27 de julho de 2013

vida aguda atenta a tudo / e contudo para acabar mais depressa no escuro / escrevo rescrevo / e enfim reluzo e desmorro / (finjo pensá-lo) / um pouco um pouco / acautela a tua dor que se não torne académica *

Ultimamente tenho tido recordações de situações da minha infância nas quais não pensava há muito, muito tempo, ao ponto de, quando tenho essas recordações, estas serem extremamente vividas e acontecer algo curioso: a partir de um pequeno fragmento começa a formar-se uma imagem cada vez maior e mais detalhada na minha cabeça e consigo distinguir bem certos pormenores, bem como isolar áreas ou momentos das quais não guardo qualquer recordação e há apenas um vazio, e é engraçado perceber de onde é que têm surgido, ultimamente de forma persistente e consistente, os rastilhos para estas explosões de memória: os livros. Sentado no Metro, algo que nem é normal, estava a terminar de ler o conto do Pahmuk na Granta, escritor pelo qual eu não sentia o menor interesse, empatia ou desinteresse, fruto natural de um desconhecimento compreensível, quando uma cena me fez parar de ler:  dois miúdos e a sua mãe vão visitar a avó, cujo prédio "parecia uma caixa de fósforos assente na vertical", e onde a mãe, depois de apanhar a chave atirada da janela pela avó, para abrir a porta "girou-a na fechadura com alguma dificuldade. A grande porta de ferro abriu-se devagar". 
A Lisboa dos anos oitenta não é Istambul dos anos cinquenta: o prédio da minha avó não tinha uma porta de ferro, mas a verdade é que, para um miúdo magrinho e pequeno como eu era, custava muito a abrir. Lembro-me de esperar à porta, depois de subir do Cais-do-Sodré até à Rua de Santa Catarina, com sorte pelo elevador da Bica, de tocar na campainha e ficar a ver a porta a estender-se a caminho do céu, tão alta que ela era aos meus olhos, sempre impaciente para que a avó a abrisse finalmente. A porta abria-se e entrávamos num espaço escuro, confrontados imediatamente com a escadaria de madeira entorpecida e gasta. Não me recordo de alguma vez a termos subido. O mais curioso desta entrada era que, nas paredes da casa da minha avó existiam duas portas: uma pela qual entrávamos, directamente na cozinha, o que sempre me fez confusão, e uma segunda, que dava para um dos quartos e que, obviamente, não funcionava. Já lá dentro, lembro-me dos budas na cristaleira e do aviso de nunca, em caso algum, lhes tocarmos, sob pena de castigo infinito e pesado, e uma pintura de caça, certamente um cenário inglês com um caçador e raposas. Existiam dois quartos, o dos meus avós e outro em que não me recordo de entrar, onde dormia normalmente uma prima da minha avó, vinda do Porto e que acabou, com a saída de casa do meu tio e a morte do meu avô, por ficar a morar lá até ela, também, ter morrido. Não me recordo da morte dela, nem da data nem da circunstância. Recordo-me da morte estúpida do meu avô, demasiado cedo, não conheceu todos os netos. Já a minha avó conheceu todos os netos e a bisneta: a Catarina nunca se irá lembrar dela: é só uma velhinha com ar embevecido que a segura ao colo em algumas fotos. Não se vai lembrar da avó que, na manhã em que morreu, quando a fui visitar antes de entrar no trabalho, me implorou para que lá levasse a Catarina, porque tinha que ver a Catarina, queria muito ver a Catarina. A Catarina não chegou a ir.
Gostava muito de visitar a minha avó, em pequeno, algo que fazia com alguma frequência: estava com ela, por exemplo, no dia do incêndio no Chiado, já ali ao lado, a minha mãe com algum pânico e tudo, coisas de mãe. Eu a minha irmã costumávamos sentar-nos na janela a dar pão aos pombos, ou então íamos brincar para o Adamastor. Quando passeávamos com a minha avó pelas redondezas todos os corrimões eram escorregas e todas as lojas potenciais sítios para prendas, a generosidade e carinho dela não tinham limites. 
Não pensava na casa da minha avó, nem em tantas situações há demasiado tempo. Nela, sim, nela penso muitas vezes. Especialmente por trabalhar ali tão perto e por ter a certeza de que seria o maior orgulho da sua vida ver-me como gerente de um sítio que ela conhecia desde sempre.
Pensar na casa fez me recordar tantas coisas, boas e más, tal como o dia em que, depois da sua morte, eu e o meu pai fomos os dois, sozinhos, desmontar os móveis de casa dela e levar tudo o que ficaria para nós, tudo o que seria guardado e ficaria como memória física de alguém que não precisava, jamais, de algo físico para que nos recordássemos dela. Deixei a mulher e a filha em casa e encontrei-me com o meu pai à porta. Naquela altura, a relação que tinha com o meu pai era pouca ou nenhuma. Não confundir, atenção, com os sentimentos que um pai e um filho sentem um pelo outro, que permaneciam imutáveis. Por uma série de circunstâncias e afastamentos, tínhamos uma relação distante. Recordo-me, quando vivíamos juntos, do seu alhear-se a meio de conversas, dos silêncios, das más disposições, do olhar no infinito. 
Foi uma tarde de silêncio: o meu pai e eu a desmontarmos a casa de infância dele, a desfazermos memórias, a limparmos os restos de vida de um local que lhe era muito. Foi dos silêncios mais difíceis da minha vida, um silêncio preenchido pela distância no olhar dele, pela agrura dos seus gestos. Terminámos, carregámos o carro e foi cada um para seu lado, sem saber que, passados sete anos, iria conseguir perceber que sou muito mais parecido com ele do que alguma vez desejei ser. 

* Herberto Helder.

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