28 de setembro de 2012

Curiosidade é uma sonda em Marte

Estava uma rapariga a chorar no comboio, trajada, de perna cruzada, a capa como que a protegê-la do mundo, apenas as pernas cruzadas de fora, de vez em quando lá saía uma mão da fortaleza que apanhava um lenço que guardava algures, ia limpando os olhos, ia secando as agruras que lhe saíam pela fronte, e, nesses momentos, levantava o olhar do banco da frente, olhava em volta, encolhia os olhos de censura, as faces vermelhas, os dedos que tremiam, e olhava para as pessoas à sua volta, como que a questionar como é que se atreviam a olhar, olhar para ela, logo para ela, que chorava, não sabemos porquê, nunca saberemos, sendo que nada temos a ver com isso, na verdade, mas, enquanto lia, não conseguia deixar de pensar porque é que ela choraria, o que a faria não aguentar as lágrimas perante todas aquelas pessoas, e porque é que ela parecia, a determinado momento, querer chamar a atenção daqueles que já não a davam, claro que não soube, nunca vou saber, mas é uma imagem que marcava, a doentia luz clara do comboio em contraste com aquele figura de negro lavada em lágrimas, lágrimas silenciosas, e eu, obsessivamente curioso, nunca vou saber porquê.

2 comentários:

bee disse...

mas se fosses gaja já tinhas uma (ou varias) teorias para partilhar.... enquanto lia o teu post ocorreram-me logo duas ou três :P

Ricardo disse...

Por favor, partilha! :D