4 de março de 2012

Uma bonita experiência

15:19 - Chego à escola da Catarina, para a reunião de pais para a preparação da primeira comunhão. A Catarina vai brincar com as amigas. Sortuda.
15:20 - Estou ansioso que me perguntem pela mãe da Catarina. Adoro o ar de embaraço das pessoas quando eu digo que ela está grávida e não vem, elas dão-me os parabéns e eu digo "não, não é meu". Impagável.
15:22 - Sou o único homem na reunião, até agora. Algumas mulheres olham de lado para mim e cochicham. 
15:23 - Sou abordado por uma irmã, para assinar uma folha de presença. Escapo a um sermão, pode ser que me safe.
15:24 - Lembro-me bem dos meus tempos de catequese nesta escola. Aliás, nesta mesma sala, naquele palco, apresentei, com microfone e tudo, uma festa de fim de ano da catequese. Não me lembro de nada da festa. A minha mente é capaz de a ter apagado por ser uma recordação demasiado dolorosa.
15:26 - Chegam homens à reunião, devidamente acompanhados das esposas. Sou o único homem sozinho naquele sítio.
15:27 - Algumas mães de colegas da Catarina, que conheço há seis anos, sorriem para mim. Eu estou mais preocupado com a mãe da Carminho, que, no meio da santíssima trindade das mães jeitosas, vai olhando de vez em quando. São quarenta e dois anos (não pode...) de puro deleite. E tem um carro igual ao meu carro antigo. Só pontos a favor.
15:30 - Algumas mães sorriem para mim. Nunca as vi na minha vida. O pullover verde faz mesmo efeito.
15:32 - Vai começar: uma irmã vai mudar o CD que está a tocar como música ambiente. Pode ser que seja Black Keys. Ah, não é.
15:33 - Reparo que uma das irmãs está toda de verde: consigo perceber o encanto da coisa.
15:35 - O Padre começa a falar. 
15:37 - Uma mãe, completamente sozinha, ainda não percebeu que o gesto de estar constantemente a puxar a saia para tapar a perna cruzada chama muito mais a atenção do que deixar o joelho e um pouco da coxa à mostra. Ou talvez tenha percebido. 
16:01 - O Padre termina de falar. A saída está iminente, não doeu nada.
16:02 - Vai falar a irmã de verde. Estou tramado.
16:04 - A irmã insiste em dizer a frase "mas eu não tenho ninguém que me venha tocar", por causa de não ter hipótese de trocar o dia da missa de preparação para um dia de semana, por não ter ninguém que toque órgão. Medo.
16:15 - Ok, estamos na parte das perguntas: não pode demorar muito.
16:17 - Facilmente percebo que há diversas facções entre as mães: as tradicionais, as modernas, as libertinas e as que se tiverem que ficar mais cinco minutos ali dão em doidas.
16:28 - Primeiro momento de histerismo: uma mãe, revoltadíssima, implora à irmã que não deixe os pais confessar-se no dia das confissões de crianças, "senão depois os pais ficam lá uma hora e meia, como já aconteceu o ano passado, e é uma vergonha!". A reacção da plateia divide-se em risos e em exclamações de horror. 
16:29 - O pai que está ao meu lado está no facebook, no iPhone. Esperto.
16:40 - Surge o grande debate sobre as fotografias e o preço das mesmas. No meio do histerismo, ouve-se coisas como "estas mesquinhas" e "já se calavam, porra".
16:46 - A pergunta "as crianças têm mesmo que ir de branco?" lança o auditório num novo momento de histerismo, com, mais uma vez, as mães que se querem a ir embora a liderarem o coro de protestos. São as minhas preferidas.
17:00 - Termina a reunião, mais de uma hora e meia depois.
17:01 - Somos apanhados pela directora pedagógica. Levo um sermão por causa do telemóvel dela e por causa da mãe não ter vindo.
17:02 -  A Catarina vem ter comigo com a mão esfolada, a dizer que mais valia ter ficado comigo do que esfolar as mãos. Eu sugiro que da próxima vez eu esfolo as mãos, os joelhos e a cara, e ela fica na reunião. Ela não percebe. 



2 comentários:

bee disse...

fantástica descrição. salvo alguns pormenores técnicos, descreveste as reuniões de pais dos meus filhos!...

Ricardo disse...

Bee, isto foi da preparação da comunhão. As reuniões de pais são mais giras. Gosto sempre das discussões do tipo:
- Mas o seu filho espeta lápis nos braços das crianças!!!
- Ele é apenas criativo!!
Adoro.