20 de fevereiro de 2014

Noite

Enquanto enrolava o cachecol à volta das mãos a dor nas articulações não me deixava esquecer as mesas 
a boca entre o corpo, soberbo sufoco
que acartámos e as gôndolas que arredámos, tento em vão encontrar uma posição melhor, sentado desconfortavelmente num comboio frio com as vinte e uma horas já atrás das costas e 
prenúncio de tudo no ar
sem um livro para ler, isto para quem acabou de sair de um sítio com setenta mil livros é, poeticamente falando, estúpido, assim
a forma é o gesto, contido e modesto
tenho tempo para pensar em como tenho tempo para pensar, e o pensamento é um bicho estranho e fugidio com vontades insondáveis, metamorfoseia-se em sonho ou pesadelo sem darmos conta, e eu, 
seguro o intento, prolongo o altar
que até sou gajo para me preocupar com merdas existencialistas e coisas de intrínseco valor, não deixei de lamentar a falta do livro, tinha lá o Infância, Adolescência, Juventude,
depois vai-se o jeito, despido a preceito
aninhado na minha secretária à espera de ir dar passeios à beira mar sobre carris enferrujados, a vista fica para outra altura,
vertigem em ombros de andor
as costas lembram-me que já não vou para novo mas o lançamento correu bem e não me resta, apesar de tudo, outro remédio senão sorrir, 
cabeça em saturno, se acordo ou se durmo
vendeu-se pouco mas foi bonita a festa, porreiro pá, o ex-primeiro a falar da Arendt e do Eichmann, ele há coisas do diabo,
seguro o intento, prolongo o altar
sinto alguma falta do espaço antigo de lançamentos, penso nas pessoas que conheci por trabalhar onde trabalho, actores, políticos, jornalistas e até, às vezes, escritores, estas doses de realidade ajudam a dar ânimo quando tudo parece enrolar num manto cada vez mais funesto, mas, a verdade, livraria que me amparas,
só eu te sei dizer
só eu te sei dizer.

3 comentários:

Uva Passa disse...

É precisamente nessas alturas, em que não tens os livros dos outros para te atulharem as ideias com coisas que não te dizem respeito, que tu havias de pegar na caneta e falar sobre ti.
A malta agradece, até porque esses livros da tua livraria podemos nós ler, mas a tua cabeça é insondável.

Ricardo disse...

Insondável até para mim.

E.M. Valmont disse...

está brilhante. a prosa e poesia a convergir para o mesmo. muito bom mesmo. parabéns.