31 de maio de 2014

Ser pai é fodido

Hoje íamos três ao rock in rio: afinal vamos só dois. A semana que antecedeu o concerto que a criatura mais pequena cá de casa tanto ansiava começou bem, embalada na segurança do quotidiano: levei-a à escola, ela falava do concerto, teve o desplante e a segurança e a razão de me corrigir no nome de uma música de Arcade Fire, sempre com aquela voz de expectativa crescente. Mas eis que a semana passa do sonho ao pesadelo: a menina Catarina consegue, num par de dias, estragar todo o esforço que tinha vindo a fazer no sentido de melhorar o comportamento e as notas na escola. Mas, pior do que uma ficha de português feita sem pés na cabeça, muito longe do que ela pode e sabe, pior do que ter voltado ao mau comportamento e ter sido fortemente repreendida e ter ido apanhar ar a meio da aula, foi ter ocultado dos pais, primeiro a ficha, sob o pretexto de que se a mãe soubesse não a deixaria ir ao concerto (erro tão ingénuo), depois todo o mau comportamento que nos chega sob forma de e-mail da directora de turma, num tom fofinho como se pode imaginar. Posto isto, não nos restou alternativa senão castigá-la: não vai ao concerto, fica sem computador ao fim-de-semana, bicicleta idem, prendas do dia da criança nem pensar. Se não fosse pela Xana até o meu bilhete vendia. Agora a Catarina tem até ao fim do ano para se redimir (vendemos o bilhete dela, se ela se portar bem vai ao Alive ver Arctic Monkeys, mas é surpresa). A pessoa que mais sofreu com isto tudo fui eu: há meses que sonhava com o dia de hoje. O concerto vai ser mágico, tenho a certeza, e era daquelas coisas que ela ia guardar no coração: o dia em que foi ver Arcade Fire pela primeira vez com o pai, naquele concerto mágico do dia trinta e um de maio, quando tinha onze anos. Passei tanto tempo a sonhar com isto e agora ela faz uma coisa destas na semana antes do concerto... A educação dela está em primeiro lugar: por muito que me doa ouvi-la chorar, por muito que me custe, por muito que me apetecesse ir imediatamente buscá-la a casa da mãe e arrastá-la contra tudo e todos para o concerto. Mas ela tem que perceber. E eu tenho que perceber, também. Ela tem que meter na cabeça de uma vez por todas que tem de mudar o comportamento e não pode continuar a ser recompensada como se nada fosse. Hoje íamos três ao rock in rio: afinal continuamos a ir três: eu, a Xana e o meu coração partido. Ser pai é fodido, não sei se já vos disse.

6 comentários:

Uva Passa disse...

Se te ajuda a colar as partes, fizeste muito bem. É mesmo assim que se educa uma pirralha. Também tenho disso lá em casa, e acredita que às vezes o castigo mais duro, é o que funciona melhor.

Pipoco Mais Salgado disse...

Nem é tanto ser pai, meu caro.

É fazer a coisa certa...

Silent Man disse...

Eu tou com os dois aí de cima! Parabéns pela coragem. Eu espero tê-la também quando for a minha vez!

Abraço

A Mais Picante disse...

Os castigos que lhes damos doem sempre mais a nós que a eles. Ninguém disse que educar é fácil mas, por vezes, um "não" é a maior prova de amor que lhes podemos dar.

Ricardo disse...

Parece que aprendemos os dois uma lição.

Cat disse...

ohh :(
É fodido, é. Coisas dessas doem muito. Mas, sei-o de fonte segura, é o melhor remédio. Recompensar mau comportamento dá, invariavelmente, asneira grande e irreparável. E quando eles têm 25 anos é que já não há nada a fazer...