31 de dezembro de 2012

Afinal o anticiclone é uma coisa boa

Comecei este blog há um ano, mais coisa, menos coisa, estou com menos cabelo e mais barba, mais pobre financeiramente, com um cão ligeiramente maior, com uma filha definitivamente maior, a chefe da minha irmã encontrou-nos no pingo doce e disse-lhe que não parecemos pai e filha, eu nem sei bem o que ela quer dizer com isso mas não me soa bem, e eu, eu mudei o que tinha que mudar, cresci o que foi possível, cometi tantos erros, ainda assim bastante menos que em dois mil e onze, ultrapassei e deixei para trás a cruz que me era impossível carregar durante mais tempo, há coisas que já não passam de memórias que tenho dificuldade em evocar, de tão distantes e irreais que agora, olhando para trás, me parecem, portanto, meus caros, se me permitem, encontramo-nos para o ano no mesmo sítio, à mesma hora, para reclamarmos do triste fado que assombra a alma portuguesa, de preferência com um Benfica campeão, gosto de vocês no geral e de uma muito em particular, portanto não percam o próximo episódio que nós também não.

28 de dezembro de 2012

Para 2013


Salvo alguma surpresa será isto, embora as novas edições do Ulisses e do Guerra e Paz sejam candidatas a intrometer-se, caso saiam efectivamente, não é, Relógio d'Água, vejam lá isso, vou terminar de ler os McCarthy em português, a Llansol sempre me atraiu, este é o ano em que me rendo ao Saramago, embora não me parece que algo vá superar o Ano da Morte de Ricardo Reis, curiosamente vejo ali mais portugueses que estrangeiros, a Ana Teresa Pereira fascina-me, não sei nada sobre ela, apenas que tem uma carrada de livros editados pela Relógio d'Água, que furacão literário é este, depois vou aproveitar também para continuar a mergulhar no grande romance contemporâneo norte-americano, depois da Piada Infinita vem o Correcções, a ver vamos no que isto vai dar, aceitam-se sugestões, embora, como digo aos meus livreiros quando eles perguntam se podem sugerir uma coisa, podem dizer à vontade que ouço tudo mas provavelmente não ligo a nada.

27 de dezembro de 2012

Para lá do horizonte

No espaço de pouco mais de um ano perdi o carro que tanto me orgulhava e com quem as pessoas me identificavam, agora tenho um mais modesto, sinal dos tempos, fosse eu um português dos sete costados e tinha-me aventurado em mais um crédito para ir buscar um igual, às vezes tenho ataques de bom senso, valha-nos isso, depois foi-se a ps3, companheira das infindáveis horas de solidão que se seguiram à saída das almas que davam vida a esta casa, receita quase sempre válida para apagar tormentos da mente e do coração nem que fosse por breves instantes, já agora, a merda do computador não consegue fazer uma merda de um remate de fora da área, a sério EA?, a sério?, nem um remate?, a ps3 ficou sem substituta, a minha mãe continua a dizer frases como brincavas muito quando chegavas do trabalho?, e eu respondia mãe, p'lamordedeus, agora já não ouço isso, e, cereja no topo do bolo, agora é o meu ipod que está a dar as últimas, demorei vinte e quatro horas a passar a letra A toda e ainda vou no início da letra B, lá para dois mil e catorze tenho isto cheio novamente, o meu classic de cento e vinte gigas está pela hora da morte, esta mania de nos afeiçoarmos e criarmos necessidades onde elas não existem e não deviam certamente existir, parece que não me imagino a ler no comboio sem there is a hell believe me i've seen it, there is a heaven let's keep it a secret, a bloquear as conversas que me pertubam a leitura, assusta-me esta tendência de humanizar os objectos, assusta-me ainda mais o que faço com as pessoas, pois que já não consigo, por mais longe que projecte o meu pensamento, no espaço e no tempo, de me imaginar numa cama vazia, de não me imaginar apaixonado por ela, de não fazer piadas com o tumblr e com os ray ban dela e com os all-star e com a casa alugada dela que eu digo que vou alugar só para mim, deixando apenas um canto do terraço com musgo para ela, querido, eu sei, já não consigo não incluí-la em tudo, e isso assusta-me devido a motivos e derivado a razões, i am the ocean i am the sea there is a world inside of me, e já não consigo não sorrir sempre que sinto cheiro a baunilha, e como dou por mim quando ouço a música da Amélie, aparentemente a única que o gajo do acordeão sabe tocar durante horas, aquilo deve ser algum tipo de competição entre os gajos de rua para verem quem consegue tocar durante mais tempo o mesmo trecho, de preferência o mais curto e repetitivo, a sair da loja e pensar que a vou ver, são coisas tão pequenas e tão grandes e o tempo é outro tempo diferente de todos os que comigo se cruzam, o nosso tempo mede-se em coisas aparentemente triviais como a duração de um disco ou de um filme, e haviam de experimentar ver um filme com ela, as perguntas que a senhora consegue inventar, muito graças à sua formação académica ao nível das engenharias, eu também sou engenheiro, ainda no outro dia abri o  meu leitor de cds para tirar um cd encravado, faz com que o seu espírito analítico e racional sejam de uma dimensão quase titânica, o que leva a momentos bonitos em que eu tento ser romântico e ela me corrige com frases como isso não é oxigénio é dióxido de carbono, eu já nem consigo andar pela livraria sem pensar em comentar livros com ela, melhor companhia de sempre para falar de livros, sim, eu perdoo o facto dela ler aquele choramingas, agora dei-me conta de que não era nada disto que eu queria falar, gostava muito de voltar a ter uma ps3 especialmente porque, quando me imagino a jogar, a única coisa que vejo é ela a refilar que lhe dou menos atenção, e, agora, é sempre assim com tudo, sempre ela.

Querido nosso senhor Jesus, o Cristo

Quando eu disse que queria ser igual ao Zidane não era ao cabelo que me estava a referir, raios.

23 de dezembro de 2012

Frases e momentos bonitos

Atrás do balcão, ou trincheira, como diz o nosso colega choramingas, ouvem-se frases que são hercúleos testes à capacidade que cada um tem de conter o riso, nomeada e mormente coisas do calibre de "aguarde só um segundo que a minha mãe já lhe dá o talão" e tudo o que seja relacionado com "pacote", tal como "não se preocupe que o talão vai no pacote", "quer que meta isto no pacote" ou o já clássico "não se preocupe que a minha colega tem o pacote aberto à sua espera".

Obrigadinho, Alexander Bell

1.
- Bom dia.
- Ah, ok, já percebi que estão abertos, era só isso, obrigado.
(desliga)
- ...

2.
- Podia-me reservar estes livros para dia vinte de dezembro?
- Claro, em que nome fica?
- Espere, pode antes guardar-me para dezanove de julho?
- ... Só reservamos os livros durante dez dias.
- Não, tem que me GARANTIR que guarda os livros até dezanove de julho, é o dia em que eu posso sair e ir aí buscar, eu PRECISO dessa agenda do Paulo Coelho.
- ... Eu posso enviá-los à cobrança, não tem que cá vir...
- Não. Só no dia dezanove de julho é que tenho dinheiro...
- ...

3.
- Boa tarde.
- Estão abertos até que horas?
- Vinte e duas horas.
- Vinte e duas, vinte e duas... Vinte e duas. Vinte e duas, vinte e duas... Ah, até às dez? 
- ...

4.
- Boa tarde.
- A que horas fecham?
- Só às vinte e duas horas.
- Ah, óptimo. Então passo por aí amanhã à hora do almoço.
- ...

Odeio-vos...

... casalinhos fofinhos às compras para a família de óculos de sol na cabeça, eles, não a família, com piadinhas cúmplices e olhares marotos, havieis de ter um oceano entre vocês que era para verem o que era bom para a tosse.

Shoot me

(ao telefone)
- Pode me dizer que livros de Reiki tem?
- Procura algum em especial?
- Não, prefiro que me diga.
- Ok, temos o Reiki universal,  Reiki para todos, Reiki como filosofia...
- Tem mais?
- Sim... Psicologia do reiki, Reiki para a vida, Reiki essencial...
- E tem mais?
- ... Claro... Energia inteligente, Perguntas sobre reiki, Reiki manual do terapeuta, Reiki - sistema tradicional japonês...
- ...
- ... Reiki a cura natural, Reiki sobre reiki, reiki para crianças e, por fim, saúde e reiki.
- Ah, eu queria a Cura pelo Reiki. Não tem?
- ... não.
- Então obrigado.
- ... 

Regresso ao passado

Em dois dias três visitas de pessoas que não via pessoalmente há muito tempo, a mãe da Catarina, o avô da Catarina, e, o mais importante, um dos meus melhores amigos, e por vê-lo, ele que anda por Berlim, Madrid, Paris, até na Sibéria, armado em artista das artes e instalações, o homem que equilibra uma barra de ferro num ténis adidas, enfim, por vê-lo fiquei com saudades dos meus melhores amigos, todos fora, bem, na realidade há um que ainda cá está mas a mulher não o deixa brincar na rua com os outros meninos, então é como se a minha adolescência me tivesse sido arrancada e espalhada por essa europa fora, ficam prometidos almoços e jantares que serão cumpridos, mas não chega, nunca chega.

Reconsider

Saio da loja tarde, está tudo fechado, parece que só nós e as vitaminas é que estamos abertos, que raio de dia, penso para mim, se fumasse era agora que ajeitava o cachecol e acendia o cigarro, penso nela lá no meio do oceano, penso na visita da minha filha, soube-me a tanto, a tão pouco, aquela sensação de viver entre o tudo e o nada, sou frágil e nada me atinge, tantos clientes em tão pouco tempo e em tão pouco espaço, perguntas que não lembram ao menino jesus, a noite está fria e eu também, o mendigo da porta da igreja despede-se com um boa noite senhor, estou mais habituado ao bom dia senhor para espanto de quem, por algum acaso, desce a rua comigo, mas o mais estranho estava para vir, ao fazer a esquina para a rua do alecrim dou de caras com o poeta-pintor, personagem habitual do chiado, meu arqui-inimigo de lançamentos e eventos finos da livraria, ele que tenta sempre entrar no nosso espaço para vender gravuras do Pessoa e poemas de sua própria autoria, da última vez que o expulsei de um lançamento, estava eu passados uns minutos à conversa com o ceo da empresa, ele aparece e vocifera, naquela sua maneira de falar quase imperceptível para os ouvidos destreinados, com aquele seu jeito poético-pictoresco de comer metade das sílabas, eu escrevi um livro de prosa prosa-poética poesia e pintura e vou lançá-lo aqui e vou expulsar-te a ti como tu me escorraças a mim, e o meu ceo sem perceber nada, e eu a encolher os ombros e a exclamar é justo, é justo, já no outro dia vi-o sentado à porta do belcanto a falar com uma miúdinha que parecia a maddie, ora aí está um cenário bizarro, então lá o encontrei na esquina e ele, pela primeira vez, veio apertar-me a mão e perguntar-me se podia descer comigo a rua, ia para o atelier antes de partir pela linha de sintra para os lados da amadora, e eu acedi, afinal de contas, é natal, estamos longe do nosso campo de batalha natural, então o poeta-pintor confidenciava-me que vendeu duzentos euros em quatro horas, não está mau, confirmei eu, ele queixava-se de que esteve quatro dias sem vender, é a crise, pudera, está mau para todos, disse-me que até cheques aceitava, cuidado, adverti eu, ele encolheu os ombros, tenho de arriscar, saiu-lhe com toda a sinceridade enquanto deixava sair a última bola de fundo que tinha guardada nos pulmões, despediu-se com um bom natal, apertou-me a mão novamente, virou a esquina e desaparecemos da vista um do outro, há comboios e camas vazias à espera, amanhã é um novo dia, amanhã.

21 de dezembro de 2012

Momento laboral do dia

Chegar do almoço e dizer a duas colegas que o mundo acabou na Austrália, assim mesmo, o mundo acabou na Austrália, sim, vi na internet, o ar de susto de uma, a outra percebeu rapidamente que estava a gozar, a outra começou a dizer aos colegas e veio confirmar mais uma vez se era verdade porque queria ir ter com os filhos, o mundo acabou na Austrália, enfim, estou cansado.

Assustadoras

As últimas páginas dos "Diários" do Al Berto.

Read my mind

- Tem o livro de coiso corporal?
- ...
- Assim, coiso, tipo ler.
- ...
- Ler o corpo.
- Linguagem corporal?
- Isso!

Questiono-me se pela minha linguagem corporal ela percebia o que eu achava dela.

Dexter

A sequência de perguntas que um gajo mais queria ouvir num atendimento:
- Tem livro de ciência forense?
- Sim, temos al...
- E de serial killers, também tem?
- Sim, é noutra secção e...
- E de perturbações mentais?
- ...

Ela

Algures  no meio do oceano, eu aqui, assim é o natal.

18 de dezembro de 2012

A melhor analogia que a minha cabeça e corpo cansado conseguem produzir neste momento, depois quando terminar o natal falamos melhor

A coisa mais parecida a que eu consigo comparar o trabalhar na loja nesta altura do ano é o Walking Dead, passo o dia a tentar chegar do ponto A ao ponto B a correr e só vejo braços a tentarem agarrar-me, pessoas a coxear pelos corredores e saídos de esquinas enquanto soltam sons estranhos e balbuciam coisas como livro, ajuda, é coisa para meter muito medo, garanto-vos, e, já que aqui estamos, aproveito também para dizer que o facto de dizerem se calhar vou-lhe fazer uma pergunta um bocado parva não torna a pergunta em si menos parva, era só isto, obrigado.

17 de dezembro de 2012

Have love will travel

Fiz a viagem de comboio da manhã com meia-hora de atraso porque os senhores da CP decidiram, mais uma vez, fazer greve, são bonitas as greves, é as greves e as doenças venéreas, incomodam quem quer trabalhar, foi muito agradável e turístico, very tipical, fazer a viagem de frente para um gajo, com os joelhos dele a tocarem nos meus, e eu a rezar e a prometer a mim mesmo que se qualquer outro tipo zona se tocasse eu partiria para a violência, já as senhoras um pouco ao lado, ameaçavam ir ao parlamento e fuzilar todos um a um "como aquele malandro da américa", e aí acabavam-se as greves, é, senhora, era assim que acabavam as greves, aliás, só não fomos mais cedo porque o Passos Coelho não queria fazer o seu trabalho de pica e o Paulo Portas não queria ser outra vez o maquinista.