15:19 - Chego à escola da Catarina, para a reunião de pais para a preparação da primeira comunhão. A Catarina vai brincar com as amigas. Sortuda.
15:20 - Estou ansioso que me perguntem pela mãe da Catarina. Adoro o ar de embaraço das pessoas quando eu digo que ela está grávida e não vem, elas dão-me os parabéns e eu digo "não, não é meu". Impagável.
15:22 - Sou o único homem na reunião, até agora. Algumas mulheres olham de lado para mim e cochicham.
15:23 - Sou abordado por uma irmã, para assinar uma folha de presença. Escapo a um sermão, pode ser que me safe.
15:24 - Lembro-me bem dos meus tempos de catequese nesta escola. Aliás, nesta mesma sala, naquele palco, apresentei, com microfone e tudo, uma festa de fim de ano da catequese. Não me lembro de nada da festa. A minha mente é capaz de a ter apagado por ser uma recordação demasiado dolorosa.
15:26 - Chegam homens à reunião, devidamente acompanhados das esposas. Sou o único homem sozinho naquele sítio.
15:27 - Algumas mães de colegas da Catarina, que conheço há seis anos, sorriem para mim. Eu estou mais preocupado com a mãe da Carminho, que, no meio da santíssima trindade das mães jeitosas, vai olhando de vez em quando. São quarenta e dois anos (não pode...) de puro deleite. E tem um carro igual ao meu carro antigo. Só pontos a favor.
15:30 - Algumas mães sorriem para mim. Nunca as vi na minha vida. O pullover verde faz mesmo efeito.
15:32 - Vai começar: uma irmã vai mudar o CD que está a tocar como música ambiente. Pode ser que seja Black Keys. Ah, não é.
15:33 - Reparo que uma das irmãs está toda de verde: consigo perceber o encanto da coisa.
15:35 - O Padre começa a falar.
15:37 - Uma mãe, completamente sozinha, ainda não percebeu que o gesto de estar constantemente a puxar a saia para tapar a perna cruzada chama muito mais a atenção do que deixar o joelho e um pouco da coxa à mostra. Ou talvez tenha percebido.
16:01 - O Padre termina de falar. A saída está iminente, não doeu nada.
16:02 - Vai falar a irmã de verde. Estou tramado.
16:04 - A irmã insiste em dizer a frase "mas eu não tenho ninguém que me venha tocar", por causa de não ter hipótese de trocar o dia da missa de preparação para um dia de semana, por não ter ninguém que toque órgão. Medo.
16:15 - Ok, estamos na parte das perguntas: não pode demorar muito.
16:17 - Facilmente percebo que há diversas facções entre as mães: as tradicionais, as modernas, as libertinas e as que se tiverem que ficar mais cinco minutos ali dão em doidas.
16:28 - Primeiro momento de histerismo: uma mãe, revoltadíssima, implora à irmã que não deixe os pais confessar-se no dia das confissões de crianças, "senão depois os pais ficam lá uma hora e meia, como já aconteceu o ano passado, e é uma vergonha!". A reacção da plateia divide-se em risos e em exclamações de horror.
16:29 - O pai que está ao meu lado está no facebook, no iPhone. Esperto.
16:40 - Surge o grande debate sobre as fotografias e o preço das mesmas. No meio do histerismo, ouve-se coisas como "estas mesquinhas" e "já se calavam, porra".
16:46 - A pergunta "as crianças têm mesmo que ir de branco?" lança o auditório num novo momento de histerismo, com, mais uma vez, as mães que se querem a ir embora a liderarem o coro de protestos. São as minhas preferidas.
17:00 - Termina a reunião, mais de uma hora e meia depois.
17:01 - Somos apanhados pela directora pedagógica. Levo um sermão por causa do telemóvel dela e por causa da mãe não ter vindo.
17:02 - A Catarina vem ter comigo com a mão esfolada, a dizer que mais valia ter ficado comigo do que esfolar as mãos. Eu sugiro que da próxima vez eu esfolo as mãos, os joelhos e a cara, e ela fica na reunião. Ela não percebe.