21 de outubro de 2013

Granta, aqui vou eu II

Ficção Impossível *

Vais passar uma hora a escolher uma citação?!
 Porque é que não pegas num livro e escolhes uma enquanto trabalho?!
Xana

          Estava a chuviscar, como se finalmente o outubro tivesse decidido revelar a sua verdadeira face, talvez cansado de passar por setembro, e ele, à porta do centro internacional de cultura literária puxou a gola do casaco para cima e tacteou o bolso interior para tirar um cigarro. Dois problemas: não tinha tabaco e não fumava. Não gostava de tocar a campainhas, portanto ia ficar a fumar à porta até chegar alguém, mas, não sendo fumador, teria de arranjar um qualquer outro motivo para estar ali, à mercê da chuva, uma chuva tímida como o ataque do Benfica deste ano: um gajo sabe que existe, de um determinado ângulo até se consegue ver, mas, no fundo, no fundo, causa pouca mossa. Fingiu que utilizava o telemóvel, o ecrã táctil salpicado de gotas, os segundos a passarem lentamente. Pouco tempo depois, aproxima-se alguém, não conseguiu reconhecer a pessoa mas, para o efeito, pouco importa: a pessoa toca à porta e pede para entrar. Aproximou-se, sacudiu o casaco e entrou logo atrás. Após as primeiras escadas de pedra encontrou um corredor estreito e curto de paredes carregadas de cartazes anunciando tertúlias antigas, poeirentos obituários culturais, retratos de gente de olhar vago e sorriso torto. Após umas segundas escadas, sempre atrás do senhor que entrou à sua frente que parecia conhecer bem o sítio, entra numa espécie de escritório. O estranho cumprimenta calorosamente a secretária e volta à esquerda, entrando num corredor oblíquo e que se vai estreitando a cada passo que davam, cada passo um golpe no silêncio que se fundia com o espaço. Depois de passarem por um local a céu aberto no meio do prédio e descerem umas novas escadas começava a temer que minotauro iria ele encontrar naquele labirinto. Causou-lhe alguma confusão fazerem um evento literário num sítio labiríntico como aquele pois toda a gente sabe que as gentes das letras por norma saem pouco e enxergam mal, rapidamente se perdiam ali e quando dessem por elas, quando dessem por elas estavam num canto em posição fetal a recitar passagens de Roland Barthes.
          Finalmente chegaram ao local do evento: várias cadeiras coloridas alinhavam-se militarmente defronte de um pequeno palco, onde três cadeirões se preparam para receber as iluminadas vozes da literatura. O outro senhor, aparentemente o primeiro a chegar, segue para a direita da sala. Ele opta pela esquerda escolhe um lugar numa das primeiras filas, uma táctica ponderada: fica suficientemente perto para ouvir bem e longe o suficiente para poder ir deitando o olho ao telefone e tomando notas das barbaridades que se vão dizendo sem causar má impressão aos convidados. Por falar em convidados, chega a primeira convidada: Adélia Carreira e o seu marido, Jaime Tocha. Sempre gostara muito da Adélia Carreira, o seu ar de louca que mora com trezentos e trinta e dois gatos, numa casa mal arejada onde o sol apenas tem licença para se esgueirar por ténues frestas e invadir o felino espaço, e a escrita dela, a escrita dela. Entram mais três ou quatro convidados e o anfitrião que obriga toda e qualquer cara conhecida a subir uns andares e a visitar a exposição da sua filha, se ele soubesse o que quer dizer nepotismo usava essa palavra agora.
          Os cumprimentos, abraços e pancadas nas costas iam-se sucedendo, sôtor, sôtor, meu caro, sôtor, caríssimo, sôtor, minha querida, sôtor. Entra mais uma das oradoras, nova, finalista de um prémio literário, haja coragem para se sentar ao lado de dois poetas com nome feito, e toma o seu lugar no palco.  Ajeita o cabelo uma última vez, não te preocupes, querida, pensou ele, eles gostam de ti pelas tuas letras, redondas e curiosas, ninguém liga ao teu cabelo. Enquanto ia pensando no que um prémio literário faz a uma pessoa, não deu por uma pessoa ter entrado: era a Matilde do Rosário Teixeira, editora que lançou alguns dos mais prolíficos autores da nova geração. Caminhou confiante pela sala, os saltos curtos a marcarem o compasso, ela sabe quem é e o que representa. O anfitrião ia discursando sobre a importância da gaiola de madeira que sustenta o prédio e que estava visível no meio daquela sala, passando depois para histórias sobre casinos ilegais e rusgas da pide. Os convidados sorriam, afinal de contas, tudo é melhor do que ver exposições por obrigação.
          A sessão parecia estar a ser interessante, com a apresentadora a fazer perguntas meta-literárias a que os autores tinham uma enorme dificuldade em compreender e responder, mas a cabeça dele já não estava no mísero palco: tinha a atenção totalmente concentrada na senhora editora. Passou a sessão toda a desviar o olhar para ela, a bater com o pé nervosamente, precisava de falar com ela, precisava de lhe dizer qualquer coisa. Planeou tudo cuidadosamente: a sessão terminava e ele aproximava-se dela, ia esperar que terminasse uma qualquer conversa de circunstância e, enquanto ela estivesse a preparar-se para sair, apresentar-se-ia e pediria o seu e-mail para lhe enviar a sua obra-prima, trinta e três anos em papel, uma coisa totalmente autobiográfica. Dispensava prémios literários, reconhecimentos estilo casa dos segredos, ascensões à fama por escadas rolantes de curta duração e fundações inquinadas. Apenas queria ver o seu nome num livro da sua chancela, ser colega de editora do seu herói, não, o Van Basten não escreve, não era nesse que ele estava a pensar.
          Estava tão embrenhado nos pensamentos delirantes que não deu pela sessão terminar: foi despertado pelas palmas secas e pouco sentidas que se faziam ouvir. Levantou-se e procurou-a no meio da multidão: em vão. Afastou-se das cadeiras, desviou-se dos sôtores, ignorou os pobres mas nobres vendedores de livros que ali acudiram em vão, ninguém comprou nada, e procurou a porta. Espreitou casualmente para o corredor, estava vazio. Voltou a olhar para a sala e não a viu em lado nenhum e, desiludido, decidiu descer as escadas. A cada passo que dava ia pensando que o acesso ao local dos eventos deveria ser sempre por ali: ao invés de atravessarem corredores, escadas e um saguão que ficava bem em qualquer prédio de Beirute, esta saída pelas traseiras era composta por apenas dois lanços de escada. Já via os carris do eléctrico na entrada do prédio quando, ao atravessar a porta, chocou com alguém que dava aqueles últimos bafos no quase extinto cigarro, qual adolescente a fumar às escondidas do pai: era a senhora editora.
Peço desculpa, disse.
Eu é que peço desculpa, com licença, respondeu, enquanto ela se desviava para entrar no edifício. 
Um leve sorriso e um virar de costas foi tudo o que podia ter guardado do encontro mas, estupidamente, não resistiu.
Matilde do Rosário Teixeira, chamou-a, quase entre dentes. Ela voltou-se, espantada por vê-lo de mão esticada para ela. Chamo-me Bernardo e vou ser o seu próximo autor.
A expressão dela mudou repentinamente, como se não soubesse o que dizer. Rapidamente se recompôs.
E como que é que se chama o seu livro?
Empalideceu. Não tinha título para o livro. Não tinha livro, aliás, mas isso, para ele, era secundário.
O nome do livro?, perguntou, tentando ganhar tempo.
Sim, o nome, diga-me lá para ver se é coisa para perder o meu tempo ou não. Notava-se a impaciência na voz dela. Ele tinha que lhe dizer um nome, algo que, naquele espaço de tempo, era impossível, como a ficção que iria, um dia escrever. Ficção, impossível.
Ficção impossível, respondeu como quem tinha acabado de carregar no buzzer de um qualquer concurso de prime time de estação pública.
Ficção impossível, é?
É. A sua confiança estava de volta. Ficção impossível. É uma coisa moderna, original, quase autobiográfica, assim uma espécie de Memória de Elefante mas do século XXI.
Ah, mas esteve na guerra colonial?
Não...
Em alguma guerra?
Também não... O calor começava a incomodá-lo fatalmente.
É psiquiatra?
Não... Ele não aguentava mais a tortura, ia desistir. Bem, obrigado pelo seu tempo, eu tenho que ir andando e...
Não, não, interrompeu ela, espere lá, agora quero saber mais, envie-me lá o seu livro. Abriu a bolsa e tirou um cartão. Fico à espera.
Balbuciou um obrigado e saíu porta fora. A chuva tinha parado e já se conseguiam ouvir os primeiros acordes da música africana que costuma embalar a estátua do poeta no largo um pouco mais abaixo. Apertou o casaco, respirou fundo: há muito tempo que via a sua respiração a materializar-se diante dos seu olhos: sentia a falta do inverno a sério. Começou a caminhar, o cartão a rodar entre os dedos, a decisão estava tomada: ia escrever o romance, vou escrever o romance, vou escrever o romance, repetia para si mesmo.
          Pensou em dar um salto à primeira livraria que lh aparecesse à frente, ia buscar inspiração no cheiro dos livros, sempre com o romance no pensamento, o cartão na mão, mas a atenção das pessoas é independente da sua vontade, e o seu olhar foi cair num jovem hipster sentado numa daquelas esplanadas da moda, macbook air aberto num processador de texto qualquer, bicicleta encostada à cadeira. Ao passar em frente à banca de jornais lembrou-se que o Benfica jogava para a taça. Rodou mais uma vez o cartão entre os dedos. Olhou para a o cartão, para o jornal, depois para o hipster que escrevia. Mudou de passeio, passou rente à mesa e, sub-repticiamente, deixou cair o cartão em cima do teclado dele. Vou escrever um romance, disse em voz baixa, mas não vai ser hoje.

* qualquer semelhança com pessoas, locais ou acontecimentos reais é pura coincidência.

1 comentário:

São João disse...

Epá tão bom, estou-me a rir para dentro :D