mochilas?
- ... não.
- mas isto não é uma papelaria?
_ ...
Imagem perfeita
Ao passar junto ao segundo descarrilamento tive pena de não ter conseguido tirar uma foto, é que no segundo descarrilamento os mirones dos condutores já não desaceleravam, é que até ao primeiro foram quarenta minutos, quarenta minutos para fazer uns cinco quilómetros, curioso como mal passo o primeiro descarrilamento o trânsito flui harmoniosamente, estavam à espera de ver sangue e mutilações não é, cabrõezinhos?, uma pessoa a querer ir trabalhar e a ter de ficar ali, na Marginal, ao sol, a ver o rio e a ler, realmente isto não é vida para ninguém, adiante, a imagem que vi junto ao segundo descarrilamento, em Algés, era representativa de tanta coisa neste país, a metáfora perfeita: três homens, barrigudos, de coletes amarelos ou laranjas, de capacete branco na mão, a coçarem a cabeça, enquanto olhavam, circunspectos para o carril poucos metros à frente do comboio descarrilado.
Assim se vê o quanto gostam de ti
Há notícia de dois descarrilamentos, no sentido e à hora a que costumo andar na linha de Cascais, por acaso perdi um dels por um minuto ou dois, e só a minha mãe ligou a perguntar se estava bem, claro que eu respondi a gritar aaah, o meu braço!, fratura exposta!, ela não ligou nenhuma, ainda me chamou parvo, enfim, ok, tudo bem que não houve feridos, mas eu sou um gajo sensível a estas coisas, é uma maçada chegar atrasado, eu já estava enconstadinho a ler o meu livro, e é sempre bonito aquele momento em que tu percebes que alguém está a falar no sistema de som da estação e vês toda a gente a olhar para os lados, para os relógios, a olharem umas para as outras, mas com a música alta não consegues ouvir, então assim que tiras os fones já a pessoa se calou, e ficas ali, sem perceber o que passa, tentando agora ouvir a conversa entre os vários passageiros que, e ninguém me tira isto da ideia, viajam todos os dias com a vã esperança de, fruto de um acontecimento qualquer, quanto mais paranormal melhor, poder travar conversa com o passageiro do lado, hoje era vê-los em mini assembleias a queixarem-se da situação, realmente, já nao bastava as greves, até os comboios não colaboram com as pessoas que querem ir fazer as suas vidas para outros lados.
7 de fevereiro de 2013
Temos um novo artista de rua
Um velhote com um turbante e um único prato de bateria, com um cão enrolado numa manta sentado num cesto de uma velha bicicleta, a cantar algo certamente religioso através de um megafone azul, batendo no prato quando termina uma frase, uma ou duas vezes, mal se percebe o que ele diz, eu queixo-me dos meus vizinhos de rua mas as meninas da Benetton devem sofrer mais.
Depois de meses a receber missivas
... A propagar a palavra de Jesus, os gajos de uma igreja dos Estados Unidos mandaram-me isto:
Se o negócio dos livros correr mal encontrar-me-ão na baixa a espalhar a palavra do nosso senhor Jesus o Cristo.
É tão mau que chega a ser bom, mas depois uma pessoa em lendo torna-se mau outra vez porque é, na realidade, mesmo mau, e é isto que temos por cá, obrigado e voltem sempre
F. C. Porto não pode ser eliminado porque "71 horas e 45 minutos são 72 horas". Daqui.
You fail me
Hoje entrou uma livreira pelo meu escritório dentro a dizer que estavam lá fora uns senhores que pediam encarecidamente que fosse lá porque queriam muito sensibilizar-me, medo.
6 de fevereiro de 2013
A Catarina
Teve satisfaz bem às três disciplinas principais e excelente a expressão plástica, parece que está a recuperar o juízo.
Nunca me canso
Dos autores que vão anonimamente à procura dos seus livros, há os que o fazem por curiosidade, outros por vaidade, outros para tentar perceber porque os livros não vendem, mas os mais curiosos são os que até são relativamente conhecidos (jornalistas, por exemplo) que o fazem anonimamente, esta gente nunca ouviu falar do google, estão eles a perguntar-me pelo livro já estou eu a ver a cara deles no ecrã.
5 de fevereiro de 2013
Presencialmente ainda foi pior
Eu sei que as pessoas têm dias maus, acontece com todos, afinal de contas, eu próprio, na avaliação do cliente mistério, fui considerado demasiado fechado, mas o atendimento na loja dos discos ainda consegue ser pior do que por mail, acho piada as pessoas queixarem-se de que o negócio vai mal e depois deixam os clientes com pouca ou nenhuma vontade de lá voltar, ainda por cima com clientes que querem lá deixar dinheiro.
3 de fevereiro de 2013
O Link
Anda obcecado em pegar na pá e na vassoura e vir deixá-las aos meus pés, é claramente uma mensagem pouco subliminar.
I'm so intelectual
Segundo o goodreads estou a ler as duas versões do Piada Infinita, a inglesa vai a ganhar, pelos vistos.
Exacto
Vê-se logo que isto são frases do Jorge Jesus: "O mundo mudou no que à globalização do direito ao mercado de trabalho diz respeito."
Catarina
Parece-me que já teve a sua fase pirosa entre os seis e os sete, hoje a vestir-se apenas queria saber das túnicas novas que a mãe comprou e se as "jeggings" (?) ficavam bem com os all-star.
1 de fevereiro de 2013
Qual papel?
Já sabem que adoro a CP e as suas intermináveis greves e os seus exageradamente caros passes, agora fiquei a adorá-los ainda mais: o meu passe, fruto da sua boa qualidade de fabrico, estava meio partido, que é como quem diz com o chip praticamente a saltar (Pipoca, estou contigo) e eu, fruto disso, era aquele gajo que faz sempre com que as filas para passar nas cancelas se prolonguem até ao fim da paciência das pessoas, provocando ataques de tosse e crises de pigarreação pontuadas por bufos ocasionais, eu era esse gajo por estes dias, até que me fartei e comecei a deixar toda a gente passar, fingindo-me distraído, lendo até ao fim do capítulo ou trocando a playlist no ipod, estive até para criar uma playlist chamada "enquanto esperas que as cancelas fiquem vazias", podia ter o Please Please Please dos Smiths, banda sonora mais que apropriada para a situação, a situação tornou-se de tal forma insustentável, aquilo já nem com um jeitinho lá ia, que me vi obrigado a pedir uma segunda via do passe, ora, tendo eu pago o mesmo até dia seis de fevereiro, tinha direito a que me dessem um título de transporte para esse período, e aqui começa algo que seria, num cenário ideal, ou num país normal vá, um pedido de resolução fácil e rápida, mas é, na realidade, uma proto-aventura da vida moderna: na primeira estação a que me dirijo, dizem-me que no Cais-do-Sodré fazem isso, no Cais-do-Sodre dizem que sim, mas só com o talão de pedido da segunda via, eu peço na minha estação de origem o papel, e, chegado ao Cais-do-Sodré vou lá com o papel para mostrar que ok, tudo bem, vou prencher os papéis e pedir a segunda via mas a senhora é irredutível: tenho que pagar primeiro a emissão da segunda via, e as minhas promessas de que iria entregar a mesma no dia seguinte, visto não poder perder mais tempo nesse dia e da merda do passe não funcionar e eu ter que ir para casa e ir trabalhar, não serviram de nada, então, passando por acaso em Belém, e vendo que o senhor da bilheteira estava lá abandonado e a precisar de companhia, decidi entregar logo ali o papel, quão enganado estava eu, que terna ingenuidade, "ah, não, isso é melhor ser no Cais-do-Sodré, isto aqui demora muito tempo, são dez dias, no mínimo, vá por mim, Cais-do-Sodré", sem comentários, segui o seu conselho e fui entregar no Cais-do-Sodré, mas claro que não posso entregar o papel e receber o bilhete temporário no mesmo sítio, que imaginação fértil que eu tenho para pensar que podia fazer tudo no mesmo sítio, não, claro que não, tenho de ir a um sítio entregar o papel e voltar à senhora mal encarada para pedir o tal bilhete, senhora essa que se gabava do filho ser excepcionalmente educado: não pedia um copo de água num café sem dizer por favor e obrigado, ena pá, pensei eu, esse miúdo é extraordinário, que educação, por favor alguém o torne um diplomata porque, com tamanha cordialidade, consigará certamente terminar com o conflito israelo-palestino, enfim, o importante agora é que já tenho o bilhete que me permitirá ser mais um a fazer com que a vida dos utentes flua, que é para isso que a gente cá anda.
O trabalho que de trabalho tem, às vezes, muito pouco
Disseram que havia uma pessoa para falar comigo, lá fui até à entrada, eu até tenho medo quando me chamam à sala um, desta vez não era nada dramático: uma senhora em quem eu já tinha reparado, o cabelo roxo e preto a combinar com as roupas e os piercings facilmente a distinguiam dos restantes clientes, dirigiu-se a mim num inglês com um indisfarçável sotaque nórdico: era autora de um livro, bastante premiado por sinal, e estava muito feliz de o ver na livraria, pediu-me então que a deixasse autografrar o livro para que o cliente que o comprasse tivesse uma surpresa, "greetings and love, Lisbon 2013" escreveu ela, toda sorrisos, e fiquei a pensar que são momentos como este que dão sentido a certos dias, já ao sair, novamente em inglês, um colega a indicar que eu seria a pessoa ideal a quem dirigir tão amarga queixa, um russo, com ar endinheirado, de guia russo de viagens na mão, a dizer-me que estava lá escrito que nós éramos efectivamente aquilo que somos e nos distingue dos demais mas que, para seu espanto, não tínhamos um postal, uma brochura, um livro ou seja o que for que mencione esse facto, não temos nada que conte a nossa história, eu apenas pude concordar, explicar-lhe que é uma batalha há muito travada, sem qualquer sucesso, "you break my heart", disse ele, assim mesmo "you break my heart", isto dos livros é uma doença do coração.
Obviamente que não o cumprimentei
O Poeta-pintor entra pela livraria dentro, estica a mão para me cumprimentar e exclama, para espanto de todos, "está um briol do caraças, tenho os mamilos todos doridos!", enquanto recua a mão com que me ia cumprimentar e mete a mão dentro da camisa, tocando no peito.
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