31 de março de 2013

Está morto, Jim

Tenho a Caixa Geral a deliberar sobre a mudança do meu empréstimo desde o dia quatro de dezembro do ano passado. Como só me faltam quinze anos para pagar a casa começo a ficar preocupado.

Leviathan

Quando soube que, afinal de contas, ficava na livraria onde estou, não me senti mais aliviado, a inquietação e desconforto com toda esta situação continuou tal e qual estava. Vou deixar de trabalhar directamente com uma pessoa que me colocou onde estou, que me deu quatro desafios, sempre em crescendo, sempre a passar para lojas maiores e com mais responsabilidades, que acreditou em mim, que, mais vezes do que devia, me safou de merdas que me podiam ter custado muito caro. E isso está a ser difícil de processar. 

27 de março de 2013

Everybody wants to change the world but no one wants to die

Uma pessoa vai jantar fora e quando volta o facebook está em histerismo pelo Sócrates.

24 de março de 2013

Coisas que me aterram na secretária


O mais antigo é de 1907. Qualquer dia sou eu que levo um carregamento destes para casa.

As maravilhas que se encontram em cantos escuros de arrecadações esquecidas em casa da mãe e que se trazem desavergonhadamente para casa


Ou não passasse eu largas horas numa sala com o nome deste senhor.


21 de março de 2013

Poetas da casa

6.

Leste os poemas fora do prazo
muito menos sóbrio do que parecias
e pensaste que também os versos
podiam coser-se ao pescoço.

O mesmo cordel que te prendia,
a mão aberta sobre o valante,
afundou-te o pé inútil -
travavas um carro plano, desligado -
e puxou-te do estômago
uma vaga confissão.
eco surdo das horas antigas,
avulsas, longas, gratas, iguais.

Margarida Ferra

A partir daqui é sempre a descer


Fui entrevistado hoje pela Serenella Andrade. A partir daqui só o Eládio Clímaco ou não dou mais entrevistas.

Por estes dias, é tudo


A lembrar-me, uma hora de almoço de cada vez, de que, sendo tudo, não somos, no fundo, nada.

Orla Marítima

O tempo das suaves raparigas 
é junto ao mar ao longo da avenida
ao sol dos solitários dias de dezembro
Tudo ali pára como nas fotografias
É a tarde de agosto o rio a música o teu rosto
alegre e jovem hoje ainda quando tudo ia mudar
És tu surges de branco pela rua antigamente
noite iluminada de noite de nuvens ó melhor mulher
(E nos alpes o cansado humanista canta alegremente)
«Mudança possui tudo»? Nada muda
nem sequer o cultor dos sistemáticos cuidados
levanta a dobra da tragédia nestas brancas horas
Deus anda à beira de água calça arregaçada
como um homem se deita como um homem se levanta
Somos crianças feitas para grandes férias
pássaros pedradas de calor
atiradas ao frio em redor
pássaros compêndios de vida
e morte resumida agasalhada em asas
Ali fica o retrato destes dias
gestos e pensamentos tudo fixo
Manhã dos outros não nossa manhã
pagão solar de uma alegria calma
De terra vem a água e da água a alma
o tempo é a maré que leva e traz
o mar às praias onde eternamente somos
Sabemos agora em que medida merecemos a vida

Ruy Belo



Catarina

Teve 4 a matemática, português e estudo do meio, 5 a expressão plástica e música. Aparentemente não teve 5 a português porque tudo indica que não se deu ao trabalho de ler o texto de interpretação e respondeu à vontade dela. E está proibida de participar no teatro enquanto não melhorar o comportamento na sala de aula e fechar aquela matraca imparável de uma vez por todas, a professora não percebe como é que ela sequer tem tanto assunto para falar e com tão variados colegas.

Sabes que és distraído

Quando apenas cinco meses depois de namorarem é que reparas que os vossos blogs tem ambos nomes de músicas de Arctic Monkeys.

18 de março de 2013

Velho do restelo

Passei a adolescência num bairro a cerca de um quilómetro do centro de Cascais. É um bairro praticamente fechado, na altura quase não tinha trânsito. O estacionamento vazava a partir das oito da manhã e só voltava a encher por volta das oito da noite. Até lá, era tudo o nosso campo de futebol. O passeio grande no centro, como se fosse uma rotunda disforme, era o nosso campo de futebol. Hoje, ao ir a casa da minha mãe para ficar lá com a Catarina, deparei-me com o facto de não conseguir arranjar um lugar, com carros parados em segunda fila. A uma segunda à tarde. O parque automóvel cresceu assim tanto em quinze anos, vinte anos? Está tudo desempregado? O que eu sei é que, nas férias da Páscoa de 1995 estariam, por esta hora, vinte ou trinta miúdos na rua. Agora? Zero.

License to ill

Não me recordo da última vez que tinha ido com a Catarina ao médico. Acordei hoje de "manhã", vamos ignorar as horas para não chocar as pessoas, ela deixou-me dormir e estava sossegada no sofá a ver televisão, como se nada fosse, como se estivesse óptima. Estava com um febrão. Desde pequena que ela raramente demonstra sintomas de doença. Ou bem que o corpo dela se manifesta inequivocamente ou a cena de ela ficar murcha e dormir muito ou pouco ou queixar-se de dores é mentira. É a amigdalite do costume, vai passar metade das férias por casa. Já estou a passar filmes para o tablet para ela ver quando ficar o dia todo em casa da mãe. Isto de ficar doente agora é outra coisa.

16 de março de 2013

Tem dias

Isto é enorme, as palavras iam caindo ao ritmo da boina, coçada e descolorada, a caminho de ser pousada no balcão, um último olhar para trás a perder-se no corredor, uma incredulidade quase pueril, a mão, de dedos grossos e rudes, é levada à cabeça para a coçar, e eu que vivo há cinquenta anos em Lisboa e nunca aqui entrei, bem, passei à porta, mas entrar, não senhor, nunca entrei, voltou a olhar para o livro de apoio escolar que levava para o neto, o raio dos professores é só pedir, só pedir, eu concordei e acrescentei que era a primeira vez mas que agora voltaria mais vezes, ele foi deixando cair umas notas no balcão, amarrotadas, saídas de um dos bolsos das calças, à procura da mais baixa, da certa, e disse agora já é tarde, já não há muito tempo, deu-me a nota, fechei a venda e despedi-me mas as verdadeiras palavras que lhe teria dito ficaram guardadas no saco que levou.

Vou receber hate mail por esta

Os parabéns que lhe enviei morreram no vidro que nos separava, ainda que me ouvisse provavelmente não me veria devido ao reflexo, mesmo que me visse e ouvisse não saberia quem sou.

Numb

A partir de certa altura o som da chuva e da guitarra do gajo que toca na entrada do estacionamento da Garrett tornam-se um só.

Ikea

Reencontro um colega do secundário, igual, igual, assustador, a voz o cabelo a roupa o andar, de novo só a filha loirinha ao colo, desenvolveu um excelente gosto literário lá por Estocolmo, onde vive e casou e, ao contrário de muitos de nós que ficaram, é feliz.

12 de março de 2013

Walk the line

"Agora é oficial. Saiu na media. FaceBook acaba de publicar seu preço da adesão, taxa de €5,99; para tornar membro ouro e manter a sua privacidade como está. Se você colar isto no seu mural estará livre dessa cobrança. Caso contrário, amanhã suas publicações podem se tornar públicas. Mesmo aquelas mensagens que você excluiu ou fotos quem não autorizou. Não custa nada copiar e colar. Pelo sim pelo não"
Este tipo de mensagens deviam ser uma espécie de triagem para quem podia ou não usar facebook. E utilizar ferramentas eléctricas. E andar na rua.

11 de março de 2013

Oh que caralho

Parece que vai mudar tudo outra vez. E que vai ficar um bocado grande grande para trás.